MANIFESTO PELO DIREITO/DEVER DE SONHAR

Leia e veja o debate: 23/03 – 19:00 (mais informações nas páginas da Revista nas redes sociais)

LINK DO DEBATE: https://drive.google.com/drive/folders/1uKBOR2YHhkhL1yMmc5WHjMWCkZmOJE0o?usp=sharing

Adalberto Fávero (Beto/ 01/2021)

Ensaio V

Uma Nova Utopia Parece Ser Necessária

“Na democracia de mercado plena, a barbárie está sempre e em toda parte à espreita.” (Robert Kurz)

“Sabemos que a fome é mortal, e se sabemos disso, tem sentido perder tempo discutindo se a alma é imortal?” (Camilo Torres)

                        Introdução

Vim realizando uma análise de várias situações e contextos (a partir do final de 2019) nos quatro Ensaios anteriores. No primeiro ensaio foquei na questão macro deste momento de gradual e profunda instalação do neocapitalismo e seu jeito de ser e de viver; no segundo analisei o indivíduo como um empreendedor ou empresário de si mesmo; no terceiro refleti sobre a educação e a escola neste cenário; no quarto ensaio busquei situar a governança e o gestor como instrumentos ou personagens chaves no tabuleiro da tessitura dos tempos cinzentos em que nos vemos mergulhados.

Neste novo ensaio pretendo arriscar situar características ou males estruturais da democracia representativa de mercado e pontuar elementos de uma “nova” utopia. Penso ser necessária uma mobilização em ressignificações, prioridades, mudanças, permanências e simultaneidades para redesenhar horizontes que nos impulsionem ou mobilizam para/na gestação de um novo tempo.

A barbárie instalada e a superficialidade das análises correntes, a pandemia do covid-19 e o isolamento social, a incapacidade de mobilizações e uma democracia com dono definido não só tem gerado ódios e matado as reciprocidades, tem causado genocídio físico, cultural e social crescente e o aniquilamento dos silenciados, vulneráveis e sem nome.  Isto não é acaso e nem pretende ser passageiro. É projeto e aniquilamento premeditado. É fruto da democracia de mercado, como o foram os diversos fascismos e ditaduras ocidentais, ainda que com roupagens modernas e sofisticadas.

O presente artigo organiza-se em 2 momentos distintos. Primeiro retoma e aprofunda elementos do atual contexto e das mazelas da democracia de mercado e em segundo momento arrisca elementos de uma utopia necessária e intransferível, capaz de gerar novos ciclos civilizatórios e humanitários, capazes de gerar igualdade na diversidade.

                        A Barbárie da Democracia de Mercado

“Com a erosão da democracia, a capacidade de representação do interesse geral se vê apropriada pelos próprios grupos corporativos. Em nome de reduzir o estado, geram uma máquina cada vez mais invasiva e controladora.” (Ladislau Dawbor)                   

Nesta reflexão/análise quevenho desenvolvendo a partir do primeiro Ensaio em fins de 2019 e no decorrer de 2020, foi possível: apontar para características de um contexto marcado pela instalação de uma prática ultraliberal com estilo específico e predatório de governança; a implantação de uma visão de indivíduo empresário de si mesmo, por isso protagonista empreendedor e egoísta; a sujeição das universidades e escolas de ensino básico a um discurso de mercado, transformando-se em “ensinadoras” do empreendedorismo como maneira de competir no mercado e/ou sinal de modernização (neste novo ideal relegou a discussão de contexto com verdadeira praga de exorcismo e se fixou quase que exclusivamente nos levantamentos de cenários); a constituição de um imaginário de governança generalizado que tem no gestor o personagem que encarna a visão da nova empresa e novo ideal de prosperidade. Este conjunto de características atingem, mais do que nunca e com intencionalidade assassina, todos os setores da sociedade no seu modo de ser, viver, se relacionar e se odiar.

