O impressionante fracasso norte-americano no “cemitério dos impérios”

José Álvaro de Lima Cardoso (economista)

Os EUA foram escorraçados do Afeganistão em agosto, por um exército
minoritário, que não tem aviões de combate, destroieres, não tem mísseis, não
dispõe de helicópteros. Um exército equipado com metralhadoras manuais e
algumas caminhonetes, a grande maioria arrancadas do inimigo. Os EUA
costumam enganar os incautos, tentando disfarçar sua condição de invasor,
por duas longas décadas no Afeganistão. Implantar a “democracia”, proteger as
mulheres, e outros segmentos oprimidos pelo Talibã, preservar o meio
ambiente, etc. Essas são algumas das miragens utilizadas para justificar uma
guerra, cujo saldo trágico, dentre outros, se aproxima dos 180.000 mortos.
Se calcula que nos 20 anos de guerra dos EUA com o Afeganistão, a mais
longa travada pelo Império, foram gastos mais de US$ 2 trilhões. O valor
equivale a US$ 300 milhões por dia, todos os dias, durante vinte anos. O
dinheiro seria suficiente para distribuir US$ 50 mil para cada um dos 40 milhões
de habitantes do Afeganistão. Num cálculo mais preciso, se estima que o gasto
total no conflito tenha alcançado a impressionante cifra de US$ 2,26 trilhões,
várias vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Afeganistão de US$ 19,26
bilhões em 2019. Acreditem: os gastos da guerra em 20 anos, somente dos
EUA, equivalem a 117 vezes o PIB do Afeganistão, país no qual um professor
ganha de 4 a 5 cinco dólares por mês.
Além dos US$ 800 bilhões para bancar custos diretos de combate, foram
gastos US$ 85 bilhões para treinamento do Exército afegão, que simplesmente
virou fumaça a partir do fechamento repentino da Base Aérea de Bagram pelos
norte-americanos, em julho último. Sem os ataques aéreos aos soldados
talibãs, o exército regular do Afeganistão, sustentado por grosso dinheiro dos
americanos, simplesmente entrou em parafuso.
Os números oficiais de vidas perdidas na guerra (que devem ser olhados
com reservas, pois podem estar subestimados), mostram as abissais
diferenças de recursos entre os dois lados: sucumbiram na guerra 2.500
militares norte-americanos. Do lado Afegão, foram 69 mil policiais militares, 47
mil civis e 51 mil combatentes mortos.
As cifras envolvidas na empreitada revelam as razões pelas quais a
economia dos EUA não vive sem a permanente fomentação de guerras, mundo
afora. O dinheiro para a matança desses quase 170.000 afegãos, fora os
feridos, veio dos bancos. Pesquisadores da Brown University calculam que
apenas o custo dos juros de dívida da guerra afegã possa alcançar US$ 6,5
trilhões, até a quitação da dívida. O valor representa um custo de US$ 20 mil
para cada cidadão norte-americano e mostra a verdadeira simbiose entre as
guerras provocadas pelos EUA e os interesses do sistema financeiro. Se
morreram quase 170.000 afegãos, isso é apenas um detalhe. O importante é
que a guerra irá proporcionar trilhões de retorno para o capital financeiro e
fornecer uma sobrevida para um capitalismo em crise brutal.
Além do interesse do sistema financeiro nos lucros, sustentado pelo
contribuinte norte-americano e por outros povos do mundo, a guerra se explica
por outros números. O PIB do Afeganistão, de US$ 19,29 bilhões, como vimos
(110ª posição no mundo), não chega a 1% do que os EUA gastaram na guerra.
No entanto, se calcula que a riqueza mineral do Afeganistão esteja em algo
entre US$ 1 trilhão e US$ 3 trilhões. O país possui imensas reservas de cobre,
lítio, cobalto, ferro, ouro, que permaneceram relativamente intocadas nas
últimas décadas. Ou seja, um dos interesses dos norte-americanos no
Afeganistão não é só por um verdadeiro tesouro de pedras preciosas, mas
também por minérios fundamentais para a produção industrial mundial, como o
ferro.
Há relatórios desenvolvidos pelos próprios norte-americanos, entre 2000 e
2010, através do Centro de Pesquisa Geológica dos Estados Unidos, que
mostram a existência das citadas reservas minerais. Como as pesquisas foram
desenvolvidas em pleno processo de guerra, há possibilidades de que as
reservas sejam ainda maiores do que as projetadas. Vale lembrar que um dos
grandes problemas atuais dos EUA é o esgotamento de fontes de minérios e
de outras matérias-primas, sem as quais nenhum império se sustenta. Não por
acaso, a primeira razão econômica da articulação do golpe no Brasil em 2016,
pelos EUA, foi petróleo. Assim como, boa parte dos golpes coordenados pelos
EUA no restante da América Latina foram também em busca de fontes de
matérias-primas.
Os dados concretos da economia e da guerra no Afeganistão não podem
deixar dúvidas sobre quem é o país opressor e quem é o oprimido nesse
embate. O cineasta estadunidense Michael Moore, matou a charada em seu
perfil no Facebook: “Cabul, Saigon. A queda, mais uma vez. A América perde
outra guerra. Nossa guerra mais longa. Somos o nº 1!! Gastamos mais de US$
2 trilhões. Sacrificamos mais de 2.300 vidas de americanos para invadir um
país onde Bin Laden nunca foi, em lugar nenhum, encontrado. Nós somos os
invasores. O Taleban não é invasor – eles são afegãos – é o país deles!”.
A questão da invasão dos EUA ao Afeganistão, que agora teve um
desfecho, é simples. O país é independente e não pode ser ocupado por um
país estrangeiro, sob qualquer pretexto. Os EUA invadiram o Afeganistão,
como fizeram com centenas de países para roubar e manter sua condição de
império. Se um determinado país tem problemas de qualquer natureza, seja no
campo da democracia, dos direitos humanos, na relação com as mulheres, é o
seu próprio povo que tem que resolver. E não a águia mais imperialista do
mundo que, sabidamente, faz qualquer coisa (qualquer coisa, mesmo) por seus
objetivos geopolíticos e econômicos.
É isso que representa a velha política de autodeterminação dos povos.
Nenhum país tem o direito de usar como justificativa, desculpas tipo opressão
das mulheres ou fanatismo religioso para invadir e destruir outro país. Quem
tem que resolver esses problemas é o próprio povo afegão. Por que ninguém
fala em invadir os EUA para resolver o problema da pobreza em que vivem 40
milhões de norte-americanos (uma população inteira do Afeganistão), mesmo
sendo o país mais rico da Terra? Negar ao povo afegão o direito de
autodeterminação, utilizando pretextos como: “não tem democracia”, “maltrata
as mulheres”, “tem corrupção”, etc. é posição absolutamente cínica e
colonialista.
Com uma desculpa esfarrapada os EUA invadiram o Afeganistão, há 20
anos, para roubar minérios fundamentais e por posições geoestratégicas
importantes. Como fizeram com inúmeros países. Além de abundância mineral,
o Afeganistão tem localização estratégica. Liga o Médio Oriente à Ásia Central
e ao sudeste asiático e faz fronteira com o Paquistão, Irã, China e outros
países menores. Para atingir seus objetivos no país o Império norte-americano
implantou um governo capacho, que foi derrotado pelo Talibã, apesar de todos
os gastos realizados pelo invasor.
O Afeganistão é considerado, de forma impressionante, o “Cemitério dos
Impérios”. O poderoso Império Britânico o invadiu pela primeira vez no século 19.

