O copo, a couve, o c* e a cartola.

Cezar Tridapalli (2021)

Meu convite: pensar em um copo. Como falantes de uma língua comum, saberemos pensar nele, evocá-lo como imagem a partir da palavra, acionar nossas redes neuronais para, na tal fração do segundo, voilà, eis aqui na minha cabeça, eis aí na sua, a imagem de um copo.

O copo é um objeto, mas podemos pensar nele objetivamente apenas em partes, afinal todo pensamento objetivo sobre um objeto precisa passar por um sujeito e, dessa forma, banha-se de subjetividade. Portanto, qual o aspecto objetivo do nosso copo imaginado? Provavelmente todos pensamos em um tipo de recipiente feito de algum material impermeável, de formato cilíndrico e côncavo, aberto em uma das extremidades, usado para acondicionar, em geral, líquidos.

(Curioso: eu pensei em um copo americano, que já não tenho em casa há anos. Fui lá na infância buscar minha ideia de copo e isso me fez entender um pouco mais a psicanálise e a Louise Glück: “Nós olhamos para o mundo uma vez, quando crianças. O resto é memória”).

Ainda sobre o copo, podemos tê-lo pensado de diversos materiais, cores, até formatos, mas ainda estamos falando de um copo. Há objetividade e subjetividade em jogo aqui, fazendo suas transações. E dá para ir mais longe ainda. Posso olhar para o meu copo e chamá-lo de vidro, outro pode chamar seu copo de cilindro. Outra pode chamá-lo a partir de sua função e dizer: “isso é um recipiente para líquidos”. Não estaremos errados, apenas vendo o objeto de pontos de vista diferentes entre si.

Mas dá para ir mais-mais longe ainda, e enxergar no copo uma imagem propícia para a metáfora. “O copo é um túnel sem saída”, diria um poeta, ainda mais se tivesse acabado de usar o copo para beber algo alcoólico.

Podemos dizer até que um copo é um corpo mal digitado.

Ou seja, a partir de um objeto e de um lastro objetivo, o sujeito esparrama sua subjetividade e faz desse objeto muitas coisas. Só conseguimos ainda nos fazer entender, ou no mínimo ter a ilusão do entendimento, porque temos uma referência de realidade. A partir de uma realidade comum, variamos, deitamos, rolamos, impingimos nossas experiências, versões, boas e más intenções, chame do que quiser.

Mas tem gente por aí que começou a dizer que um copo era, sei lá, um pé de couve. Quem pensa no seu próprio copo e vê o copo do coleguinha, diferente, mas ainda um copo, olha para aquele pé de couve sem saber se ri, se tem pena, se se preocupa, afinal o terceiro coleguinha, ao pensar num copo, representou um pé de couve. Não há aproximação possível, nem material, nem funcional, nem metafórica.

Podemos fazer mil leituras diferentes de, por exemplo, Dom Casmurro, do Machado de Assis. Mas nenhuma permite dizer que Capitu era uma alienígena vinda de outra dimensão depois de ter cruzado Nárnia. Porque existe um texto, existe a materialidade da palavra em cima da qual as variações subjetivas podem criar, inventar, reinventar.

Diríamos ao sujeito do pé de couve que talvez ele tivesse entendido mal algum código, ou a proposta. No entanto, boquiabertos, vemos que o sujeito que veio com o pé de couve começa a convencer outros de que pés de couve são copos. Alguns espertalhões veem chance de ganhar alguma coisa com essa maluquice e, de repente, o debate se estabelece instituindo pés de couve como copos e tudo vira apenas uma questão de opinião.

Relendo o que escrevi até agora, senti certa vergonha, afinal eu podia ter caprichado mais nas escolhas. Mesmo assim, mantê-las-ei (a mesóclise é a nostalgia de um tempo que já era ruim). Porque o que interessa mesmo é pensar como um outro discurso chega para romper a corda da objetividade, onde as subjetividades se ancoravam, e ganhar status de nova verdade, independente, à deriva, ao sabor das ondas e à mercê unicamente dos interesses dos sujeitos. Se costumávamos brigar, discutir, discordar, ou formar comunidades em torno de denominadores mínimos comuns, parece ter chegado uma turma aí para quem os mínimos comuns da realidade são estorvos, detalhes que podem ser omitidos para que não atrapalhem suas opiniões.