É dentro deste contexto que faço, agora, um panorama do momento atual com destaque para alguns elementos que me parecem estratégicos, tanto para a supremacia de direita atual nas democracias de mercado (com as características atuais e específicas de acesso, exploração, domínio, acúmulo de riquezas improdutivas e exclusão), como para tentar extrair possibilidades de um novo discurso em direção ao coletivo diverso↔igualitário e a gestação de uma utopia que traga alento e empurre para a superação da impotência e desânimo que nos acossa.

O “novo” Estado neoliberal não está (se é que um dia esteve, pois funcionou prioritariamente como guarda noturno dos grupos dominantes, na análise de autores e pesquisadores diversos) a serviço do cidadão e sim das corporações e dos donos da democracia de mercado. Há um Estado, mas não mais “cuidador” da causa pública ou das necessidades coletivas, pois ainda que nunca o tenha sido de fato, ocupou no decorrer da história, ao menos, um lugar intermediário oferecendo alguma segurança ao cidadão comum. Não importa a este “novo” tipo de estado ter a posse de nenhuma empresa, ainda que estratégica, pois as empresas/corporações passaram a determinar a sua ação e dirigir diretamente sua estratégia de intervenção e modo de agir. O público garantido pelo Estado é apenas uma exceção, pois o mercado continua sendo a regra determinante e soberana. A “novidade”, portanto, é o seu controle pelas corporações e sua decorrente organização como empresa.

Se a história nos mostra como o cercamento das terras e o direito de posse privada foi passo efetivo no enriquecimento de alguns em detrimento da maioria (sempre em nome do progresso, da ordem e da liberdade individual), acontece na atualidade outro cercamento que marca a espoliação e a exclusão das maiorias: o controle do conhecimento através das patentes e dos genes humanos na manipulação da vida; o roubo de espécies da flora e fauna de países periféricos; a hipoteca do futuro desta e das próximas gerações, etc. Hoje paga-se pelo acesso e esta nova economia já domina e gera a maior parte do lucro e da acumulação de capital.

Este processo de controle econômico, político, social e cultural veio sendo tecido a partir da década de 50 (século XX) e se constitui definitivamente nos anos noventa e no início século XXI. As grandes empresas que organizavam suas representações de interesses nos diversos países do ocidente (para ficar neste recorte) transitam da estrutura de multinacionais para transnacionais e corporações alheias aos interesses locais e às necessidades do indivíduo comum.  Não precisam mais fazer lobby de seus interesses, pois passam a estar no controle dos governos e dos interesses majoritários do mercado.

Hoje os governos aliados ou controlados pelas corporações decidem sem precisar de voto ou do cidadão. O desajuste no nosso modo democrático é sistêmico, portanto. O modelo atual está a serviço do enriquecimento e gerar escassez e eliminar os improdutivos faz parte do jogo. As pessoas e o planeta estão às minguas, mas isto é detalhe. É ilegítimo? Sim, mas se sustenta exatamente nesta ilegitimidade. O negacionismo faz parte deste projeto, não é acaso e nem falta de ideias, ainda que pareça grotesco, atemporal e mal educado. É projeto. Deixar morrer e matar é projeto.

As esquerdas democráticas (com as devidas vênias às experiências de enfrentamento direto nos séculos passados e que, por esta razão, quase sempre não eram tidas como democráticas no discurso oficial) fizeram parte deste movimento na medida que passaram a criticar apenas a mercantilização do mundo e aceitaram jogar o jogo do mercado, aparelhando-se para assumir o poder ou para conquista de alguns direitos. É fato que ajudaram a criar uma espécie mais civilizada de capitalismo de mercado ou contribuíram na ideia de Estado de Bem-Estar, porém, mantiveram a estrutura e a organização que gestou o atual estado de coisas e a superexploração que mata milhões sem qualquer dor de consciência.

