Arquivo – Enquanto dormíamos

SEGUNDA EDIÇÃO – JUNHO DE 2018

Untitled_06212018_140845000Desfigurada, a Constituição é já um farrapo da Carta Cidadã duramente negociada em 1988. Enquanto dormíamos, embalados pelo sonho da conciliação de classes, ela foi metodicamente desmontada. O despertador que soou com o golpe parlamentar de 2016 foi tardio. Conduzidos pelos seus financiadores de campanhas, e sob a proteção legitimadora da imprensa, fantoches federais roeram obedientemente os direitos consolidados pela sociedade civil na árdua jornada constituinte. Quando abrimos o livro que havia refundado a Nação, não o reconhecemos, não nos reconhecemos. O que está ali não é mais a esperança de um País igualitário e justo, mas sim o projeto mumificado da exploração eterna. Nesta edição apresentamos rápido apanhado dessas mutilações, procurando contribuir para o despertar dos que, distraídos, vêm sendo violentados em seus direitos.

  • DISTOPIA BRASILEIRA – Onde estão as vozes do humanismo, cristão ou não, para falar de nossa inumanidade? Tenho a tentação de afirmar que o humanismo ocidental criou monstros e na hora da dor e impotência continuamos a chamar os monstros para nos salvarem. Adalberto Fábero.
  • EDUCAÇÃO NEGADA – Temer e sua turma foram cirúrgicos. Desfizeram um modelo de “automóvel” que transportaria a educação brasileira para o século XXI e deram uma buzina na mão de uns serviçais para criarem um automóvel que estacione nossa educação no século 20, se muito. Romeu Gomes de Miranda.
  • RETROCESSO NA SAÚDE – Não é possível viver no Brasil sem o SUS. Todos os brasileiros, sem nenhuma exceção, usam o SUS várias vezes ao dia. Está na água encanada, em qualquer cosmético ou medicamento, na comida que compramos, nos hospitais públicos ou privados. A ideia de que o SUS se restringe a assistência à saúde, como consultas e cirurgias, é extremamente equivocada. Lara Cubis.
  • DESMONTE DA CULTURA – Os próprios liberais, que adoram gabar sua cultura e ilustração, não sabem o que fazer com a cultura se ela não encontra seus canais no mercado. Se isso ocorre com os liberais, que no entanto flertam com o autoritarismo muito mais do que estão dispostos a admitir, o que falar dos autoritários stricto sensu? Otto Leopoldo Winck.
  • HORA DO ENFRENTAMENTO – A escravidão criou o imaginário de que trabalhar é coisa de negro. As classes endinheiradas fizeram sempre uma conciliação entre elas de costas para o povo. Nunca tiveram um projeto de nação. Apenas um projeto para si e para o seu enriquecimento. Vivem de privilégios e não possuem nenhum sentido de direito para todos. Entrevista com Leonardo Boff.
  • DESMONTE TRABALHISTA – A judicialização das questões políticas centralizou e unificou os poderes da República na insanidade da leitura constitucional realizada pelas supremas togas. Enquanto não reconhecermos – pública e amplamente – os nossos erros, escorregaremos em terra enlameada comandada por quadrilhas equipadas pelos interesses imperialistas. Cláudio Ribeiro.
  • RENDIÇÃO DOS TRABALHADORES – A Reforma Trabalhista foi apontada como causadora da rendição dos direitos sociais a ponto de a comunidade internacional e o próprio STF limitarem o seu alcance, julgando uma de suas inconstitucionalidades ou determinando que o Estado Brasileiro reveja sua posição de precarizador ou leniente com a precarização de direitos fundamentais sociais. Paulo R. Opuszka.
  • PROJETO DESIGUALDADE – Um país mais justo incomoda muito as elites, mesmo preservando seus privilégios.  Sob a capa de uma falsa ordem institucional e com argumentos pífios, desferiu-se um golpe sobre a democracia. Inicia-se, então, a experimentação de um projeto neoliberal de extrema radicalidade. Francisco Menezes.
  • ANESTESIA GERAL – Doida dor recolhida na perda do direito fundamental, a liberdade. Perda que inverte o caminho, guiando a grande massa para o matadouro da consciência coletiva. A recompensa pelo silêncio é a mordaça do futuro, da dor que se anestesia, mas não cura. A atualidade de “Comportamento Geral”, de Gonzaguinha. Martinha Vieira.
  • REDISCUSSÃO ESTUDANTIL – No cenário óbvio de mudança geracional, político e social que vivemos em nossos espaços, se faz necessário que a esquerda volte às discussões com os colegas nos espaços organizacionais, assumindo juntos um processo de politização de nossa organização e ação política. Thiago Almeida.
  • DESENHADO – As ilustrações de Marcelo Weber para esta edição.