A perigosa dissimulação dos EUA no conflito da Ucrânia

*José Álvaro de Lima Cardoso (Economista)

Na crise da Ucrânia o governo dos EUA, ao mesmo tempo em que fornece
assistência militar ao governo de Kiev, faz um jogo dissimulado, de que estaria tentando
ao máximo evitar o conflito. A política do governo de Joe Biden (econômica, política e
militar), deve ser compreendida à luz da situação mundial de conjunto. Além de uma
crise econômica extraordinária, o polo político que Biden representa está também em
grande agonia. A crise em geral é muito grave, o mundo parece estar caminhando para
uma situação de verdadeiro colapso político e econômico, como poucas vezes se viu
na história. Isso explica a agressividade norte-americana na América Latina e na
Ucrânia e Tawuan (neste caso, o mote de provocação dos chineses).
A abordagem manipuladora da mídia comercial, e o olhar superficial do problema,
levam à conclusão que é a Rússia que está ameaçando violar a soberania de um país
vizinho, que estaria agredindo as normas democráticas, e assim por diante. Mas são os
norte-americanos que estão colocando em prática a sua habitual política de
provocação. A atitude agressiva é dos Estados Unidos, que ameaça uma região que
faz parte da zona de defesa da Rússia. Tem um dado muito simples que ajuda a
entender o fenômeno: enquanto o orçamento militar da Rússia é apenas o nono do
mundo (US$ 65 milhões), o dos EUA é o primeiro, chegando a US$ 768 bilhões. Esse
orçamento, equivalente a mais de 12 vezes o da Rússia, é superior aos orçamentos
militares somados dos 10 países seguintes com os maiores orçamentos.
Os norte-americanos não estão protegendo a Ucrânia (pelo contrário, podem
incendiar o país), mas defendem exclusivamente seu interesse de atiçar a Rússia, que
se tornou um problema para suas pretensões imperialistas. Estão fazendo de tudo para
ocorrer uma invasão na Ucrânia, o que justificaria as retaliações, como um bloqueio
econômico e outras formas. Até o momento a ajuda financeira que os EUA
disponibilizaram à Ucrânia, como dos demais países da Otan, não deve fazer muita
diferença, numa eventual guerra com os russos. A Rússia, apesar de ter um orçamento
militar que representa uma fração do orçamento estadunidense, consegue fazer muito
com poucos recursos, conforme nos mostram os especialistas. O país venceu todas as
guerras recentes que participou: Geórgia, Ucrânia, Síria. Como potência regional que
é, dispõe de forças armadas muito eficientes, com equipamento modernos e grande
atualização tecnológica. Uma outra questão, é que o governo russo tem bem definido o
que quer com suas forças armadas, o que permite um correto planejamento estratégico
e constância de propósitos.
Por outro lado, apesar do robusto orçamento de guerra, a experiência recente dos
EUA nessa área não é nada positiva. As forças armadas do país, apesar dos trilhões
de dólares torrados na guerra, foram escorraçados do Afeganistão em agosto de 2021,
por um exército minoritário, que não tem aviões de combate, destroieres, não tem
mísseis, não dispõe de helicópteros. Os norte-americanos foram derrotados por um
exército equipado com metralhadoras manuais e algumas caminhonetes, a grande
maioria arrancadas do inimigo. Esse acontecimento foi muito desmoralizante para os
EUA e está entre as maiores derrotas militares que o país já sofreu em sua história. No
caso da Ucrânia a própria credibilidade dos EUA enquanto potência militar está
correndo risco. Para os russos o conflito não interessa, a começar pelos custos
altíssimos da guerra moderna. Mas é muito difícil recuar, caso a Ucrânia ingressar na
Otan, porque, de fato, isso colocaria em risco a segurança do país. Não se trata de jogo
de cena, é uma questão real de segurança.
O decisivo, o pano de fundo da questão, é o esforço dos EUA para recuperar o
terreno perdido no cenário internacional. O país perdeu muitas posições importantes
nos últimos anos, como na Síria e na derrota no Afeganistão. Tenta agora se recuperar,
mas de forma meio atabalhoada, desorganizada. Isso fica evidente até pela
coordenação que fazem do processo, que mais provoca cizânia entre os aliados, do
que unidade política. A capacidade militar dos russos é muito superior à da Ucrânia, a
tendência é um enfrentamento direto ser vencido com relativa facilidade pelos russos.
Por outro lado, dificilmente os países da Otan entrarão diretamente na guerra, com
soldados próprios, em função do problema político que isso acarretaria em seus países.
Na Europa (assim como nos EUA), é muito impopular gastar dinheiro, e mais ainda
sacrificar vidas humanas com uma guerra, que ademais, interessa essencialmente ao