O operariado, hoje, industrial, não passa de 5% da população ativa. Sua força de mobilização e seus sindicatos acabam perdendo a relevância ou a capacidade de mobilizações coletivas num mundo dominado pelas corporações. Os pequenos burgueses (donos de alguns meios de produção) também estão fora da máquina decisória e a luta de classes mudou de lugar, ainda que a esquerda não tenha percebido. Hoje os tecnocratas fazem a máquina funcionar e 1% supraricos e improdutivos determinam os processos e tomam as decisões, sem precisar de voto. O mundo das corporações já não é regido pela concorrência de mercado ou pelo político, por isso sua truculência não tem freio ou limite e pode ir direto à maximização dos lucros, com o efeito não colateral do empobrecimento e morte das maiorias. Nesta estrutura as pessoas são numerários e instrumentos, não mais sujeitos.

O que se chamou de Estado de Bem Estar Social não deixou de ser uma tentativa de preservar a propriedade particular e se garantir alguma solidariedade aos que nada têm e controlar a reação operária. A solidariedade do Estado era apenas certa proteção aos assalariados frente aos ricos (vide Kurz e Dawbor).

É neste contexto que a pobreza que atinge as maiorias é pobreza física (ausência de posse) e é pobreza humana (ausência de lugar, de nome, de coletividade de referência). Há cada vez mais gente envergonhando-se de ser pobre, quando quem tinha que sentir vergonha são aqueles que criam a pobreza. Assim, os deserdados de esperança acabam sacramentando o domínio e a barbárie imposta pela minoria opulenta.

Em 2018, o endividamento das famílias brasileiras chega a 3,1 trilhões, quase metade do PIB. Os juros da dívida pública e das famílias chegam a 15% do PIB. Enquanto isto os bancos apresentam balanços de 30% de lucro ano e 50% dos impostos incidem sobre o consumo (indireto), o que aumenta a desigualdade, pois penalizam os mais pobres.

No mundo, 26 famílias têm mais patrimônio que a metade mais pobre (3,7 bilhões). No Brasil, 6 pessoas dispõem de mais riqueza que os 99% restantes. Tudo isto num sistema de acumulação improdutiva (financeira).

Este tipo de “pessoas” e corporações dominam o processo decisório e as estratégias de executivo, do legislativo e judiciário. Não há que se esperar que saia daqui milagres de igualdade e esperança para a população. A classe média, em grande parte, defende o acesso às migalhas em nome do sossego individual e a sacramentar o imaginário de que “quem trabalha, vive feliz, sereno e são” (Rui Barbosa em “Loa ao Trabalho”).

A cretinice coletiva aumenta quando há um grupo grande de pessoas dispostas a acreditar na mesma bobagem. Passa-se a agir de acordo com o desejo e os fatos não se impõem, como é a situação de momento no país frente aos disparates ditos e operacionalizados e/ou o genocídio no enfrentamento da Pandemia ao Covid-19. Não ter vacina ou fazer o circo com alguns vacinados esconde um projeto de gestão governamental para a morte.

A democracia tem dono! Porém, a barbárie sempre encontra boas razões racionais. Inclusive se enrolar na bandeira nacional e se autoenganar. Nos anos 60 foram as famílias com Deus pela propriedade e a democracia, agora a bandeira… Os argumentos da direita são viscerais, vão direto ao fígado do sujeito. Convencer sobre a igualdade e direitos torna-se muito difícil. O ódio impera em nome da ética, ainda que nem Deus saiba disso. A ética pode ser muito elástica!

A barbárie atual é filha da democracia de mercado e os genocídios diversos são partes de sua história e suas maquinações. Os impulsos civilizatórios na defesa da igualdade e da vida na diversidade são cada vez mais difíceis, senão inexistentes. O novo radicalismo de direita é expressão desta barbárie e a atomização do sujeito, agora empresário de si mesmo, a expressão desta infecção estrutural de sua alma.

