BOLETIM DE CONJUNTURA (DIEESE)

Número 34 – Junho/Julho de 2022

ECONOMIA LENTA, POBREZA ACELERADA

O ano decisivo para os rumos do país, diante das eleições gerais em outubro, começou com mais do mesmo: economia em ritmo lento e  aumento da pobreza em ritmo acelerado.

Os indicadores econômicos que apresentam ligeira melhora estão referidos a períodos ainda fortemente impactados pela pandemia e continuam ancorados em bases frágeis, indicando fôlego curto.

Por outro lado, as desigualdades sociais e econômicas e a pobreza se acentuam em ritmo acelerado. Em 2022, 14 milhões de brasileiros se somaram a outros 19 milhões que já sobreviviam em situação de fome no país. São 33 milhões de pessoas sem ter o que comer e mais da metade da população em algum grau de inseguraça alimentar, segundo relatório da Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).

A “PEC do desespero eleitoral”, aprovada no Congresso Nacional e transformada na Emenda Constitucional 01/22,  é uma tentativa do governo de reverter o quadro eleitoral, distribuindo benefícios somente até o final do ano, sem que esteja, de fato, articulada com uma mudança de estratégia na política econômica e nas políticas sociais. Puro casuísmo eleitoral.

Além disso, a recente privatização da Eletrobras[1] aumenta o risco de elevação das tarifas de energia elétrica e solapa a soberania e a segurança energética nacional, indo na contramão do mundo. Os próprios acontecimentos na guerra da Ucrânia mostram que é urgente retomar os instrumentos do Estado para indução do desenvolvimento econômico soberano, com distribuição de renda e proteção ambiental, reduzindo as desigualdades sociais e regionais.

Economia em ritmo lento

A economia brasileira cresceu apenas 1,0% no 1º trimestre deste ano, na comparação com o último trimestre de 2021, na série com ajuste sazonal. Na comparação com o primeiro trimestre de 2021, o crescimento foi de 1,7%. Após a queda abrupta da atividade econômica no início da pandemia, a recuperação a partir de 2021 teve uma base de comparação muito baixa e o início de 2022 mostra que a economia brasileira apenas voltou ao observado antes da pandemia: crescimento lento e heterogêneo. O nível da atividade econômica continua abaixo do verificado em 2014!

O crescimento na comparação interanual se deve, ainda, à “ocupação dos espaços ociosos” da economia, derivados de parte da demanda reprimida na pandemia, principalmente no setor de serviços. Assim, embora o setor tenha tido crescimento de 3,7%, influenciado pela retomada de várias atividades presenciais, o comércio recuou (-1,5%). Também a indústria geral teve resultado negativo (-1,5%), com mais intensidade a indústria de transformação (-4,7%), assim como a agropecuária (-8,0%).

O consumo das famílias teve o quarto trimestre seguido de crescimento, na comparação interanual (Gráfico 1). Contudo, para além dos efeitos iniciais da pandemia, afetando a base de comparação, deve-se ter cautela na análise deste dado, tendo em vista o aumento da desigualdade social no país, de forma que esse aumento do consumo está longe de ser homogêneo entre as famílias.

Gráfico 1 – Evolução do Produto Interno Bruto e do Consumo das Famílias

Variação em relação ao mesmo trimestre do ano anterior (em %)

Fonte: IBGE Elaboração: DIEESE

Aumento da pobreza em ritmo acelerado

Segundo pesquisa da Rede Penssan[2], 40% dos domicílios brasileiros convivem com algum tipo de insegurança alimentar, o que representa cerca de 125,2 milhões de pessoas, mais da metade da população do país. Cerca de 15% da população, equivalente a 33 milhões de pessoas, estão em situação de fome, das quais 14 milhões passaram a esta dramática condição no último ano. Como afirma a pesquisa: “O país regrediu para um patamar equivalente ao da década de 1990”.

As regiões Norte e Nordeste são as mais impactadas: 71,6% e 68,0% das respectivas populações têm algum grau de insegurança alimentar. No Norte, 25,7% das famílias convivem com a fome e, no Nordeste, 21,0%.

O aumento da pobreza está diretamente ligado à  perda de rendimento e ao aumento do custo de vida. O valor da cesta básica de alimentos, apurado pelo DIEESE em 17 capitais, aumentou mais de 26% em Recife, nos 12 meses encerrados em junho, a maior variação registrada. Em seguida aparecem Salvador (+24%), Campo Grande (+24%) e São Paulo (+24%). As menores variações registradas foram em Vitória e Curitiba, com aumentos de 13%.

Tabela 1 – Custo da cesta básica de alimentos e
variação em 12 meses – Junho de 2022

CapitalValor da cestaVariação em 12 meses (%)
São Paulo777,0123,97 
Florianópolis760,4117,82 
Porto Alegre754,1917,42 
Rio de Janeiro733,1418,39 
Campo Grande702,6523,97 
Curitiba701,2613,37 
Brasília698,3619,38 
Vitória692,8413,34 
Goiânia674,0822,23 
Fortaleza657,0021,30 
Belo Horizonte648,7721,95 
Belém632,2621,93 
Recife612,3426,54 
Natal611,7922,31 
João Pessoa586,7318,35 
Salvador580,8224,29 
Aracaju549,9116,76 
Fonte: DIEESE

Além disso, a inflação continua castigando principalmente os mais pobres[3]. Nos 12 meses encerrados em maio, a inflação para as pessoas de renda muito baixa atingiu 12,0%, enquanto para aquelas de renda alta foi de 11,3%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IPCA-IBGE). Na média, a inflação nesse período foi de 11,7%.

