SEU DEUS NÃO É O MEU DEUS: uma crônica do cotidiano

Adalberto Fávero

“Homem de cor:

                                                                              Querido irmão branco:

                                                                              Quando nasci, era negro.

                                                                              Quando cresci, era negro.

                                                                              Quando o sol bate, sou negro.

                                                                              Quando morrer, serei negro.

                                                                              Enquanto isso, você:

                                                                              Quando nasceu, era rosado.

                                                                              Quando cresceu, foi brando.

                                                                              Quando o sol bate, você é vermelho.

                                                                              Quando sente frio, é azul.

                                                                              Quando sente medo, é verde.

                                                                              Quando está doente, é amarelo.

                                                                              Quando morrer, você será cinzento.

                                                                              Então, qual de nós é um homem de cor?”

                                                                                              (Leopold Senghor)

                Ontem, eu que nestes tempos cinzentos e de pandemias diversas ando com síndrome de falta de proximidade de gente, saudoso de amigos, bares e sambas, recebi uma mensagem sua no Messenger. Era uma destas saudações que são repassadas ao amanhecer, ao anoitecer ou ao passar do dia. Você dizia que eu ficasse com deus e que ele proveria a minha felicidade.

            Confesso que fiquei entre intrigado, confuso, instigado a responder. Primeiro porque considero essas mensagens sem muito sentido e em segundo lugar porque ela tem um lado de cinismo inconfessável, mas que você, como tantos, finge não enxergar ou se sentir imune a tais intempéries.

            Digo isso porque logo depois me repassou um vídeo intragável em que o Brasil estaria dividido em dois, preto no branco como diz você mesmo. De um lado os trabalhadores, os homens de bem, os que acreditam na pátria, na família e tem deus acima de tudo; no outro lado estão os vagabundos, as prostitutas, os gays, os comunistas, pretos indolentes e traidores da pátria.

            Pensando bem ou nem precisando pensar muito, certamente estou neste segundo grupo, o que não deixa de ser um privilégio, na verdade. Até porque o preconceito e a ignorância destas divisões não são mais um recurso reservado a “alguns corajosos’ ou cínicos de outrora. Agora é posição aberta e oficial. Está na governança e no jeito de viver de uma elite do atraso que se chama de pessoas de bem, vivendo de costas para o Brasil e de frente para o mar.

            Este cinismo explícito, me fez lembrar da celebração anual do Prêmio Nobel da Paz e de suas origens, já que Alfred Nobel (1833-1896) foi inventor da dinamite e empresário da primeira grande fábrica internacional de armas e é um cinismo trágico, também, uma fábrica de explosivos oferecer o maior prêmio pela paz.

            Você, como tantos, envia boas noites e bons dias e que deus acompanhe. Não creio em um deus que não veja esse cinismo ou não se importe com a dor que a gente sente. Ou será Deus, um ateu das causas humanas?

            Dizem que deus é grande, poderoso, que Jesus Cristo tem poder e que a prosperidade vem para aqueles que creem. Canta-se aleluias, dizem que deus é o maior, que deus é o rei dos reis e que ele exige que se reconheça a sua glória; que louvado seja o senhor do universo; que é preciso esquecer do corpo para salvar a alma… As casas de deus, os templos, agora são franquias ou estão abertos para quem deseje glorificá-lo. Muitos cantam glórias e depois aceitam, inclusive, pedir democracia com os dedos simbolizando uma arma em nome da liberdade ou até mesmo gritar pelo fim da democracia e da igualdade diversa entre as pessoas.

            Não creio neste seu deus, embora seja uma pessoa de fé. Tento ter fé no humano, fé na esperança de um mundo melhor, fé na vida… fé um Deus que morreu na cruz, condenado pelos chefes dos sacerdotes, pelos ricos e governantes e pelo poder do império que dominava o mundo conhecido e temia que a palavra causasse revolução; alguém que entre seus seguidores mais próximos (12 é um número simbólico) uma maioria era zelota (revolucionários que desejavam a libertação), estrangeiros (mal vistos pelos homens de bem) ou cobradores de impostos, detestados pela maioria oficial.

