Fora da ordem

Por Nicole Lima

Mesmo quem está acostumado a frequentar museus e galerias de arte sabe que a experiência de adentrar um desses espaços inevitavelmente nos causa uma mudança de estado, uma alteração no ritmo que percebemos até mesmo nos nossos batimentos cardíacos. Seja por conta da arquitetura monumental, da iluminação, das longas rampas de acesso, do eco ligeiramente abafado, ou mesmo do “ar” (aquele ar distinto que só respiramos nos museus), tudo ao nosso redor nos transporta para um estado de arte em que somos, pouco a pouco, tomados por um silêncio solene, uma postura contemplativa, um caminhar vagaroso e gestos contidos que nos convocam a estar presentes, à altura daquele evento.

Mas, às vezes, o que nos espera naquela última sala, após termos subido e descido quase todas as rampas, exaustos, após percorrer centenas de imagens, pode terminar não cabendo na mesma experiência. Foi o que aconteceu na minha penúltima visita ao MON, enquanto tentava me recuperar entre a Travessia do Desastre (da qual falei na coluna passada) e o desconcerto de quem acaba de cruzar um continente de arte africana sem entender nada (um desentender importante, do qual falarei na próxima coluna, aguardem).

Eu acabara de descer ao subsolo para passear um pouco pelo jardim de esculturas em busca de um pouco de “ar de verdade” do lado de fora, quando, ao retornar — e já prestes a ir embora —, um segurança me chamou a atenção, apontando para o cantinho esquerdo antes do túnel: “ei, tem mais essa aqui, você já viu?”

Não, eu não tinha visto.

Um azul profundo me convidava a um derradeiro mergulho. Será que ainda tenho fôlego? Pensei. Ao percorrer a antessala, logo percebi, a despeito da montagem cuidadosa e aparentemente simples das grandes e belas imagens, que eu não estava diante de uma “simples” exposição, daquelas pensadas para nos agradar, mas sim perante imagens que só poderiam existir se eu estivesse inteiramente presente para completá-las. Terminei de percorrer a sala prometendo a mim mesma que voltaria outro dia, quando pudesse estar apenas ali.

Então eu voltei para cumprir o compromisso de decifrá-las, a começar pelo título: Mens Rea – A cartografia do mistério.

A expressão, que em latim significa “Mente Culpada”, compõe a descrição clássica do direito penal basilar sobre o início da teoria do crime, e é usada para indicar que “a ação não é necessariamente culpada, a menos que a mente também seja culpada”. Descubro que o sentido dessa culpa pode ainda ser subdividido em quatro ordens: a primeira é a intenção, marcada pela vontade consciente, o desejo de agredir ou causar dano. A segunda é o conhecimento prévio dos resultados daquela ação. A terceira é a imprudência, a ciência sobre possíveis danos que não nos impede de praticar o ato. A última é a negligência, quando mesmo não participando diretamente de uma ação, não agimos para tentar impedi-la.

É nessa última categoria que mais me vejo espelhada, do outro lado do reflexo daquelas imagens brilhantes em fundos coloridos. Ali sou confrontada com meus desejos, compulsões, medos e até mesmo com a minha ingenuidade: onde eu estava? Onde eu estou? Em que mundos tão distintos convivem simultaneamente abajures cromados de luxo e a miséria humana? O que é real, afinal?

Se suas fotografias coloridas me colocam, tal qual “Las Meninas” de Diego Velázquez, como uma testemunha silenciosa diante da imagem, presa do outro lado da cena, suas sequências em preto e branco desenham ainda um outro espaço para o receptor. Trata-se de um lugar próprio, onde a imagem só pode acontecer no intervalo vazio entre as imagens, a partir de um desejo de ver em contraste com o incômodo de ter visto.

Na primeira fotografia, vejo uma moça bem vestida, aparentemente conversando com alguém (um homem? aquele homem?) fora do quadro. Na seguinte, uma parte de seu vestido escapa de uma mala. Entre a primeira e a última, algo está ausente: o ato em si, a violência daquele que agora supostamente esconde os vestígios de seu crime, só pode se passar na minha cabeça. A violência então me habita nesse intervalo pendular entre o começo e o fim, a causa e a suposta consequência.

Diante de vários rostos de mulheres desconhecidas, Mac Adams me põe, tal qual o título da obra, em “Dúvida”, incitando-nos a desvendar quem está debaixo daquele capuz: qual delas eu deveria acusar?

