BARRICADAS ESTUDANTIS – MAIO DE 2019 / PARTE 2

O anfiteatro do nono andar já estava cheio. Ainda assim mais estudantes e até mesmo professores entravam e ocupavam lugares, fazendo com que alguns tivessem de se sentar nos degraus da sala. Os anfis, como eram conhecidos por todos que frequentavam a reitoria da UFPR, apesar de terem lâmpadas faltando e janelas quebradas, tinham um ar solene e formal. Mas hoje, com a assembleia e as pessoas apinhadas, essa atmosfera se amplificava. Um silêncio estranho pairava sobre todos, com apenas poucos sussurros sobressaindo em certos momentos.

João observava aqueles que chegavam com interesse, mas algo no ar lhe causava estranhamento. Um peculiar cheiro de charuto pairava no ar, apesar de ninguém estar fumando, nem dentro, nem fora do salão.

Na mesa, à frente do salão, alguns estudantes que integravam o centro acadêmico organizavam as formalidades da reunião. Claramente estavam assustados e surpresos com a quantidade de pessoas que haviam comparecido. Espaços do movimento estudantil, como este que se aproximava, eram eventos que muito variavam em sua adesão. Certas pautas atraíam poucas pessoas, fazendo com que os estudantes lutassem para manter um quórum mínimo, enquanto outras traziam quase todo o curso. A pauta acertada para aquela noite dava sinais de que faria parte do segundo grupo, ainda mais por incluir professores e servidores do departamento.

Após pensar isso, João focalizou uma pessoa que fez sua espinha gelar. O mesmo professor que havia observado em meio ao terreiro na noite anterior agora adentrava a sala. Ele parecia abatido, com olheiras e o olhar distante. João tentou evitar que ele o percebesse, não sabia se ele havia notado que um aluno o vira em um momento tão delicado. Além disso, sentia receio de que isso pudesse trazer qualquer dificuldade em sua vida na universidade. Não eram poucos os relatos de colegas que tinham sérios problemas em avançar academicamente por uma desavença com um professor. Era melhor prevenir do que remediar.

Enquanto escondia o rosto com uma das mãos, João pôde ouvir o espaço se iniciando.

– Muito boa noite a todos, me chamo Letícia Silva e sou a representante do Centro Acadêmico de Ciências Sociais para a assembleia de hoje. Presidirei a mesa com meus dois colegas: Hugo Gava, que fará a relatoria, e Júlia Oliveira, que cuidará das inscrições. Como pontos de pauta da assembleia, teremos: informes e repasses, ações integrativas do departamento e os ataques à Universidade Pública das últimas semanas.

A garota tinha uma presença de voz e uma segurança de fala que chamavam atenção. João sorriu, pois Letícia era sua amiga e ele sabia que era a primeira vez que ela presidia um espaço desse porte do Movimento Estudantil, além de ter ideia de quanto ela estava nervosa para isso.

– Declarando aberta esta assembleia, peço que assinem seus nomes no livro de registros do curso, ele está passando de fileira em fileira. Assim, já nos direciono ao primeiro ponto de pauta, informes e repasses. Aqueles que quiserem realizá-los, levantem suas mãos para que…

Enquanto o primeiro ponto de pauta prosseguia, algumas pessoas entraram na sala. João as reconheceu como os membros da chapa que constituiu a atual gestão do Centro Acadêmico (CA). Apesar da gestão ser aberta (e por isso pessoas como Letícia e o próprio João a compunham), a linha política do grupo que venceu a eleição era, para dizer o mínimo, complicada. Além de ser muito avessa a mobilizações diretas dos estudantes e de ser extremamente academicista, o grupo de estudantes tinha um discurso que ia muito a reboque das posições dos professores e da própria reitoria, mesmo que isso significasse ir na contramão daquelas dos alunos do curso.

Havia sido uma chapa única na eleição pelo CA, pois o grupo opositor (e mais conectado as mobilizações do movimento estudantil) não havia conseguido organizar um quórum mínimo de estudantes do curso para sua própria chapa. Enquanto isso, os estudantes da chapa vencedora articularam-se politicamente por meios externos dos da gestão anterior, chegando ao processo eleitoral já com quórum maior que o mínimo e uma campanha eleitoral estruturada.

Foi um duro golpe para os alunos que construíam as gestões anteriores, pois acreditavam que poderiam construir uma chapa em conjunto com aqueles que montaram a opositora. Porém, quando se aproximaram com esta proposta, perceberam que estavam enganados.