Creio, por estas e outras tantas razões que poderiam ser elencadas aqui ou por você corajoso leitor, que a barbárie atual e o surgimento da direita radical são frutos da democracia de mercado e faz parte de seu projeto. Refletem a crise efetiva deste tipo de democracia. Mulheres, aposentados, crianças, desempregados e outros não rentáveis são desimportantes para a economia e democracia de mercado. Não se trata de um vírus mortal ou um tumor estranho, a democracia de mercado é seu útero (Kurz, 2020). Não há esperança, neste contexto, de um novo processo civilizatório. O sonho da democracia de mercado é nosso pesadelo!

Este estado de coisas revela que a democracia de mercado acaba sendo o mais moderno tipo de ditadura com suas formas sociais e culturais de coesão. Não adianta isolar a democracia da economia com argumentos iluministas ou afins, pois ela não existe neste estado ideal, embora alimente progressistas decadentes e partes do establishment.

A estes traços de contexto, acrescente-se a vigilância e controle sem precedentes estabelecidos na atualidade sobre a nossa comunicação, ideologia, compras e vendas e liberdade de ir vir. Google, Amazon, Apple, Facebook e Microsoft controlam as informações. O Google sabe o que cada um busca; o Facebook o que cada um compartilha e onde está (basta estar com o celular ligado); a Amazon o que cada um compra.  Basta fazer o login à internet e o controle se dá através do IP de seu computador ou afim. Em nome de controlar a espionagem, os governos espionam e restringem as liberdades individuais. Mais um sintoma de uma democracia doente (Dawbor, 2020, “Sociedade Vigiada; outra opção que ajuda a entender a vigilância e o controle, pode ser “O Dilema das Redes”).

Enfim, não se pode pensar em qualquer tipo de insurreição sem conhecer este contexto e/ou utilizando os mesmo instrumentos e estratégias anteriores. Há que se engendrar alternativas e tentar novos caminhos, incluindo um novo jeito de viver, de fazer política e de pensar a democracia.

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            De Uma nova Utopia – sem receita

                                               “No início, eu queria um instante, A Flor.

                                  Depois, nem a eternidade me bastava. Eu desejava a vertigem do

Incêndio partilhado, O Fruto.

Agora, quero apenas o que havia antes de haver a vida, A Semente.”

                                (Mia Couto)

 “No topo das altas montanhas vejo conchas, que me dizem que antigos lugares de baixa altitude se elevaram para os céus e moram agora nos mais elevados picos. Essas conchas dizem-me também que materiais vivos de animais se converteram nas mais duras e inertes rochas,”, diz o poeta Zhu XI, citado por Mia couto. O Poeta fala da fossilização da natureza, da vida e das relações de poder e parece ser este o caso das bolhas ideológicas e/ou de conversas e posições políticas hoje experienciadas nas redes e nas tomadas decisórias do país. A fossilização evidente e não intercomunicante!

Minha mãe costumava repetir o dito popular que de grão em grão a galinha enche o papo, mas parece que nos roubaram a galinha e apenas os pavões merecem sobreviver. Impera o receio dos grãos que alimentam a esperança. Sou de uma geração que lutou contra a ditadura, sonhou com a democracia plena, olhou com admiração para a coragem de Camilo Torres, Che Guevara, Mariátegui, Zapatistas e a igualdade como direito de todos viverem com dignidade e poderem ser felizes. Esta geração é a que vive hoje e precisa ajudar a dar luz à próxima geração, embora tema que a luz do fim do túnel seja o trem.

O momento atual me faz indagar: está no nosso DNA ser Calígula ou Galileu? As bolhas atuais serão rompidas na direção de um tempo da diversidade de iguais? A justiça e a solidariedade sobreviverão a este cataclismo planejado de exploração e mortes? As escolas voltarão a ensinar nossos filhos a serem cidadãos e não mercadores? A educação voltará a ocupar seu lugar etimológico de conduzir para fora, para o/s Outro/s? A política voltará a ser escrita com letras maiúsculas como espaço de gerar a vida? Haverá uma democracia sem dono, se os interesses dos ricos não cabem nas urnas? Tomaremos consciência que os CEOS das empresas não são sinônimos de CÉUS? As pessoas voltarão a se pensar como sujeitos da história ao invés de se sentirem empresários de si mesmos, empreendedores? Será Deus um ateu?

