ARQUIVO – Como foi que nos distraímos?

ZERO02PRIMEIRA EDIÇÃO – ABRIL 2018

O período constitucional iniciado em 1988 e encerrado em 2016 teve efeito narcótico sobre a esquerda, que dormiu o sono confortável da classe média e sonhou que, afinal, tudo seria para sempre resolvido pelo voto. Bastaria votar até chegar ao governo, e então implantar reformas modestas, demonstrar que são boas e lentamente avançar. Ainda letárgicos, nos espreguiçando, checando no Facebook o que foi que aconteceu, vamos descobrindo que enquanto dormíamos distraídos criaram-se as condições para cancelar os poucos avanços que 28 anos de conciliação de classes nos levaram a esquecer o quanto custaram.

Nenhuma liberdade é concedida. Nenhum direito é entregue. Ou conquistamos, vigiamos e defendemos, ou nos será arrancado.

Em embates históricos, arrancamos universalização da educação e da saúde, relativa liberdade civil e um arremedo de estado de direito. Mas cochilamos e agora nos vemos diante da ameaça bem real de tudo nos ser tomado. Nesse recuo, três ou quatro gerações de brasileiros crescerão sem se emancipar. Os danos já são gigantescos, o mundo inteiro se assombra com nossa passividade, e ainda assim nos deixamos ficar em nosso berço. Enquanto não acordarmos para a luta, não vai passar.

Para colaborar com a compreensão do presente, oferecemos nesta edição:

  • ENTREVISTA – Frei Betto constata: A direita saiu do armário e a esquerda entrou. Em uma democracia meramente delegativa, a saída é organizar e mobilizar o povo. A única revolução que a burguesia fez foi a Francesa.
  • OBVIEDADE DO IMPASSE  A sinuca da conciliação de classes, que desmobilizou e silenciou os movimentos sociais, e as ainda não compreendidas jornadas de manifestações, na análise do professor e historiador Clóvis Grunner.
  • ESTADO E CONSTITUIÇÃO  Direitos fundamentais, erradicação da fome e da miséria, educação e saúde, obrigações históricas que cumprimos, tornadas sem efeito na Constituição. Artigo da procuradora Valquíria Prochmann.
  • TAREFA – Para refazer, precisaremos nos debruçar sobre o problema nuclear do alicerce das massas,  reorganizá-las e a fomentar no seu seio um novo engajamento para a luta política. Análise conjuntural do cientista político César Caldas.
  • CRISE PLANETÁRIA PARA QUEM  A história do capital é a história do saque da natureza e exploração de classes. A destruição ambiental não é efeito colateral, mas elemento da concepção do capitalismo global. Por Suzana Valaski e Nilson Ramos de Mello Filho.
  • APAGÃO LITERÁRIO  A nova geração optou por uma poesia pós-concreta, reduzida a simples anotação sobre experiências do cotidiano, anotações estas que não vão além de um existencialismo aguado em torno do próprio umbigo. Por Paulo Venturelli.
  • QUANDO NOS DISTRAEM  Lula se tornou o PT, depois, o Brasil, a esquerda, a democracia. Que projeto é esse que freia a luta contra a Reforma da Previdência, mas coloca milhares na rua com disposição de enfrentar a Polícia? Hector Molina.
  • NOSSO TEMA  A professora Martinha Vieira analisa a canção-despertador na qual buscamos inspiração para essa revista, e avisa que há um novo enredo passando justamente agora.
  • DESENHADO  As ilustrações do artista plástico e ceramista Marcelo Weber para esta edição.