DEBATE: Meio Ambiente Global/planetário: para além do ponto de mutação. 27/09/21 (segunda-feira) 19.00

Com FRANCISCO CARLOS REHME (Chicho)

O Francisco (Chicho): é Professor e geógrafo graduado pela UFPR (1986). Pós-graduado pela PUC-Rio em Currículo e Prática Educativa (2003) e pela UFPR em Geografia Física – Análise Ambiental (1994). Mestre pela UFPR em Dinâmica da Paisagem (2008) e professor de colégio da rede particular de ensino em Curitiba, desde 1984, atuando nos níveis de Ensino Fundamental e Ensino Médio. 

LINK PARA Entrar na reunião Zoom
https://us05web.zoom.us/j/89613666602?pwd=UkJyOEE2NkEwMGdqQ3ROMDYvZUwrUT09

O TEMA: A terra, nossa casa, está em perigo pela depredação permanente e exploração inconsequente em vista de consumo desenfreado e lucro crescente de maneira a hipotecar o futuro dessa e das próximas gerações.

No século passado (década de 70), Raul Seixas contou que

“Buliram muito com o planeta

E o planeta como um cachorro eu vejo

Se ele já não aguenta mais as pulgas

Se livra delas num sacolejo.”

Se em décadas anteriores esse grito parecia obra de alguns visionários, hoje esta realidade se impõe para enorme contingente de cientistas, ambientalistas e cidadãos conscientes, que lutam e defendem estar na hora de um basta, pois o planeta não aguenta o atual modo de vida e consumo insituídos, sobretudo pelos países, corporações e pessoas mais ricas.

Estamos aniquilando o futuro das próximas gerações e consumindo de maneira louca e assassina, pois a exploração predatória do planeta e produção de alimenntos sequer tem como objetivo alimentar toda a população. Ao contrário! Enquanto se produz alimentos e bem estar mais que suficientes para toda a população do planeta, cerca de um bilhão de pessoas passam fome e seis milhões de crianças morrem todo ano por inanição. Enquanto isso, uma minoria abastada engorda e esbanja abusiva e inconsequentemente, gerando um processo de aniquilação da casa que é de todos.

A terra é um grão de areia no universo, quase incapaz de ser detectada na infinitude do universo, mas é o único lugar conhecido por nós que pode receber a moradia e a vida humana. A terra não desaparecerá, mas a humanidade está fadada a ser expulsa ou extinta, caso não se mude o modo de ver e viver a vida, os costumes que imperam no modo de proceder e a forma de consumir.

Desenvolver uma nova Consciência Planetária, capaz de perceber que cada ação local tem consequências globais e que a Terra, esse organismo vivo, está agonizando e pedindo socorro, é vital. Mais que isso: é de urgência intransferível, ainda que a oficialidade burra, interesseira e insensata fale de alarmismo ou de discursos sem sentido.

A reflexão que o Chicho trará neste debate e que tem sido seu campo de trabalho há décadas tem este pano de fundo e nos convida a um posicionamento e a participação neste caminho e empreitada. Abaixo, segue o texto que serve de referência ao debate de segunda-feira. Convidamos você a participar, convidar amigos e trazer suas contribuições e este momento em que Pátria Distraída debruça-se sobre este tema e busca olhar para o presente e o futuro da humanidade e do planeta.

Como nós, brasileiros, percebemos as mudanças climáticas?

Classe social, escolaridade e posicionamento político influenciam a percepção do brasileiro sobre mudanças climáticas.

O artigo é de Lucas Alencar, cientista ambiental e doutorando em Ecologia Aplicada, Wagner Rafael M. Souza, biólogo, professor, especialista em política e planejamento urbano, mestre e doutor em Zoologia e Rodrigo F. R. Carmo, biólogo e professor, PhD em Biologia Animal, publicado por O Eco 28-06-2021.

Eis o artigo.

Passados pouco mais de dois séculos da revolução industrial, as ações humanas já são uma das principais ameaças para a aceleração do desequilíbrio climático do nosso planeta. Por isso, diversos acordos globais já foram realizados visando combater, mitigar ou até mesmo reverter as consequências desse distúrbio. Apesar disto, estamos diante de uma crise climática e longe de cumprir o celebrado Acordo de Paris, que visa manter o aumento da temperatura média da Terra em até 1,5ºC acima da temperatura pré-industrial. Talvez por conta da inércia e dos fracassos dos tomadores de decisão ao redor do mundo em cumprir este e outros acordos, uma grande parcela da população brasileira se declara muito preocupada com as mudanças climáticas. É o que aponta uma pesquisa encomendada pelo Instituto Tecnologia e Sociedade do Rio de Janeiro ao IBOPE.

Essa foi a primeira pesquisa de opinião em grande escala realizada pelo IBOPE acerca da percepção dos brasileiros sobre mudanças climáticas, a qual contou com um total de 2.600 pessoas entrevistadas, distribuídas em todos os estados do Brasil, além do Distrito Federal. A pesquisa atuou tanto na pesquisa de opinião sobre mudanças climáticas quanto no delineamento do perfil socioeconômico dos participantes. Para esse levantamento, o questionário contou com perguntas como “O quanto você acha que o aquecimento global pode prejudicar você e sua família?”, ou “O quanto você acha importante a questão do aquecimento global?”, as quais os entrevistados puderam escolher entre respostas categóricas que variaram de 1 (muito preocupado) a 4 (nada preocupado). O desenvolvimento dessa pesquisa foi realizado em parceria com o Yale Program on Climate Change Communication (YPCCC), que elaborou um método amplamente utilizado e validado em países da Europa e América do Norte.