Tenho sempre falado muito de sonhos e da necessidade de sonhar. É que os sonhos falam aquilo que nenhuma palavra pode dizer; não deixam morrer e nem adormecer a esperança; não deixam esmorecer e nem olhar apenas para as desgraças, ainda que as paredes ou projetos de morte impostos ao país pareçam não encontrar mais vozes de resistência.  Importa sonhar acordado e acalentar os sonhos ao adormecer, mas não se pode permitir envelhecer os sonhos ou sonhar sempre em preto e branco as cores do passado.

Na gestação ou ressignificação de utopias, há ideias e práticas que permanecerão, haverá rupturas e necessidades de mudanças e acontecerão simultaneidades nos sonhos e lutas que tivemos até hoje. Este, talvez, seja o momento de buscar clareza em nosso caminho e na tessitura do novo. Para um novo sonhar, faz-se urgente visitar as antigas ou as anteriores utopias, seus avanços e derrotas, seus projetos e sua atualidade ou anacronismos para que a história das mulheres e homens que lutaram e morreram pela crença de que todos merecem ser felizes e viver com dignidade seja professora de nossas inspirações e desafios atuais.

A vida, a solidariedade, a reciprocidade, a felicidade de todos; a defesa daquilo que é comum e inapropriável; o outro como referência; a importância de se estar juntos; a diversidade como espelho de um mundo diferente; a igualdade de gênero como certeza de um mundo bom de ser vivido; a democracia de iguais e sem dono; o local como espaço de tessitura de novo jeito de viver, tendo o global como horizonte de igualdade; o cuidado com o planeta e todas as formas de vida… Estas são ideias motoras que permanecem e convivem com lutas passadas e presentes.

Insista-se, ainda, em outras ou algumas ideias de referência em vista de uma ruptura com o projeto de morte implantado no modelo econômico e de democracia de mercado hoje dominantes: a insurreição contra a democracia representativa e de mercado e seus donos; a constituição da economia solidária entre iguais, mas diversos; a constituição clara do que é comum e inapropriável; a reconceituação da noção de estado ou de uma organização a serviço do coletivo, de cada um e de seus direitos; a reinvenção de estratégias e/ou de formas de organização cooperativa; a ressignificação do sentido de nação e o sentido de cidadãos locais que tecem o mundo…

Esta não parece ser uma obra fácil, pois o sistema atual usa velhos e novos disfarces, esvazia nossa memória e a entope de lixo para que não sejamos capazes de fazer história. Por esta razão é que parece ser necessário reavivar a memória viva, que vem daquilo que já foi e contra o que já foi. Trata-se de reavivar a história humana, sem o que se difunde e se cai na morte do humano; desenhar os sonhos e práticas antigos, pois carregamos o medo, os delírios e a razão na aventura de viver.

É fato que não bastará mais sair nas ruas para mudar as coisas. O grito das ruas não tem eco nas corporações e no estado a seu serviço, pois as corporações não precisam de voto. Por sinal conseguem a aprovação de sua representação nas urnas, usando os robôs, o dinheiro e as informações colhidas que definem o perfil dos grupos de interesse e de posturas ideológicas específicas. Trump e Bolsonaro, por exemplo, elegeram-se assim e as próximas eleições serão marcadas por esta prática. As ruas podem, talvez, ajudar a furar as bolhas das redes sociais e do pensar igual, minar o discurso único. Fazer ouvir outras vozes, mas não gerarão mais as mudanças antigas, embora possam transformar o seu eco em grito de dor, de esperança e de um outro jeito de viver a reciprocidade. Há que se criar outras formas de ação e mobilização e não há receita pronta para isto.