E suas opiniões muitas vezes vão apenas até onde os olhos alcançam. Se Isaac Newton falava que chegou até onde chegou porque subiu nos ombros de gigantes, tem uma turma que não subiu em ombro nenhum. Se não tivéssemos subido em ombros de gigantes, seríamos capazes de olhar ainda hoje para a linha do horizonte, no mar, e dizer: vivemos em uma terra plana (vai ver é por isso que se chama planeta).

São essas pessoas que nunca conheceram gigantes, que nunca subiram nos ombros de nenhum deles, que estão liderando o país. Dizer que é melhor se contaminar do que se vacinar, por exemplo, é cortar todas as cordas que ancoram a objetividade dos fatos e deixar uma opinião ignorante (que ignora os gigantes) flutuar solta por aí, engolfando e dando caldo nos incautos e contando com o coro de quem lucra alguma coisa com isso. Essa lava que se espalha, vinda de alguma profundeza, queima, seca e resseca, solidificando-se. A verdade discursiva vai se espalhando até se solidificar como se fosse verdade factual.

Vacinas sempre salvaram vidas: fato. Terra redonda: fato. Aquecimento global antropogênico (causado pela ação humana): fato. Sociedades – pelo menos dentro do nosso modelo civilizacional – com mais educação se desenvolvem melhor, vivem mais, inventam mais, são mais livres: fato. Sociedade armada é mais violenta: fato.

É melhor se infectar do que se vacinar: TDC. Existe tratamento precoce para a Covid: TDC. Terra plana: TDC. Aquecimento global não existe: TDC. Armar a sociedade para torná-la mais segura: TDC.

TDC: é a sigla que toda a internet conhece para “tirei do c*” (o asterisco, aliás, é a imagem perfeita do que ele mesmo quer censurar). Como esse é um espaço que mantém as portas abertas ao público conservador e interessado, vou dizer que TDC é “Tirei Da Cartola”. Tirei da cartola vazia, tirei do nada, tirei porque é minha opinião ou porque é o que me interessa, sai pra lá com esses fatos aí.

Li essa semana que o Antonio Gramsci cunhou uma frase que era mais ou menos assim: “a história ensina, pena que não tem aluno”.

A História se tece a partir da história das versões, claro. Eu não sei que tipo de história escreveremos se cada um inventar a sua a partir do nada, se cada um tirar da sua cartola o que quiser, ou a partir do TDC de pessoas que não só NÃO subiram nos ombros de gigantes como ainda enterraram a cabeça no chão e querem continuar mandando no país a partir de interesses apenas pessoais e, nesse caso, inevitavelmente mesquinhos, maléficos, perversos.

Portanto:

Se temos o coronavírus correndo solto, temos também o linguagevírus: estamos diante de aspectos biológicos e biográficos da contaminação. Assim como o vírus, as informações TDC – transmitidas pelos perdigotos da fala, pelas mensagens alopradas das redes etc –, de tão massivas, se encaixam no sistema imunológico da informação que tem pé na realidade e a destrói por asfixia, hipóxia, sei lá. Nesse modus operandi, o c* não tem nada a ver com as calças nem com os copos nem com as couves dos fatos, apenas com a conveniência.

Haja respirador.

Um delirante é um psicótico. Se outro sujeito entra no delírio do primeiro, chama-se folie à deux (loucura a dois). Quando 30% de 210 milhões de pessoas entram nesse delírio, chamamos de quê? Delírio coletivo?

            Entre pandemia e infodemia, queria muito que o vírus fosse falso e a informação fosse baseada em evidências. Os fatos, no entanto, mostram o contrário. Porém, se minha vontade é inverter as coisas, posso dizer que a partir de agora minha vontade passará a ser minha opinião, e minha opinião passará a ser minha verdade, e que, portanto, o vírus não existe, é delírio de um pessoal que divulga evidências e quer destruir o Brasil. E qualquer notícia que chegar confirmando a minha verdade será o ahá definitivo, o eureca, a prova, o motivo para o sorriso babão, gozoso diante da verdade que, ó, coincidência, tem a mesma forma do meu pensamento.

            A grosseria, aliada à perversidade, faz estragos. Se não houver mecanismos sociais para frear os delírios – muito calculados, pois duvido que esses delirantes aí rasguem dinheiro –, a democracia vai agonizar até morrer.

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