EM SILÊNCIO, PISCANDO

Cezar Tridapalli

Em 2005, o escritor americano David Foster Wallace foi paraninfo de uma turma do Kenyon College, em Ohio. O discurso dele começou assim:

Dois peixinhos estão nadando juntos e cruzam com um peixe mais velho, nadando em sentido contrário. Ele os cumprimenta e diz:

– Bom dia, meninos. Como está a água?

Os dois peixinhos nadam mais um pouco, até que um deles olha para o outro e pergunta:

– Água? Que diabo é isso?

Não se preocupem, não pretendo me apresentar a vocês como o peixe mais velho e sábio que explica o que é água ao peixe mais novo. Não sou um peixe velho e sábio.

            É que não há uma questão de hierarquia, assim, em termos absolutos. E é também mistificada a figura do sábio que sabe mais que todo mundo, independente de contexto, situações, relações. Tempo de vida pode contar muito; por outro lado, não é difícil encontrarmos anciãos que enrijeceram mais dos que as juntas e as articulações, enrijeceram suas verdades e, aproveitando a ambiguidade propícia do termo, enrijeceram as articulações com o que lhes é externo e, mais, estrangeiro e, portanto, estranho.

            Como exemplo de que a idade nem sempre é sinônimo de sabedoria, acabamos precisando de uma criança para dizer que o rei, bem mais vivido em anos, estava nu. Nem conselheiros nem súditos adultos do rei foram capazes de gritar a verdade, preocupados que estavam com as convenções, com o medo, com o parecer inteligente e especial.

            Crianças, que têm olhar inaugural sobre o mundo, podem provocar fissuras no mundo simbólico instituído dos adultos. Então as crianças são as verdadeiras sábias? Não, é isso que eu quis dizer no início com não há uma questão de hierarquia, assim, em termos absolutos. Uma criança – a mesma da historinha do rei, inclusive – pode ser birrenta, chata e… bem infantil.

Nem sempre velhos são sábios, nem sempre crianças são sábias. E, para mim, sábio que se preze nem sempre é sábio. Nem sei, aliás, se sábio é o melhor termo – até prefiro os sabiás, que sabem assobiar. Tento ser claro: cada um de nós é uma cápsula onde se concentram doses singulares de convicções, certezas, medos, amores, pulsões que transitam ou giram em falso – fluidas ou encalacradas, criativas ou repetitivas –, libidos, não-ditos, ignorâncias, saberes sabidos e saberes não sabidos. E quem é capaz de nos mudar? Por que mudamos? Apenas porque comemos e crescemos e envelhecemos? Não dá para jogar toda a responsabilidade das mudanças na biologia. É na biografia que se escreve muito do que somos.

Porém.

Curiosamente, por mais que nossa biografia seja o que de mais único e íntimo podemos ter, ela não consegue ser tecida sem o outro, que é quem põe lenha na nossa fogueira, ou nos apaga, ou provoca cesuras em nossas fortalezas, por onde entra o novo, afeto que nos afeta.

            Eu já falei várias vezes a respeito disso e agora devo ter perdido algum leitor no caminho. A quem veio até aqui, acho que, no próximo parágrafo, falarei algo diferente, pelo menos para mim mesmo. Recupero brevemente a discussão para dizer que esse outro não precisa se vestir com a aura da sabedoria e trazer para nós a Grande Verdade, iluminando escuridões. Nossas armaduras podem inadvertidamente ter seus poros abertos e respirar, deixar entrar oxigênio em nossa cápsula subjetiva.

            Outro escritor americano, George Saunders, tem um conto tão conciso quanto potente chamado “Estacas” (de seu livro Dez de dezembro). Nele, o narrador fala sobre o pai, que costumava fincar uma estaca em forma de cruz no jardim de casa e vesti-la conforme as datas comemorativas. No Natal, vestia a estaca como Papai Noel. “No Dia da Independência o poste era o Tio Sam; no Dia dos Veteranos, um soldado; no Halloween, um fantasma.” E assim por diante. O narrador fala de mais algumas idiossincrasias paternas. Para ele, que cresceu dentro daquela água, isso é um pai, pais são assim, era um pai fazendo coisas de pai.

            Anos mais tarde, o narrador leva até sua casa a primeira namorada. Que, sem muitas pretensões, ao final da visita, pergunta: “Qual é a do seu pai com aquele poste de metal?”

            Depois da pergunta, o autor solta uma frase espetacular – já pedindo desculpas pela minha empolgação se por acaso você não achar nada demais. Depois da pergunta da namorada, vem o seguinte: “e eu fiquei em silêncio, piscando”.

            Até agora eu não sei direito porque essa frase me toca tanto. Eu abro a boca, tenho vontade de rir, já imaginei tantas vezes a cena, já dei uma de ator (sem plateia), piscando e repiscando.

