EPIFANIAS

Adalberto Fávero (Beto)

Foram vários anos em que se ficou a experienciar tempos de morte, a temer conversar com o outro por desesperança, a bloquear acessos por desconfiar de sua veracidade ou pela impossibilidade da palavra, a dividir a mesa apenas com os iguais, a insensibilizar-se com a dor pedinte e seu grito de socorro no sinal de trânsito e a olhar para o futuro com descrença e impotência.

Os dezembros de nossas vidas precisam ser épocas de natais, de nascimentos. Ou seriam os nossos pés no chão as raízes de uma árvore desgarrada? Por que o mundo, que era lugar de viver bem, andou tanto tempo a parecer lugar de morrer? Teriam tomado corpo esses fantasmas de Hitler e Mussolini que perambulam país afora?

            Há urgência em cantar loas à vida e às esperanças. Há um tempo de vir a ser, de reinventar sonhos, transformar as moradias de papelão e palafitas em casas dignas de se viver, reconstruir a cultura da reciprocidade com o outro e estancar a corrente de ódio que separa e mata; tempo de um novo tempo e de criação de esperanças tecidas por nós e pela força da diversidade de iguais; tempo de sonho que se refaz todo dia na mulher e no homem que fazem jorrar alegrias e afetos impossíveis de estancar.

“A mulher e o homem sonhavam que Deus estava sonhando.

Deus os sonhava enquanto cantava e agitava suas maracas, envolvido em fumaça de tabaco, e se sentia feliz e também estremecia pela dúvida e o mistério.

Os índios makiritare sabem que se Deus sonha com comida, frutifica e dá de comer. Se Deus sonha com vida, nasce e dá de nascer.

A mulher e o homem sonhavam que no sonho de Deus aparecia um grande ovo brilhante. Dentro do ovo, eles cantavam e dançavam e faziam grande alvoroço, porque estavam loucos de vontade de nascer. Sonhavam que no sonho de Deus a alegria era mais forte que a dúvida e o mistério; e Deus sonhando, os criava, e cantando dizia:

– Quebro este ovo e nasce a mulher e nasce o homem. E junto viverão e morrerão. Mas nascerão novamente. Nascerão e tornarão a morrer e outra vez nascerão. E nunca deixarão de nascer, porque a morte é mentira.” (Galeano, E. Memórias de Fogo)

            E, por tais inspirações, vivemos inventores de lembranças, descobridores de alegrias, vagando pelas ruas e pela casa à procura de sonhos; a cultivar as epifanias da vida todo dia, em todo encontro e em toda comunhão de almas, corpos e caminhos. Porque o tempo do olho por olho deixa todo mundo cego; a luta do bem contra o mal exige do povo que contribua com seus mortos; a riqueza costumeiramente não nasce limpa e é triste passar a vida se calando.

            Poetizando a esperança:

“Hoje vou pedir desculpas pelo que não disse, eu até desculpo o que você falou… quero a lua cheia de sorrisos francos, de rostos serenos, de palavras soltas… quero que os boêmios gritem bem mais alto, quero um carnaval no engarrafamento e que dez mil estrelas vão riscando o céu… vou fazer barulho pela madrugada…vou fazer misérias no seu coração… quero que os poetas dancem pela rua… que as buzinas toquem flauta doce e que triunfe a força da imaginação.” (Montenegro, O. Sem Mandamentos)

            Neste período de espera e nascimentos, por isso mesmo importa cantar a vida e a certeza de um novo alvorecer, no qual a dignidade de todos e de cada um seja tecida, o futuro comece no presente e a felicidade seja companheira; importa denunciar, profetizar, poetizar, cantar e ressonhar!

            Ou, como diria o poeta:

“Que tal um samba…cair no mar e lavar a alma… sair do fundo do poço, andar de boa, ver o batuque lá no cais do Valongo, dançar o jongo lá na Pedra do Sal… fazer um gol de bicicleta…deitar-se na cama da amada e despertar poeta…que tal a beleza pura no fim da borrasca? Já depois de criar casca e perder a ternura, depois de muita bola fora da meta…desmantelar a força bruta… achar a rima que completa o estribilho…” (Hollanda, C. B. de. Que tal um Samba)

            Enfim, este é um tempo de levantar a voz e anunciar os imperativos da vida, a urgência da alegria, o imperativo da reciprocidade e o direito de ser feliz. Chega de morte, de ódios diversos, de dores e de vozes reprimidas! Este anúncio tem sim o peso da profecia, a exigência do presente e a certeza de que o futuro é teia tecida por todos e cada um.

Toda coisa tem peso:

Uma noite em seu centro.

O poema é uma coisa,

que não tem, nada dentro.

A não ser o ressoar de uma imprecisa voz,

que não quer se apagar

– essa voz somos nós. (Gullar, F. Não-coisa)

             Feliz Natal! Que esta seja uma noite de sonhos, de esperanças e compromissos com a vida.

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