Segunda Crônica da República

Adalberto Fávero

O Cidadão na Aldeia Primitiva

Astrogyldo é um sujeito pós-moderno, daqueles que acreditam em tudo que a mídia conta, que a esquerda nega e que a direita jura ser verdade.

Ele acha a internet o máximo, mesmo tendo computador e nunca ir além de enviar e-mails ou acessar as redes sociais.

Astrogyldo, nasceu, cresceu, casou-se e se separou na capital da conhecida república do sul. Orgulha-se de sua cidade!

Acha uma ideia brilhante tudo que enxerga. Não sabe bem para que servem faróis do saber, monumentos fálicos espalhados por vários pontos da cidade, praças de diversas etnias, portais dos centros comerciais ou gastronômicos, a multiplicação dos shoppings…mas enfim!?!

Astrogyldo adora passar pela rua central de um bairro cheio de restaurantes, onde se come e se bebe em orgia alimentar inimaginável, que nem mesmo em sonho pode alcançar. Sacia-se pelo odor e aliena sua dor.

Às vezes, aos domingos, ele toma o ônibus e passa grande parte do dia girando pelos parques, sem entrar, para não arriscar pagar uma outra passagem, segundo ele.

Maravilha-se com os metros quadrados de árvores por habitante, embora não saiba ainda quais e quantos metros constituem a sua parte de qualidade de vida medida pela qualidade de ar que respira.

Astrogyldo, é um sujeito trans!

Transtornado com tanta gente que não entende toda beleza contida na sua cidade.

Translúcido pela incapacidade de sua ex-esposa, que insiste em dizer que ninguém come parque, praça e monumentos e nem pode dar descarga nos magníficos portais que tanto ele elogia, pois todo ano a fossa da sua casa enche, espalha um fétido sentido de exclusão e não há esgoto em seu bairro de “nova” classe média baixa ou classe baixa alta, se é que existe isso.

Ele é um sujeito híbrido. Desses personagens metade homem metade máquina, que faz sucesso nos filmes de ficção que seus filhos tanto gostam.

Na verdade, é meio transgênico, sem ter sido gerado em manipulação genética. Sua transgenicidade se constitui nessa hibridez tão genuína e na capacidade pós de ser virtual, de ler o real como obra de ficção e viver nesse sonho.

Seu maior êxtase é assistir a um desses jornais nacionais quaisquer e verificar como são grandes as obras e boas as intenções da classe dirigente de seu país. Outro momento de glória é saborear os programas rurais de uma emissora de seu país, com as belezas insondáveis e tantas vezes repetidas da Amazônia ou das chapadas, agora fumegantes.

Não entende como podem existir pessoas incapazes de perceber todas essas belezas e façanhas de sua nação e/ou compreender tanta ingratidão. Imagine, diz constantemente, que há pessoas que criticam a presença das empresas transnacionais e não veem todo bem que fazem aos seus conterrâneos, gerando empregos e oferecendo toda a sua tecnologia para o bem-estar coletivo.

Astrogyldo, confesse-se, tem lá seus dias de dúvidas,

Há momentos onde a casa parece ter caído. Sente-se perto das ruínas, busca encontrar as antigas paredes para nelas se escorar e fazer sobreviver suas certezas intocáveis de homem pós e globalizado.

O estado de coisas no mundo anda incomodando algumas de suas crenças.

Imagine que até a ida para a lua colocam em xeque! Certos profetas do presente começam a falar que a Terra não é redonda! Mas exatamente essas mentiras lhes dão forças para perceber que querem fazê-lo acreditar que os senhores do mundo e suas verdades podem ser um grande engodo.

Num desses momentos de confusão, um de seus gurus prediletos, que morou em New York e voltou metido a discutir educação e escrever aos montes nos jornais, usou uma frase de efeito que ele não esquece jamais: “Enquanto o mundo agoniza, alguns neobobos discutem o sexo de Édipo”.

Achou sensacional e, agora, repete esse lema pessoal a todos que tentam argumentar contra sua certeza inabalável.

Astrogyldo, não lê muito e não curte programas intelectuais de tv (existe isso???). No entanto, adora Jô Soares, Dimenstein, Jabor, Stalin, Fernando Henrique Cardoso e Miriam Leitão…está em fase de admirar juizes justiceiros e ex-militares que se candidatam a representá-lo ou governar a tal república do sul.

Ele se acha um racionalista, ateu e homem dos novos tempos.

Para não dizer que não crê em nada, reza de vez em quando. Sobretudo quando fica doente ou teme faltar-lhe a segurança do emprego de assessor oficial (não se sabe bem do que) desse mundo novo e quase perfeito em que vive.

Quando isso parece não bastar, ele faz uma fezinha num terreiro do lado de casa ou na igreja de Santo Antônio, o santo das causas perdidas, ou no templo da igreja universal, que lhe oferece respostas de prosperidade para seu consumo imediato. Porém, não gosta muito dessa última opção porque sempre precisa dar alguma coisa em troca.

