URGÊNCIA DE INSURREIÇÕES.

Adalberto Fávero (Beto) – 07/04/2021

“Quem vive pela metade ganha um duplo medo da vida”

                                                                              (Mia Couto)

                                               “Em algum lugar de alguma selva, alguém comentou: como

                                               os civilizados são esquisitos. Todos têm relógio e ninguém

                                               tem tempo.”

(Eduardo Galeano)

“Winston Churchill havia avisado:

            – É alarmante e nauseabundo ver esse senhor chamado Gandhi, esse maligno e fanático subversivo… A verdade é que cedo ou tarde teremos que enfrentá-lo, enfrentarmos ele e todos que o apoiam e finalmente esmagá-los. Não serve para nada tentar acalmar o tigre dando a ele comida de gato. E não temos a menor intenção de abandonar a mais brilhante e preciosa pérola de nossa coroa, glória e poder do Império Britânico.        Mas alguns anos depois, a pérola abandonou a coroa. No dia de hoje (15/08) de 1947, a Índia conquistou sua independência;

            O duro caminho rumo à liberdade tinha-se aberto em 1930, quando Mahatma Gandhi, esquálido, quase nu, chegou a uma praia do oceano Índico.

            Era a marcha do sal. Eram poucos, pouquinhos, quando a marcha partiu, mas uma multidão chegou ao destino. E cada um pegou um punhado de sal e levou à boca, e assim cada um deles violou a lei britânica, que proibia que os hindus comessem o sal de seu próprio país. ” (Eduardo Galeano, em “Os Filhos dos Dias,p.261)

            Creio que o atual momento histórico seja sombrio e cinzento, mas esperanceiro. As nuvens tendem a ocultar as riquezas e luzes em tempos assim. Por isso mesmo tenho tentado contribuir com a análise ou com o pensar este contexto macabro, com seu projeto de morte que atinge milhares e vai se aproximando de meio milhão de mortos; com suas cores escuras e carregadas do empobrecimento de milhões de brasileiros; com a efetiva desilusão da luta política sem impacto e submissa às regras do mercado; com as análises rasteiras dos economistas e com a visão opaca dos donos dos bancos, empresas e escolas; com a sede de dinheiro e esbanjo dos políticos, juízes e procuradores; com a loucura dos salários milionários de 1% dos atletas enquanto a imensa maioria vive de miséria; com as corporações dominando o mundo e controlando as riquezas; com o planeta aniquilado e o seu comprometimento para as gerações futuras; com os sepultamentos de tantos sonhos e esperanças. Há que se ver e denunciar a desumanidade do mundo!

            A decomposição política e institucional no Brasil é, hoje, realidade irrefutável. E isso parece interessar e alegrar esses senhores que discursam impropérios contra toda forma de diversidade e se acham sábios ao verbejar ignorância que envergonha o país e fazem os pobres ficarem mais pobres. A luta pelo poder passa pelo fim da democracia de mercado (que tem dono); pelos interesses da política midiática, pela política do escândalo, pelo fomentar mitos insalubres e pela morte da autonomia crítica dos cidadãos. É um tempo repleto de cristãos, apoiando e comprando armas para defender a paz!

            Manuel Castells observou com assertividade que “com a globalização os trabalhadores são alijados pela mudança tecnológica e desregulação das leis de proteção ao trabalhador. Há uma desigualdade evidente entre os valorizados e desvalorizados, os “úteis” e não úteis nas redes globais do capital, da produção e do consumo. ”

            O Estado de exceção permanente ora instalado (com suas milícias armadas e seus defensores da moral e bons costumes), vai se consolidando pelo discurso de combate ao terrorismo, à corrupção, à violência e ao comunismo. E o faz com ódio e esfacelamento das relações e reciprocidade entre as pessoas. Quem o realiza são os autoproclamados homens de bem, costumeiramente brancos e bem alimentados. Costumeiramente insanos e cheios de argumentos viscerais!

            O colapso do estado e das instituições, além de evidente judicialização etérea da vida e relações do cidadão, faz voltar à ideia de nação, de raça, da família patriarcal, ao líder fundamentalista, ao discurso rancoroso e contra o diverso, contra o diferente. Nesse caminho, todas as alternativas, por mais absurdas que pareçam, são possíveis. Inclusive milhares de mortes diárias, justificadas e apoiadas por inconsequentes assassinos da vida e da esperança!

            Não posso deixar de pensar esse contexto com desassossego e certa impotência. Como historiador e leitor insaciável da realidade, penso que a história da América Latina traz em seu ventre esse estupro de vida, de imposições e dilapidação de sonhos.

 “Em 1492, os nativos descobriram que eram índios; descobriram que viviam na América; descobriram que estavam nus; descobriram que deviam obediência a um rei e uma rainha de outro mundo e a um deus de outro céu e que esse deus havia inventado a culpa e o vestido e que havia mandado que fosse queimado vivo quem adorasse o Sol e a Lua e a Terra e a Chuva que molha essa terra.” (Eduardo Galeano)

            Foi imposto a esta terra uma história que obriga a reviver toda hora essa necessidade de obediência e subserviência às suas elites de costas ao continente e voltadas para o mar. Por isso não há esperança no atual modelo de democracia representativa e de mercado, em seus políticos, economistas e “organizações representativas”, pois se transformaram em assassinos de gente. Seria a hora do caos para que surja algo novo? Quantos terão que morrer para que isso seja verdadeiro?