            Posso chamar isso de epifania, posso dizer que o narrador descobriu a água que o circundava, sem precisar de um velho sábio nem da pureza da resposta das crianças. Vejo a namorada, mascando chiclete – só na minha cabeça, o conto não fala isso – e perguntando meio que sem interesse pela resposta, quase uma pergunta-comentário, “qual é a do seu pai com aquele poste de metal?”.

“… e eu fiquei em silêncio, piscando”.

Eu também.

Eis o papel do outro na abertura da subjetividade, na abertura de novos sentidos atribuídos ao que parecia ser a natureza das coisas. A namorada não ensinou uma lição, não deu sermão, não se valeu de um discurso de mestre. Ela apenas instilou um sopro na estrutura fechada e compacta de um sujeito que achou que as coisas eram o que eram, intransitivamente.

Voltando ao discurso de formatura feito por David Foster Wallace, há um ditado popular que sintetiza a historinha: “o peixe é o que menos sabe da água”.

Prato cheio para deitar e rolar nas concordâncias e discordâncias, enfiando o famoso “depende, né?”.

O peixe sabe muito da água, respira nela, manobra, movimenta-se nela, é parecido com o que eu disse lá em cima sobre o saber não-sabido. Por outro lado, a formatação da realidade está tão ajustada ao sujeito que ele não consegue conceber que há algo ali que não é inequívoco, mas imaginário, simbólico, fantasmático, é constituição de uma lente toda própria e com a qual o mundo é visto. O “qual-é-a-do-seu-pai” é um anzol que fisga e leva a outra atmosfera, a outros ares. A metáfora do anzol é ruim, está associada à morte e à asfixia, mas vou mantê-la porque falávamos de peixes, além de anzol poder figurar aqui como representante de algo que retira o sujeito de uma conformação existencial e o transporta a outra ambiência.

Muita coisa se passa naquele “em silêncio, piscando”, muita coisa transpassa o personagem, atravessa o leitor – pelo menos os boboalegre feito eu.

Vou caminhar sobre uns espinhos agora: lugar de fala.

Quase comecei com a mais terrível das frases: respeito o lugar de fala, mas…

Refaço: há algum mal-entendido sobre a questão do famigerado lugar de fala – ou talvez só eu o esteja entendendo mal. Ele gira em torno da ideia de que não se deve opinar sobre realidades que não são vividas por aquele que fala. Grosso modo: se você não vive determinada realidade, não fale sobre ela, você não pode, você não está autorizado, você não sabe o suficiente.

Como disse, esse modo de entender lugar de fala é problemático e diz respeito às polêmicas de internet. Quem estuda e escreve com mais profundidade acerca do assunto, felizmente, não parece assim tão peremptório. Porque é evidente que há vozes historicamente caladas que precisam de espaço, projeção, escuta. Essas vozes sociais até então dissonantes do discurso soberano e domesticador são o outro, são os peixes que perguntam como está a água, são as namoradas que perguntam “qual é a do seu pai”. A gente fica em silêncio, piscando. Modestamente, quase pedindo desculpas pela afirmação que farei, acho que o caminho é bilateral, transitivo de mão dupla. Quem vê de fora, sem estar imerso nas águas, pode ter dúvidas, perguntas, lançar questões e modos de ver que ajudem quem está dentro a se reordenar também. Reordenar-se na direção do seu desejo como sujeito. Precisamos do outro e do Outro (uma sutileza psicanalítica aqui), mas não para sermos objeto deles.

Até porque nem tudo que vem do outro contribui, expande, insufla ar renovado. O encontro com o outro pode ser apequenador, amedrontador, opressivo, tosco, ou simplesmente nulo. E de exemplos estamos fartos, sobretudo pensando em quem reivindica lugar de fala, nas minorias que já aguentaram todas as formas de bobagem preconceituosa, estereotipada e opressiva. A chance de se encontrar com uma voz completamente sem noção é grande. Inclusive a minha agora.

Exemplinhos: só quem escreve literatura pode escrever crítica de literatura? Só quem tem filho pode falar de educação de filhos? Até o momento, eu acho sinceramente que não.

Não deveríamos nos fechar ao outro por princípio, a priori. Fechar-se no ad hominem, desqualificando quem fala em vez de argumentar sobre o que se fala, é típico daqueles que a gente mais despreza (usei um ad hominem aqui? Se sim, foi só para fins didáticos).

Aí eu queria entrar em outro raciocínio: ver o outro apenas como inimigo estereotipado vai criar uma confusão entre justiça e vingança.

Mas já me estendi muito.

Deixo anotado aqui o tema do mês que vem: perigos de confundir justiça com vingança.

Acho que dá pano, né?

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