            Penso que só tem sentido crer num Deus que liberta, que afirma que tudo que fizermos a um dos menores e pequeninos é a ele que se faz; que a voz humana, quando é verdadeira, ela nasce da necessidade de dizer a vida e nada a consegue deter. Se lhe negam a boca, fala pelas mãos e pelos olhos, pelos poros…isto porque todos temos algo a dizer e a viver. Algo a compartilhar e dividir com os outros, seja alguma coisa, alguma palavra, algo de esperança, enfim alguma reciprocidade, encontro ou alegria a ser partilhada.

            Acho que esse deus rei e senhor poderoso é proclamado para que seja possível ter um séquito a segui-lo, como tinham os reis e tem os poderosos que vendem e bebem o sangue do povo em nome de deus ou do próprio bem estar.

            Seu deus não é o meu deus, mesmo sabendo que todas as civilizações precisaram e precisam de fé e de deuses, o que acontece aqui é um self- service de deuses à imagem e semelhança de alguns e de opressão sobre os demais. Não me mande mais estas mensagens cínicas de um bom dia enquanto apoia a morte dos negros, a violência contra a mulher, não deixa falar de gênero na sua escola, acusa os pedintes e malabaristas do semáforo de vagabundos, aponta os gays como depravados e doentes e apoia o desvio de bilhões para os paraísos fiscais.

            Não me deseje que seu deus acompanhe-me o dia todo, pois esse deus tem dono, tem nome e sobrenome e não é meu deus, nem deus das pessoas que respeito e amo e nem deus dos empobrecidos e sem nome. Não chame este deus de Jesus Cristo, pois no seu caso ele deve ter outro sobrenome e não é o Cristo histórico que anunciou a libertação e expulsou os vendilhões do templo.

            Sonho com um mundo melhor, que ressuscite os comuns e a reciprocidade. Chega de empreendedores de si mesmos! As igrejas ficaram lugares perigosos: primeiro nos obrigaram a ficar sérios, carrancudos, em silencio e a castigar nosso corpo por ser prisão da alma, pois caso contrário nossas preces não seriam ouvidas. Em seguida, exigiram que após dois passos em seus interiores tivéssemos que cair de joelhos e dizer amém. Estaria Deus mudo para nossas dores, nossa autonomia e liberdade? Teria nos criado apenas para dizer sim a ele e aos que se alvoram serem seus privilegiados arautos?

            Você dirá que isso não é religião e sim comunismo ou coisa de Cuba! Talvez, mas não foram as comunidades primitivas que colocavam tudo em comum e dividiam o que tinham entre eles? Acho que prefiro me dar bem com os Castristas do que com os castrados e assassinos de deuses e esperanças.             Pergunto-lhe, mais por cortesia que por achar que terá uma resposta iluminada: Morrer é perder a capacidade de sonhar… ou seria o inverso? Neste caminho estamos sobrevivendo ou sobremorrendo? Não importa sonhar com um mundo em que a maioria seja cada pessoa e cada pessoa uma maioria? Será verdadeiro e justo falar em generosidade num mundo de interesses ou rezar a um deus que só deseje louvação a si próprio, até porque não foi ele que disse que não entrará no reino dos céus que só diz senhor, senhor?

            Prefiro um Deus comunhão e vida! Um Deus anunciado por tantas civilizações antigas e atuais que cantam a reciprocidade e a generosidade de viver com o outro e com os outros.

            “O pai primeiro dos Guaranis ergueu-se na escuridão iluminado pelos reflexos de seu coração e criou as chamas e a tênue neblina, criou o amor, e não tinha para quem dá-lo.  Criou a fala e não havia quem escutasse. Então encaminhou às divindades que constituíssem um mundo e que se encarregassem do fogo, da névoa, da chuva e do vento. E entregou-lhes a música e as palavras do bem sagrado para que dessem vida às mulheres e aos homens. Assim o amor fez-se comunhão, e a fala garantiu vida e o Pai primeiro redimiu sua solidão. Ele acompanha os homens e as mulheres que caminham e cantam…” (Eduardo Galeano).

            Não, seu deus não é o meu deus. Nem seus ídolos são os meus!

Beto (2022)

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