            O momento presente tem criado um imaginário de separação e guerra entre irmãos que parece não ter fim. Parece ser um caminho sem volta e talvez seja alienação pensar que o país terá a “cordialidade” de antes. Mas continuará impossível ser cristão amando a justiça e não os inimigos?

            Talvez seja por essa razão que vivamos a morte como um sol poente, sabendo que não há mais dia. Porque quando morre alguém amado, ele nunca para de morrer. Essa dor é a que sentimos vendo um país sofrer a morte em seus cidadãos, privados da possibilidade de viver com dignidade e que veem seus filhos perecer esquálidos diante da abundância de outrem. Torna-se difícil perceber que em todo lugar exista uma porta ou uma janela para subverter essa dominação e submissão que matam.

            Há pessoas exaustas de tanto abandono. Parece que empalharam o horizonte. Talvez seja por isso que muitos de nossos corpos e de nossos olhos falem tristezas e alegrias que as palavras não comportam, desconhecem e calam. Somos como uma casa e precisamos ser vistos por dentro, porque a vida é como um carro cujo para-brisa é opaco. Só há os retrovisores para orientar. Não para olhar e ficar no passado e sim para que a história oriente, não determine.

            É triste passar a vida se calando. Importa perguntar, sempre, boas perguntas.

            Será que durante a morte se sonha? Será que vivemos apenas nas costas dos olhos? Será que somos feitos de açúcar a não amargar ninguém? Será que estamos em guerra a nada desculpar? Será que existe alguma beleza em dizer se não existe o outro? Será a vida tão magra quanto quem não tem o que comer? Será que o céu e o inferno são mais que invenções desse mundo? Será tão difícil desentristecer-se e abrir janelas para o outro? Não será hora de desligar a televisão e ligar a rua?  Será que o que chamam de crise não é roubo? Será que o que falta não é o dinheiro e sim que o que sobra não são os ladrões da nação? Será que se não nos deixam sonhar teremos que não deixá-los dormir? Há quanto tempo nos adiamos como irmãos? Será que já nos apagaram a língua dos sonhos? Será que vamos demorar em cantar juntos como num grande abraço? Será que os loucos estão dispensados de temer os deuses? Será que nem meio milhão de mortos irão nos chocar e nos fazer insurgir contra este projeto que aniquila a vida?

            O problema é que em tempos sombrios, costumeiramente, chamam-se os bárbaros para proteção. Torna-se difícil ser ponte entre raças, ideologias, tradições e somente assim seria possível acabar com o ódio espalhado pelo país e ajudar a diminuir o destilar de insensibilidades que atormenta a tantos e aniquila milhões na carência absoluta.

            Os amos atuais, os senhores do dinheiro e do poder, agora se apoderam de nossas palavras, do ar que respiramos, da água da nossa e das futuras gerações, do nosso futuro, e vão roubando as chaves de nossas vidas. Sofrem mais os mais pobres, pois na guerra são os primeiros a serem mortos e na paz os primeiros a morrerem.

            Há quem ache que esses tempos cinzentos exigem que alguém os salve da solidão; que são tempos de intolerância, onde não é possível assoviar, sorrir, cantar ou dar opinião sem licença ou rótulo. Fico olhando para minha casa com grades, alarme, cuidador de rua e penso que fui inoculado por esse medo de falar, de andar livre, de ser assaltado e violentado há mais tempo. O veneno da desconfiança e do medo já fez valer mais o policial que o professor, mais o segurança do que o vizinho. Isso aconteceu quando começamos a trocar os direitos pela segurança e a luta pela reclusão em nossas casas ou abandono das redes de protesto sob a desculpa da vigilância e das teorias de conspiração.

            “O medo seca a boca, molha as mãos e mutila. O medo de saber nos condena à ignorância; o medo de fazer nos reduz à impotência. A ditadura militar, medo de escutar. Medo de dizer, nos converteu em surdos e mudos. Agora a democracia, que tem medo de recordar, nos adoece de amnésia; mas não se necessita ser Sigmund Freud para saber que não existe tapete que possa ocultar a sujeira da memória.” (Eduardo Galeano)

            O processo de hominização foi e é um movimento permanente para encontrar o homem. O que se vê, hoje, é uma degenerescência da civilização e da humanização. É a barbárie, porque a desumanização é galopante e a paz proclamada pelas elites é a paz do cemitério. A insurreição é necessária e urgente!

            Nesses tempos sombrios, o juiz e o promotor combinam o julgamento, a condenação e a pena; o executivo despreocupa-se com o cidadão e a nação em prol de interesses de seu clã; os congressistas legislam em causa própria; as corporações controlam as riquezas produzidas em benefício de um sistema de autoprivilégio… Foi-se para longe qualquer segurança legal e esperança para os homens comuns. E isso é sério, porém nossas casas estão cheias de parentes e amigos que apoiam essa dor lancinante que condena cidadãos à morte física, morte das liberdades individuais e coletivas e condena à miséria de alimentos e esperança. Não dá para pensar em reciprocidade quando tantos próximos são insensíveis ao país e aos irmãos que morrem sem poder viver com dignidade.

É tempo de fazer inimigos em nome da paz e da justiça? É tempo de insurreição pela vida? É tempo de romper com os amores familiares há décadas condenados? É tempo de desfazer relações com amigos que garantem apoio a este projeto de morte? É tempo de romper com esperanças (ultra)passadas? É tempo de des-sonhar antigos sonhos? É tempo de desfazer o jeito de viver que condena outros à morte? Em tempo: este é o tempo que exige rupturas por um novo tempo, não acha?

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