Adora a competição do mercado. Parece-lhe que tudo se resolve por aí entre as empresas, entre os políticos e entre os homens comuns.

Astrogyldo adora o momento presente e viver a vida. Os outros que se lixem. Costuma insistir que a liberdade de cada um vai até onde começa a liberdade do outro, mesmo percebendo que algumas pessoas conseguem esticar mais seu espaço de liberdade do que as demais.

Acha que o progresso, a produção e a política são coisas naturais que se bastam por si mesmas.

Astrogyldo é como um sujeito que perdeu a própria sombra, por não possuir mais dimensão de futuro, de passado e do outro. Importa o presente.

No fundo é um homem só! Para ele, outrora o corpo foi metáfora da alma, depois foi metáfora do sexo e hoje já não é metáfora de coisa nenhuma. Porém, nada disso lhe parece ser relevante.

Quando senta numa mesinha do Mcdonalds, do Bobs ou Burger king  e se enche de uma refeição plástica / fast food, acha-se um cara realizado e profundamente atual; satisfeito!

Olha assoberbado para os pobres mortais que se alimentam no restaurante vegetariano ao lado e não entende aquela mania insensata de consumir produtos naturais.

Astrogyldo é uma pessoa de plástico e detergenciável. Ele sabe e gosta de se sentir assim: impermeável, intocável, absoluto, neutro, incomum, distante do tempo, maquiavélico, eterno, líquido e impassível.

É atualíssimo esse morador da capital ecológica da república. É cidadão do primeiro mundo. Faz parte de um bloco cultural, político e econômico enorme e não auto perceptível. Um grupo silencioso, cujo silêncio é ativamente sonoro.

Antigamente falava-se do silêncio das massas. Isso foi o acontecimento da geração anterior a esta. Hoje não é por omissão ou defecção que se silencia ou se age. A ação desse bloco é por infecção.

Trata-se de uma peste nova e incurável. A ação deve dar lugar ao operacional; não é o falar é o fazer; não é o saber, é o fazer saber; na propaganda não é crer, é o fazer crer; não é mais o conhecimento, são as competências e habilidades…

Trata-se de um rol de homens que fazem amor pela tela (que insalubridade!) e cursos por teleconferências (anonimato insensível!), uma nova espécie de deficiência: motora e mental.

O sexo é mercadoria apropriável e nem sempre reciclável.

Essa sensação (?) parece nova, pois a leitura da tela ou o fazer amor tecnológico é diferente do olhar frente a frente ou do sentir na pele o contato com o outro/a. O paradigma da sensibilidade mudou e o olhar está sendo apagado.

Parece ser a involução do sujeito.

Não é mais o olho que tudo expressa ou o olho do Estado que tudo vê. “Passou-se do inferno dos outros para a êxtase de si mesmo; do purgatório da alteridade para os paraísos artificiais da identidade; não há alienação do homem pelo homem, mas homeostase através da máquina”.  (Boaudrilard)

Astrogyldo, muitas vezes, pensa-se como aquela homem bolha, envolvido por todo espaço médico num escafandro oferecido pelas experiências da Nasa. Está protegido de todo contágio pelo espaço imunitário artificial que a mãe só acaricia por uma parede de vidro; que cresce em atmosfera extraterrestre, sob o olhar da ciência. É o irmão experimental do menino lobo, menino selvagem, hoje gerado pelos computadores que criam essa deficiência do ser.

Astrogyldo é um verdadeiro momento Caetano, num arroubo de culto a si mesmo e dizendo dispensar a companhia daqueles que o vaiam ou com ele não concorda, ao cantar que um tapinha não dói.

Faz pensar se o problema de nossos dias é de anomia ou de anomalia!? Essa ausência de alteridade gera uma outra alteridade inatingível, absoluta, intocável, amorfa, filha da máquina; um vírus de epidemia mortal.

Para desespero da sociologia e da estática, reina a forma, a moda no inferno de si mesmo que substituiu o inferno dos outros. Analisa-se o mundo inteiro sem ser capaz de analisar a si mesmo porque a sensação de ser o epicentro do universo, o umbigo do mundo parece soberana.

Astrogyldo não percebe a perda de suas raízes, daquele algo que faz brilhar os olhos das pessoas. Seu presentismo profundamente centrado na máquina que ele próprio não domina e nem sabe manipular, não o deixa perceber que as pessoas têm o direito ao mínimo, no mínimo, porque existem e não para existirem.

Ele parece uma ilha ou uma nave pairando no espaço sideral, sugando energias diversas para a própria subsistência. Incorpora aquela máxima de Habermas de que “a enorme massa de saber quantificável e tecnicamente utilizável não passa de veneno se for privada da força libertadora da reflexão”.

Ninguém sabe direito por onde passa a formação acadêmica de Astrogyldo. Faz parte de seu estado amorfo esse mistério.

Às vezes parece encarnar o conhecimento científico como pensamento que não se conhece, pois usa as ciências naturais (e todas não são?) como se elas não se concebessem como realidade social e as ciências antropossociais (alguma não o é?) como se essas não tivessem meios para conhecer sua raiz biofísica.