(Arte: Rodrigo F. R. Carmo | Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio)

Os resultados dessa pesquisa são interessantes e nos indicam que cerca de 80% dos participantes se declararam muito preocupados com o meio ambiente e com o aquecimento global. Outro dado interessante é que parece haver pouco negacionismo climático entre os brasileiros: 92% dos entrevistados consideraram que o aquecimento global está acontecendo e 77% culpam as atividades humanas como principal fator para que isso aconteça. Mas, se a preocupação com as mudanças climáticas é generalizada, por que isso não se traduz em ações proporcionais na esfera pública? Para começar a responder essa pergunta, identificamos quem são as pessoas que não estão preocupadas com as mudanças climáticas para entender as possíveis razões.

Nós aproveitamos essa extensa base de dados para avaliar o quão sensível os brasileiros são às mudanças climáticas, e quais fatores socioeconômicos melhor explicam essa sensibilidade. Para tanto, criamos o Índice de Sensibilidade às Mudanças Climáticas (variando entre 0 – muito sensível – e 1 – insensível), avaliado por estado e baseado no Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), a partir das respostas sobre o aquecimento global (você pode acessar a pesquisa completa clicando aqui). Os nossos resultados apontam para uma grande variação da sensibilidade dos brasileiros ao longo das unidades federativas. Roraima foi o estado que apresentou o resultado mais alarmante, com o valor máximo de insensibilidade, seguido por Tocantins (0,57) e Rondônia (0,37). Já o Distrito Federal foi a unidade federativa que a população se mostrou mais sensível às questões climáticas.

Dada a diversidade de realidades experimentadas pelos estados brasileiros, é improvável que um único fator explique essas variações. Apesar de não termos encontrado um padrão regional evidente, a situação em alguns estados desperta interesse. O Pará, um dos estados em que mais se avança sobre a floresta, apresentou valores de sensibilidade satisfatório (0,06). Por outro lado, Santa Catarina (0,29) e Rio Grande do Norte (0,32) também apresentaram índices mais altos que a média e por razões, possivelmente, bem distintas. Portanto, é razoável pensar que em diferentes regiões do Brasil, diferentes fatores explicam a insensibilidade de sua população às mudanças climáticas.

(Arte: Rodrigo F. R. Carmo | Instituto de Tecnologia e Sociedade do Rio)

Para entender melhor essas diferenças, mergulhamos no que pensam cada um dos brasileiros e brasileiras entrevistados e nas suas características sociais e econômicas. Os resultados foram elucidativos e didáticos. Encontramos, por exemplo, uma diferença marcante entre as classes mais pobres (C1, C2 e DE) que são mais sensíveis quando comparados com as classes mais altas (A, B1 e B2). Também observamos que o posicionamento político é um forte indicativo de variação, já que as pessoas que se autodeclararam à esquerda são mais sensíveis do que as que se declararam à direita ou ao centro. Um resultado intrigante se dá quando avaliamos a religião dos respondentes, com os protestantes (evangélicos e evangélicas) sendo mais insensíveis do que católicos, não havendo diferença entre as outras denominações.

Avaliados em conjunto, é imperioso relacionar esses grupos com os segmentos sociais que fornecem sustentação ao atual governo e suas políticas anti-ambientais. Os segmentos que são menos preocupados com as mudanças climáticas são, em boa medida, aqueles que aglutinam apoiadores da gestão federal. Esse grupo inclui aqueles que, no contexto brasileiro, mais contribuem para as mudanças climáticas. Contudo, são os que podem se esquivar das consequências imediatas do dano ambiental causado devido ao poder econômico. Na outra ponta estão as pessoas mais pobres que, apesar de demonstrarem preocupação com a situação, sofrem diretamente as consequências da emergência climática.

Uma possível solução para isso também se encontra nessa pesquisa. Encontramos que quando comparado com os analfabetos, aqueles que conseguiram completar até o segundo ano do ensino fundamental se mostraram mais sensíveis às questões climáticas. Ato contínuo, os entrevistados que concluíram o Ensino Superior são os que mais estão preocupados com o assunto, evidenciando a relação positiva entre tempo de ensino formal e domínio da pauta ambiental.

Destaca-se também o papel dos meios de informação. Nossos resultados apontaram para uma maior sensibilidade dos brasileiros que se informam mais pela TV do que por qualquer outro meio, incluindo eles rádio ou internet. Sendo assim, nossos resultados reforçam a necessidade de se traçar estratégias voltadas aos grupos prioritários e utilizar as ferramentas comunicativas mais adequadas para divulgação da agenda ambiental para superação do quadro dramático que vivemos hoje no Brasil. Ou como diria o músico Edgar, “percebo que todo mundo já está bem consciente, precisando só ser sensibilizado”.

INSTITUTO HUMANITAS UNISINOS. Como nós, brasileiros, percebemos as mudanças climáticas? Disponível em:<http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/610687-como-nos-brasileiros-percebemos-as-mudancas-climaticas&gt;

LINK DE SEGUNDO ARTIGO DE REFERÊNCIA

http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/595510-antropoceno-a-era-do-colapso-ambiental

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