Segundo o próprio Mac Adams, os trabalhos “Dúvida” e “O Falso Homem” surgiram como uma crítica ao sistema de pré-julgamento da justiça criminal:

“Parece-me, e aparentemente também para muitos criminologistas, que a memória, principalmente dias ou semanas após um crime, é uma maneira muito ineficaz de capturar um criminoso. Deixe-me esclarecer isso: se convocações diretas de testemunhas oculares foram eficazes, infelizmente, os inúmeros erros cometidos por memória defeituosa, condições de visualização, coação, emoções elevadas e preconceitos colocaram muitas pessoas inocentes na prisão. Os dípticos e trípticos são veículos para explorar a compressão na narrativa.”

A dúvida recai, assim, sobre nós, mas também sobre a própria natureza da imagem. A ideia de fotografia, antes testemunho quase inquestionável da verdade, é colocada em xeque, parecendo estranhamente menos real do que as sombras que Mac Adam projeta sob objetos no chão: elas são a única coisa que de fato escapa do “isso foi” descrito por Roland Barthes e mesmo do “isso pode ter sido?” que suas sequências de fotografias nos provocam a imaginar. Aquelas sombras “estão sendo”.

Se por um lado as figuras que desenham podem nos remeter aos conceitos de Simulacros e Simulações descritos por Baudrillard, por outro nos levam a pensar também na efemeridade daquele encontro que se desfará, literalmente, no apagar das luzes.

Seria aquela mesa coberta de fotografias um aviso ou um destino?

O ar dessa exposição, de fato, é denso, é quente, a despeito do frio e sóbrio azul das paredes. Nessa experiência invertida, em que entro solenemente pela porta dos fundos do museu e saio, esquecida de minhas verdades, pela entrada principal, só Caetano me compreenderá: alguma coisa está fora da ordem, fora da nova ordem mundial.

E o cano da pistola

Que as crianças mordem

Reflete todas as cores

Da paisagem da cidade

Que é muito mais bonita

E muito mais intensa

Do que no cartão postal.

*  *  *

Após minha última visita à exposição, pude conversar novamente com o curador, Luiz Gustavo Carvalho, que gentilmente respondeu às minhas perguntas, encaminhando algumas delas ao próprio artista, que reproduzo aqui:

Nicole Lima: como se deu a proposta de intercalar as séries produzidas em tempos e formatos tão distintos nesta exposição? Como elas reforçam a participação do espectador na constituição dessa culpa ou dessa violência passiva?

Luiz Gustavo Carvalho: eu creio que as fotografias, esculturas e instalações presentes na exposição são meios utilizados por Mac Adams para atravessar diversos tecidos sociais onde refletem-se tragédias, interrogatórios violentos, abusos domésticos, estupros, crianças com armas, etc. Parece-me que estas obras, criadas na sua maioria entre as décadas de 1960 e 1980 provaram ser prescientes, pois uma camada inesperada emergiu: as fake news. Não se contentando em ter o público apenas como fruidor de arte contemporânea, Mac Adams, através de sua obra, deixa-nos a liberdade para nos tornarmos testemunho, voyeur ou até mesmo cúmplice das cenas retratadas no espaço expositivo e ainda dos crimes que continuam permeando os espaços urbanos ao deixarmos a exposição.

Nicole Lima: suas séries parecem nos deixar diversas peças “faltando” para o espectador completar. Como você projeta esse espaço para o fruidor na constituição das suas imagens?

Mac Adams: eu diria que é semiótica. Essas obras foram projetadas para se tornarem textos substitutos, o que significa que é preciso lê-los como um texto tradicional. Mesmo nesta era da internet e do consumo de milhões de imagens todos os dias, a nossa cultura não é treinada ou educada visualmente da maneira que acho que deveria ser. Esse fenômeno das notícias falsas é um sintoma disso, optamos por ser manipulados pela superfície das imagens em vez de analisá-las em termos do que estão fazendo ou nos dizendo. O que falta nessas imagens e que deve ser contemplado pelo espectador é a inefabilidade do visual e a força do contexto. É por isso que escolho torná-los abertos, sem julgamentos morais para que permaneçam atualizados.

Nicole Lima: qual seria o papel das pessoas ditas “boas” ou que supostamente não cometem atos violentos, na constituição da própria violência?

Mac Adams: isto é realmente difícil. Você está me pedindo para definir uma pessoa boa, a resposta simples é ‘aquela que não faz mal aos outros ou a qualquer coisa viva’.

Serviço:

“Mens Rea: A Cartografia do Mistério”, de Mac Adams, fica em cartaz até o dia 21 de novembro, na sala 11 do Museu Oscar Niemeyer.

Visitação: de terça-feira a domingo, das 10h às 18h.

Créditos das fotos: Mac Adams (reproduções das obras no site do próprio artista) e Marcello Kavasse (imagens da instalação no MON)

Nicole Lima é doutora em artes visuais, professora, curadora, artista visual e pesquisadora em estudos da imagem, história da arte e linguagens contemporâneas. Para acompanhar seu trabalho, siga @ocorpodaimagem no Instagram.

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