Quando todos os estudantes da gestão do Centro Acadêmico já estavam sentados, os informes e repasses se encerraram. Assim, Letícia deu prosseguimento ao espaço, direcionando-o ao ponto de pauta das ações integrativas do departamento. Alguns professores se inscreveram, assim como certos alunos, que faziam parte do colegiado. No entanto, João não deu muita atenção a suas falas, pois reparava mais nos seus colegas de curso que geriam o CA. Trocavam papéis apressados e, de onde João estava, pôde ver que eram escritos a mão. Alguns pontos pareciam estar anotados, como se em preparação de uma fala. No entanto, João desviou o olhar, tentando focar no que estava sendo dito na assembleia.

Nesse momento, João pode ouvir alto e claro: uma gargalhada veio do corredor, fora do anfiteatro. Estranhando, João olhou para a porta e a sua volta, porém ninguém parecia ter ouvido o som, todos mantendo-se focados no espaço. No entanto, a gestão do Centro Acadêmico seguia debatendo em voz baixa e, por conta da gargalhada, João estava inclinado para olhar para a porta de entrada do anfiteatro, se aproximando deles. Com isso, ele pôde ouvir uma das garotas conversando com um amigo:

– Você precisa falar isso logo depois de puxarem uma mobilização. É certeza que vão querer organizar uma greve de estudantes. Como os professores não vão aderir mesmo, não sustentamos sozinhos. Não podemos deixar acontecer, e se rolar, aí sim que vão cair em cima do nosso curso.

– E se não der certo? E se virmos que a greve vai passar? – perguntou ele em resposta.

– Bom, aí nós vamos… – e interrompeu sua fala, pois seu olhar cruzou com o de João.

Fazendo uma expressão de desdém, virou o rosto e, com um leve empurrão, indicou que seu amigo fizesse o mesmo. Além de constrangê-lo, isso preocupou João em certa medida. Eles vieram bem preparados para a assembleia e pareciam ter um plano até para o caso de as coisas saírem de seu controle, mas qual seria ele?

Sentando-se novamente, franziu o cenho. Um amigo a seu lado, Heitor, perguntou se estava bem.

–  Sim, mas o pessoal do CA está preparando alguma coisa. Não me cheira bem. Sei que tem coisa por trás.

–  Acha que vão tentar barrar a mobilização?

– Com certeza, eles devem ter algo pronto para o caso de que ela passe mesmo assim.

Heitor se calou, pois sabia que eram bem capazes disso. Os amigos perceberam que a pauta departamental já havia se encerrado e a mesa já direcionava os presentes para o recolhimento de inscrições. A preocupação de João o impelia a fazer algo, mas ele resolveu esperar. Se tentasse radicalizar o espaço rápido demais, as pessoas presentes não veriam sentido na luta que deveria ser travada. Era melhor que aproveitassem primeiro a chance.

Logo, uma fala de abertura foi feita por Letícia, informando aos presentes sobre o motivo da temática se fazer presente:

– Bom, este ponto de pauta está incluído na assembleia de hoje por alguns motivos. Como muitos devem saber, o Governo Federal de Jair Bolsonaro fez um apontamento de uma medida orçamentária que efetuaria cortes de 30% no orçamento anual das universidades públicas. Vale lembrar que tal medida, somada ao teto de gastos que a educação já sofre desde 2016 e a outros ataques de sucateamento que a educação pública já recebe há tempos criam uma situação muito grave. Tão grave que a reitoria já emitiu uma nota apontando que tais cortes podem impedir que a UFPR se mantenha em funcionamento. Ainda não temos certeza de quando isso aconteceria, mas há apontamentos de um fechamento de portas e parada total de atividades em setembro, se a situação não se alterar. Já houve também notas departamentais, pronunciamentos de autoridades da reitoria e diversas movimentações, seja aqui ou em outros locais do país. Dessa forma, a assembleia foi convocada para que possamos debater a questão como um todo e direcionar proposições e ações a serem tomadas como curso de Ciências Sociais da UFPR. Assim, seguiremos as inscrições para dar prosseguimento às falas do espaço.

Houve algumas falas que comentavam e buscavam ampliar a conjuntura para os presentes. O ponto central, na perspectiva de João, era o de que os cortes faziam parte de um projeto maior de sucateamento das universidades públicas. Não mais de uma vez buscaram esse tipo de ação para justificar que a educação pública não seria efetiva, devendo ser entregue às mãos da iniciativa privada. Esse era o modus operandi: sucatear para privatizar e encher os bolsos das grandes empresas que passavam a controlar cada vez mais a educação brasileira.