Gráfico 2 – Evolução da Inflação no Brasil (IPCA-IBGE)

(Variação acumulada em 12 meses)

Fonte: IPEA(Intituto de Pesquisa Aplicada)

O rendimento real domiciliar por pessoa (per capita) atingiu o menor valor desde 2012, quando o levantamento começou a ser feito pelo IBGE[4]. Em valores atualizados para 2021, o rendimento médio mensal domiciliar per capita ficou em R$ 1.353 e os menores valores foram registrados na região Norte, R$ 871, e no Nordeste, R$ 843. As outras regiões registraram valores quase duas vezes maiores. Aproximadamente metade da população teve rendimento médio mensal de R$ 415, em 2021, valor ainda menor que os R$ 489 de 2020. Já o 1% da população de maior renda teve rendimento médio de R$ 15.940. Assim, esse grupo teve rendimento 38 vezes maior que a média dos 50% da população de menor renda.

Reajustes salariais e poder de compra

De acordo com o boletim “De Olho nas Negociações”, cerca de 37% dos reajustes salariais das categorias com data-base em junho, analisados pelo DIEESE até 11/07, resultaram em ganhos reais aos salários. É o maior percentual de resultados acima da inflação por data-base desde setembro de 2020, quando foram registrados aumentos reais em cerca de 44% dos casos analisados. Apesar disso, a variação real média dos reajustes em junho seguiu negativa (-0,58%). Outros 37% registraram reajustes iguais à variação dos preços dos últimos 12 meses e 26% ficaram abaixo.

No agregado de 2022, resultados acima da inflação representam cerca de 21% do painel analisado; reajustes iguais ao INPC, 35%; e abaixo, 43%. A variação real média no ano é de -0,80%.

Gráfico 3 – Variação real média dos reajustes

Janeiro de 2021 a maio de 2022

Fontes: Ministério do Trabalho e Previdência. Mediador; DIEESE

Gráfico 4

Reajuste necessário para repor as perdas por data-base

Janeiro de 2021 a junho de 2022

Fontes: IBGE, DIEESE

Desafios da conjuntura e o compromisso com a mudança

O cenário internacional se mostra cada vez mais desafiador, com a continuidade da guerra na Ucrânia e os impactos nos preços internacionais e na atividade econômica mundial. As cadeias produtivas, já desorganizadas/reorganizadas com a pandemia, sofrem novos impactos e contribuem para a aceleração da inflação e a desaceleração do crescimento econômico em praticamente todos os países. Contudo, as formas como cada país lida com essa conjuntura variam conforme os instrumentos de Estado e a disposição de governo.

No Brasil, a privatização da Eletrobras e o progressivo desmonte da Petrobras, aliados a uma política de elevação de juros, tende a aprofundar os impactos negativos do cenário internacional, e não a atenuá-los. A estratégia de combater a inflação contraindo a atividade econômica só leva à recessão, ao desemprego e à fome.

Na pauta de reivindicações de 2021, 88% das greves incluíram itens de caráter defensivo[5]. As menções à manutenção de condições vigentes e ao descumprimento de direitos ocuparam proporções muito semelhantes (51% e 50%, respectivamente). O balanço de greves do DIEESE, referente a 2021[6],  aponta a ocorrência de 721 greves, número um pouco acima do verificado em 2020 e bem abaixo do que se verificou entre 2017 e 2019, quando as paralisações chegaram a superar o patamar de 1.500 ao ano.

Ou seja, em 2021, com a deterioração acentuada das condições de vida, elevado desemprego, queda de renda e inflação crescente, as greves apresentaram dominância de pautas defensivas, diante de um ambiente de relações de trabalho deteriorado.

O debate eleitoral foi antecipado em muitos meses e as ações sindicais refletem a mobilização visando fazer prevalecer a Agenda da Classe Trabalhadora nas eleições de outubro, já entregue aos principais pré-candidatos. Além disso, em 2022, as entidades sindicais têm buscado antecipar as negociações coletivas das datas-bases do segundo semestre e garantir ao menos recomposição da elevada inflação, coordenando forças para reconstruir possibilidades de crescimento do emprego e da renda,  com o reforço de candidaturas comprometidas com a Agenda da Classe Trabalhadora.


[1] https://www.dieese.org.br/infografico/2022/eletrobras.pdf

[2] https://pesquisassan.net.br/2o-inquerito-nacional-sobre-inseguranca-alimentar-no-contexto-da-pandemia-da-covid-19-no-brasil/

[3] https://www.ipea.gov.br/portal/images/stories/PDFs/conjuntura/220614_cc_54_nota_26_ifr_jun22.pdf

[4] https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-noticias/2012-agencia-de-noticias/noticias/34052-em-2021-rendimento-domiciliar-per-capita-cai-ao-menor-nivel-desde-2012

[5] As greves denominadas defensivas são as que se caracterizam pela busca de proteção de condições de trabalho vigentes, ameaçadas por algum tipo de deterioração; pelo respeito a condições mínimas de trabalho, saúde e segurança; ou contra o descumprimento de direitos estabelecidos em acordo, convenção coletiva ou legislação.

[6] Disponível em https://www.dieese.org.br/balancodasgreves/2022/estPesq102Greves2021.html

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