A PÁTRIA, A MÃE, E COISAS QUE VOAM

Por: Luiz Carlos Heleno

Mãe sempre foi mais silêncio que alarde. Às vezes uma canção assobiada em fim de
tarde enquanto cerzia as barras de uma cortina ou regava as plantas que cultivava no quintal.
Mas mãe também levou a cabo seus instantes de ira, a fala ou opinião represadas se impondo
no intento de ser ouvida. Enxurrada que carrega o pó acumulado pela rotina dos dias. Não me
lembro de mãe e pai protagonizando cenas ou situações daquilo que conhecemos ou
classificamos como violência doméstica. Havia ali um acordo tácito de casal consagrado, no
sentido religioso da palavra. Na vida prática, isso era traduzido por mãe do lar e pai provedor.
O cotidiano casamento em que o diálogo, com o tempo, se desidrata por letargia ou por
liturgia silenciosa dos papéis sociais entre marido e esposa.
Pai sempre se mostrou ser um homem de paz (um pouco aquela inconsciente paz do
marido no comando, ou da mulher como dependente econômica), mas nas quatro linhas de
convivência da casa e do quintal, mãe, ao seu modo, sempre quebrou a possibilidade de que
ela viesse a se tornar uma figura muda, obediente e decorativa na convivência entre os dois.
E é exatamente neste ponto em ebulição que alguns objetos entravam em cena (risos). Hoje
a gente brinca que dona Laura se manifestava, de modo a ser ouvida, através de alguns objetos
que voavam pelas aberturas de portas e janelas. Cada lembrança é um ribombar de
gargalhadas entre nós irmãos e irmãs: a percussão da alma de mãe que residia no corpo por
onde corria o sangue ibérico de sobrenome Souza.
Nosso pai, na vida do casal, sempre pareceu ser o mais afeito às orações de profissão
de fé no catolicismo – não que isso fizesse de nossa mãe uma mulher de menos fé. Ouso dizer
que pai era mais oração; mãe era mais ação. Que cada um de nós faça a sua leitura, num
exercício livre; creio que com saldo positivo de afetos. Mas, voltando aos objetos voadores,
mãe nunca se privou de tê-los sempre ao alcance das mãos. A gente não pode dizer que nosso
pai sufocava a opinião de nossa mãe; ele apenas tinha o péssimo hábito de não ouvi-la.
Dependendo do assunto ela deixava barato, ao estilo “tá bom, esqueça”. Diferentemente das
vezes em que pelo calor surgido por razão de um tema mais espinhoso, nossa mãe se impunha
para mostrar que quem reza às vezes também irrita, então o crepúsculo de alguns dias era
povoado por alguns objetos que voavam sem asas: panela, xícara, talher, saboneteira – jamais
na direção do corpo de seu contendor, no caso, nosso pai. O gesto explícito para demarcar a
condição da mulher que pensa, e por isso existe. Interessante lembrar que nenhum desses
objetos, em sua trajetória de voo livre, tenha atingido a nenhum de nós, ou qualquer passante
desavisado próximo da área de discussão.
Como “livre pensar é só pensar” (já nos ensinava Millôr Fernandes), não é de todo
absurdo imaginar que os objetos voadores pelas mãos de nossa mãe me deem asas para
deduzir, neste ano de 2021, de um jeito figurativo e afetuoso, que rebelar-se será sempre um
gesto de impacto, para o bem ou para o mal. Em analogia, fazer tremer a apatia como veículo
alegórico de corpos em ação, neste caso e neste momento em que os mortos nos cercam por
todos os lados, pra lá de quatrocentos mil. Não podemos nos resignar com a paz dos
cemitérios – pois que toda intenção em memória dos mortos se faça presente em forma de
vida. Uma primeira atitude coletiva tem sido a de estar perto das pessoas de nosso mais
estreito círculo de convivência, formando um abrigo de cuidados recíprocos. Nossa conversa
e convivência têm sido, portanto, nossa sobrevivência.
Num tempo e num contexto em que as palavras soam próximo de um amontoado de
informações, o que mais assusta é a banalização da morte, o que resulta em dois grupos de
mortos: os mortos que se foram, e os mortos que ficamos. Já contamos mortos por todo lado.
Há morte na esquina, no quintal de casa, nos arranha-céus, no interior, no exterior, dentro e
fora dos hospitais. Nós somos já o cheiro da morte. Milhares de pessoas das classes mais
vulneráveis caem aos montes. Para não perder o fôlego, a morte pelo vírus mostra e dissemina
seu alcance letal impondo sua capilaridade social e etária de forma indiscriminada.
Se na relação do quintal, a paz prevalece por razões de afinidades e amor fraternal,
nas dimensões de um país, as dificuldades são de ordem imensurável. O preço da paz, ou da
possível harmonia, torna-se sempre incalculável: vida e morte se colocam em constante queda
de braço.
Estamos tomados por uma apatia – a naturalização da morte pela incapacidade de agir
ou de sentir, como que acometidos por um sono do qual não queremos ser despertados. Logo
percebemos que o sono não é sono, e sim algo parecido com uma catalepsia – uma espécie de
rigidez que nos deixa impotentes e imobilizados.
Quase que por não achar um lugar da fala, temos percebido que o cuidado tem sido
nossa mais saudável barricada. A munição do vírus continuará substancialmente invisível e
infinitamente mais poderosa que nossas simples proteções. Mas por ora são as proteções de
que dispomos, e são com elas que nos preservamos vivos, para não nos tornarmos, caso
agirmos de outra forma, os possíveis mortos do dia de amanhã.
Ao modo de mãe e seus objetos de protesto, juntamos forças em perscrutar os minutos
em ciranda por onde voam outras maneiras de ações: a urgência em matar a fome que atinge
milhões de pessoas; a decência judicial e política de denunciar o projeto necropolítico em
curso; a clemência e o afeto de cada qual em manter vivos na memória aqueles e aquelas que
se foram. Cada qual de nós cabe em algum momento dessas caudalosas ações, inclusive
naquela em que somos convocados/as, a cada quatro anos, e na qual usamos nossas digitais
e nossas referências da vida para escolher o modelo de sociedade em que queremos viver.

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