Pressionado pelas circunstâncias teve, em 1919, que abandonar o
Afeganistão e ceder a independência ao país. Em 1979 foi a União Soviética,
que invadiu o Afeganistão também com objetivos geopolíticos e econômicos.
Dez anos depois, percebendo que não venceria a guerra, e já numa grande
crise econômica e política, saiu do país. Agora, o mais bem equipado exército
do mundo foi colocado para correr por combatentes subnutridos, mas com
determinação e tenacidade, brotadas diretamente das suas almas guerreiras.
Como se consegue derrotar 300 mil soldados, que usavam tecnologia de
guerra muito superior, financiados por uma fábula de recursos do imperialismo
mundial? E que ainda conta com mais alguns milhares de soldados norteamericanos, e mais dezenas de milhares de soldados italianos, também portando armamento de último tipo?

O aparente enigma tem uma explicação
muito simples: o Talibã conta com o apoio da maioria do povo Afegão. Dada a
diferença extraordinária de recursos entre os dois lados, só uma mobilização
popular gigantesca explica a derrota do Império.
Não há como negar a importância da queda dos EUA no Afeganistão, que
foi comparada, inclusive, à acachapante derrota no Vietnã do Sul. Tal
importância foi plenamente reconhecida por todas as forças políticas dos EUA.
Uma congressista republicana, Elise Stefanik, por exemplo, tuitou: “Este é o
Saigon de Joe Biden”. E acrescentou: “Um fracasso desastroso no cenário
internacional que nunca será esquecido.”

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