No fundo, ele é um espelho da maioria das escolas com seu saber pronto e acabado, com seu espírito científico incapaz de se pensar de tanto crer que é reflexo do real; com sua incapacidade de autointerrogação e autoquestionamento e sua crença de que a ciência que cultua enquanto teoria é reflexo do real.

Podemos dizer que este personagem pensa que de Galileu a Einstein, de Laplace a Hublle, de Newton a Bolvi nada tenha mudado, que o espírito do homem continua como centro do universo.

Imagine dizer que os cidadãos, são cidadãos de um planeta gota de areia no universo, “suburbanos de um sol periférico, ele próprio exilado no contorno de uma galáxia também periférica de um universo mil vezes mais misterioso do que se teria podido imaginar há um século”. (Ilya Prigogine)? Imagine!

Para Astrogyldo isso seria o fim de suas certezas acéfalas e, aparentemente, insensíveis.

Num desses dias, alguém ousou pensar a sua cidade (aquela capital da república do sul, com seus faróis de saber, praças étnicas, ruas de cidadania) e colocar em xeque o modelo arquitetônico, os portais, a falta de esgoto, os buracos das ruas marginais, a violência e o desemprego.

Foi como se o mundo caísse a seus pés com esse discurso de neobobo partidário do fracasso. Coisa de comunista que deveria mudar para Cuba, já que nada parece estar perfeito por aqui.

Saiu-se com um discurso estranho de que a questão agora não é mais de dominar a natureza e sim dominar o domínio que alguns pretensos ideólogos buscam fazer valer. Insistiu que costumam até querer afirmar que a globalização é uma globocolonização, negando os benefícios de toda a tecnologia das grandes corporações colocadas ao alcance da mão.

Astrogyldo é um visionário às avessas. Seu grande horror é o de se ver às voltas com a realidade sem as chaves de compreensão que a própria cultura cria constantemente, porém, que nesse momento lhe foge e cria impossibilidade de compreensão.

Não entende como tem gente capaz de sorrir tranquilo diante de um mundo em constante ebulição, embora ele mesmo permaneça pairando sobre tudo e todos, como se a realidade fosse sua própria imaginação e valesse o discurso que desenvolveu há tanto tempo e que tão bem funcionava como explicação para o dia a dia e revezes da vida.

Parece-lhe que, inesperadamente, tudo está se dissolvendo, fragmentando, desaparecendo do seu alcance e as luzes que lhe querem apresentar não condizem com sua profunda sensação de centralidade do mundo.

Vejam vocês, costuma dizer, que hoje em dia querem afirmar que tudo é solidário: a ciência da natureza e natureza da ciência, o homem e o meio ambiente e assim por diante.

Como homem pós-moderno que se preza não se sente bem em vestir a roupa de qualquer religião ou fé, porém e identicamente o “strip tease” religioso nunca achou plausível.  Sente-se, de certa forma, exilado dentro de suas convicções e de seu próprio mundo.

O problema de seu atual estado narcísico é que coloca o diabo dentro de casa como sendo o anjo da anunciação de novas esperanças e daí não nasce nenhuma boa nova que se preze ou abra outras possibilidades.

Sente-se, mais ou menos, como o corpo humano cada dia mais analisado pela medicina e tratado como uma máquina. Vai sendo conectado e mantido como novo, mas cada vez são mais difíceis as peças de reposição.

Violenta, mas é violentado em suas convicções, de tal maneira que não está criando nenhuma claustrofobia e sim uma espécie de ausência do espaço público com características acentuadas de agorafobia.

Nem deseja discutir e nem gosta de ser questionado. O público e o privado misturam-se no cotidiano a tal ponto que as identidades pessoais diluem-se e as respostas que lhe davam perspectivas de vida, de sentir-se parte de alguma coisa maior, de fazer sentido viver, de construir felicidade com outros esvai-se.

Astrogyldo sente-se vítima de tudo isso, porém nunca soube ou quis saber bem a fundo do que se trata.

Vê crescerem as grades nas portas e janelas, aumentarem os condomínios fechados, sofisticarem-se os sistemas de alarmes eletrônicos. Não entende porque, mas se acha numa espécie de prisão de vidro, toda cheia de arranjos arquitetônicos e escondido de olhares alheios sem poder fazer nada a não ser ignorar esse mundo cão, com alguma exceção feita à cidade onde mora e cuja peculiaridade ainda lhe parece clara.

Astrogyldo, no frigir dos ovos, é um “perdido no espaço”, vivendo a ilusão de ser “um soldado do futuro”. Vive esperançoso da desesperança de todos. Olha muito para as estrelas e pouco para a terra.

Astrogyldo é trans e autoadmirador como esse tempo, cheio de si mesmo e vazio de esperança.

Por isso, atenção e não esqueça, Astrogyldo escreve-se com Y, o que já não é pouca coisa!?