Estados Unidos.
Biden também já sofre oposição interna em relação ao assunto. Está sendo acusado
de estar mais preocupado com a crise ucraniana do que com o aumento da migração
na fronteira Sul dos Estados Unidos. Recentemente um congressista do Arizona, estado
fronteiriço com o México, Paul Gosar, reclamou: “A Ucrânia está a mais de 8.000
quilômetros de distância. Os crimes violentos e as drogas perigosas estão atravessando
os quintais dos meus eleitores”. Mas também dentro do partido do presidente da
república cresce a oposição a ação dos EUA na Ucrânia. De fato, é muito chamativo
que um país com milhões de pessoas em insegurança alimentar e 500 mil pessoas em
situação de rua, invista tanto dinheiro e energia governamental com as fronteiras da
Rússia.
A posição dos EUA no conflito, convenhamos, é de um cinisco completo. Não
aceitam a argumentação da Rússia de que a Ucrânia na Otan colocaria sua segurança
em risco, mas, há décadas operam um embargo econômico criminoso à Cuba, que
impõe tremendas dificuldades à população, simplesmente pelo país do Caribe ser altivo
e soberano. Vamos lembrar da crise dos mísseis de Cuba, em 1962, se assemelha à crise
da Ucrânia, ainda que com sinal invertido. Como resposta à fracassada invasão da Baía
dos Porcos, ocorrida no ano anterior, e à existência de mísseis balísticos
estadunidenses na Itália e Turquia, o primeiro ministro Nikita Khrushchev atendeu o
pedido de Cuba para colocar mísseis nucleares em seu território, visando deter uma
eventual nova invasão estadunidense. Quando o governo norte-americano confirmou a
informação, através de espionagem, estabeleceram imediatamente um bloqueio militar
para evitar que novos mísseis entrassem em Cuba e anunciou que não permitiria que
armas ofensivas fossem levadas à Cuba. Exigiu, além disso, que as armas já entregues
fossem desmontadas e levadas de volta à URSS. Imaginem se o México, que, como a
Ucrânia em relação à Rússia, possui uma longa fronteira com os Estados Unidos,
aderisse a uma aliança militar com Rússia e China e se propusesse a abrigar
armamento militar de última geração. A política externa, e o conceito de soberania
nacional, não pode se basear em conceitos morais abstratos, e sim em fatos políticos
concretos.
Se a Rússia, em algum momento, invadir a Ucrânia, vai ficar muito evidente os
limites da ajuda dos países da OTAN ao país. Exceto se a situação se deteriorar muito
(claro, isso pode acontecer), é impensável EUA, Inglaterra, França e Itália enviarem
tropas próprias para combater na Ucrânia. Analisado o problema de forma abstrata, é
certo que os países imperialistas têm a capacidade de realizar uma guerra com a
Rússia. Os EUA dispõem de muito armamento e contaria com boa parte do bloco
imperialista na empreitada. A indústria da guerra tem muito dinheiro, inclusive, para
fazer as populações aceitarem os gastos e o advento da guerra, como comprova o
orçamento militar dos EUA (que, bem ou mal, a população engole). Mas existem muitos
problemas, de outras ordens na Ucrânia. Cerca de quase 30% da população ucraniana
é russa, portanto, deverá apoiar o seu país. Os países da OTAN estão divididos em
relação às sanções contra a Rússia, porque sabem que uma guerra de provocação é
muito impopular.
Um dos aspectos que divide os países da Europa é o problema do fornecimento de
gás russo, vital para boa parte dos países. Por exemplo, a Alemanha se recusou em
fornecer armas à Ucrânia e boa parte dessa iniciativa decorreu da dependência que o
país tem do gás russo, cerca de 40% de todo o produto utilizado no país. Mas, no caso
de uma guerra, a tendência é toda a Europa sofrer muito com a redução da oferta de
gás. Com o risco da guerra, o preço do barril de petróleo está em quase US$ 90 com
tendência a aumentar. Claro que o gás é um problema para a Rússia também, pois
suas receitas dependem muito das vendas para os países da Europa.
A Rússia, assim como a China, não são países imperialistas. Não são países que
tentam dominar o mundo, que é uma característica do imperialismo, mas potências
regionais que procuram se manter enquanto tais. Esse fenômeno pode ser constatado
até pelo número de bases militares que os EUA mantêm mundo afora, 742 espalhadas
por cerca de 80 países e territórios, inclusive no Brasil, em Alcântara. Esta gentilmente
cedida pelo “patriota” Bolsonaro ao Império. China e Rússia não têm nada disso. Neste
momento em que os EUA procuram recuperar terreno perdido, potências regionais
atrapalham os seus interesses, daí os conflitos da Ucrânia e Tawuan.

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