No entanto uma fala quebrou a dinâmica de exposição que se traçava, deixando o clima tenso. João já conhecia a retórica utilizada, ela o preocupava havia  dias:

– As análises que vocês, colegas e professores, estão propondo são fundamentais. Devemos estar informados e capacitados para reagir a esses ataques. No entanto, pessoal, já escutei muito pelos corredores a palavra de ordem “Greve Estudantil” e até “Ocupação da Universidade”, como aconteceu em 2016. Pessoal, acho que é muito importante que vocês percebam uma coisa: as pessoas, inclusive o presidente, falam por aí que não fazemos nada que preste dentro da universidade. Dizem que só fazemos festas, para não dizer coisa pior, e que nossos professores nos ensinam a doutrinar crianças, da mesma forma que eles nos doutrinam. Quando tomamos esse tipo de ação que vocês querem tomar, só vamos reforçar essa visão. Vamos dar tudo o que eles querem para que nos chamem de vagabundos e imprestáveis. Isso só vai enfraquecer a academia e a universidade. Não é assim que se faz uma manifestação ou se muda qualquer coisa! – disse um garoto de cabelos ruivos, sentado mais à frente na sala.

Sua fala fez com que diversos alunos e professores concordassem com a cabeça, mas outros ficaram estarrecidos em desgosto. João estava na segunda categoria. Por impulso, levantou a mão pedindo a palavra nas inscrições.

Rapidamente se arrependeu, pois teria o tempo de poucas falas para preparar um argumento. Porém, ainda era necessária uma fala que rebatesse aquele pensamento. Para ele, apenas a luta mudaria aquele panorama, assim como apenas ela mudaria qualquer um.

Após duas falas rápidas de colegas, que também tratavam sobre a conjuntura ou apenas arranharam o tema, Júlia indicou que era a vez de João falar. O sangue dele subiu, o coração acelerou. No entanto, nesse tempo, uma ideia lhe viera à mente, algo ousado, mas que poderia resolver dois problemas diferentes. Respirou fundo e o estranho cheiro de charuto inundou suas narinas, por mais que ninguém fumasse. Então ele falou:

– Quero iniciar minha fala resgatando o que foi dito pelo colega há pouco, de que se radicalizarmos nosso discurso neste momento, vamos dar mais argumentos para que a sociedade e aqueles que nos atacam nos tachem de vagabundos que apenas fazem balbúrdia em seu dia a dia.

–  Esse tipo de argumento existe há muito tempo – continuou – e  não nasceu no contexto universitário ou do movimento estudantil. Ele nasceu no movimento dos trabalhadores, que organizavam greves e mobilizações, sendo taxados de vagabundos que não queriam trabalhar. E, frente a isso, o que esses trabalhadores faziam? Voltavam para as fábricas, pedindo desculpas pelo transtorno? Muitos, sim. Contudo, muitos permaneciam em sua luta e, com muito sacrifício e coragem, conquistaram direitos e vitórias para sua classe.

– E,  desses direitos, – prosseguiu – muitos  nós usufruímos até os dias de hoje. E se eles tivessem voltado para as fábricas? E se tivessem recuado frente à retórica dos que os atacavam? Como estaríamos? É nosso dever garantir uma educação pública e de qualidade para as gerações que virão, como aqueles que lutaram antes de nós nos garantiram.

– E por que motivo essa retórica vem para nós, – seguiu,  num crescente – das ciências humanas? Porque nós construímos criticidade para a sociedade. Somos nós quem perguntamos, com Brecht: “quem construiu a Tebas de Sete Portas?”

– Tendo em vista tudo isso, – acrescentou – tenho uma proposta para a assembleia. Muitas vezes, em contextos de ascensão de lutas, comitês de luta tomaram o lugar das entidades representativas dos estudantes, garantindo maior participação de todos nas decisões e encaminhamentos. Proponho, então, que diluamos o Centro Acadêmico de Ciências Sociais neste momento, fundando um Comitê de Luta Horizontal, para que tenhamos menos burocracia em nosso combate pela educação. Frente à retórica bolsonarista, não vamos levantar nossas mãos. Nós vamos cerrar nossos punhos.

Um silêncio profundo se abateu sobre a assembleia assim que João terminou, mas era apenas uma calmaria antes da tempestade. Saindo do torpor, a gestão do Centro Acadêmico conversou rapidamente e, levantando-se, passaram a gritar:

– Isso é um golpe!

– Não podem fazer isso! A eleição é soberana!

– Não reconheceremos isso! É antidemocrático!

– Não está previsto nos regulamentos!

E a assembleia implodiu.

Jorge de C.

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