Por esta razão, também, importa se insurgir contra a democracia de mercado e suas formas de representação, na direção da democracia social e direta. Sindicatos, ONGs ou partidos de esquerda ou centro esquerda (algo um pouco estranho e indeterminado, não?) que insistem neste caminho e dentro do atual establishment não estão nesta direção e não nos representam, ainda que sejam importantes na garantia do mínimo de direitos adquiridos no processo civilizatório. Neste sentido são importantes as disputas internas pelo bem-estar pessoal e coletivo. Este é o momento das barricadas que abrem caminhos.

Um passo estratégico pode será definirmos o que é comum e inapropriável como premissa para um tempo e uma vida de e como iguais. Algumas questões são claras nesta direção e outras nem tanto. Água, ar, direito à vida digna, solidariedade permanente, reciprocidades coletivas, o outro como referência, consciência planetária…São elementos (alguns dirão valores) de nossas utopias pessoais e coletivas e permanências necessárias e indispensáveis. No entanto, há mudanças na estrutura de sobrevivência e nas relações que implicam em rupturas que afetam nossa insurgência.

O trabalho home office, por exemplo, parece ser um modo aceito por muitos e roteiro do século XXI. Se por um lado facilita a vida frente a não mobilidade e nos contatos rápidos a partir de nossas casas, por outro lado separam fisicamente as pessoas, podem estender as horas de atividades diárias, obrigam o trabalhador a oferecer meios de trabalho de posse e custo pessoal/familiar e afetam diretamente a mobilização coletiva frente ao domínio das corporações e poderes do estado. Afetam o direito ao trabalho, à organização e à segurança do trabalhador. Este é um comum vital de garantias, condições e possibilidades a ser evidenciado como inegociável como propriedade de outrem.

O comum e inapropriável precisa se tornar princípio político, sem confundir com público ou estatal, pois o estado é mais império que serviço e tem seus donos com sua cultura e poder político e jurídico.

Note-se que ao falar naquilo que é comum e inapropriável, rompe-se com o sentido de público e privado tradicional, pois o chamado bem público foi apropriado pelas corporações e estado contra o interesse comum e coletivo e seu uso passou a ser definitivamente dentro dos interesses instalados no projeto oficial de poder e domínio. Os três poderes (executivo, legislativo e judiciário), originariamente apresentados como garantias de equilíbrio e defesa do cidadão, agem em defesa de interesses mútuos, se protegem e se garantem como representantes dos direitos da minoria ou do próprio bem estar. O sentido de defesa das instituições, corriqueiramente lembrado como alternativa da manutenção da democracia, transformou-se em sinônimo da defesa dos privilégios dos donos da democracia de mercado. Quando se fala em utilidade pública não se trata mais do coletivo e sim do que é útil e isto tem dono. Este caminho não nos dá esperança!

O comum e inapropriável precisa ser um substantivo e um princípio que fazem dos homens o que eles são e o são no coletivo e não apenas na individualidade egoísta do próprio viver bem. Trata-se aqui daquilo que beneficia a todas as pessoas em sua qualidade de vida como atividades fins: educação, saúde, lazer, moradia, cultura, informação, segurança…

Quando o atual grupo no poder, por exemplo, deseja ensinar que não existem mais negros, índios, gays…e sim e apenas brasileiros, nega a diversidade e define o brasileiro como iguais e brancos.  Este posicionamento encontra defesa ferrenha e visceral no neosujeito, empresário de si mesmo, a quem importa o gozo individual e a sua possibilidade de bem estar no governo de si mesmo.

Os demais acabam comendo medo no café da manhã, no almoço e no jantar. Nós do sul do mundo estamos cada vez mais ao sul e vivemos apontando que as pessoas devem encontrar seu norte. É por esta e tantas outras razões que parece ser urgente apontar o que é comum e inapropriável como centro de nossa contestação ao capitalismo predatório e a democracia de mercado. Lembre-se que o capitalista é o pirata que aniquila aquilo que é comum em favor da acumulação, pela privatização do espaço, do tempo, dos bens, da água, dos genes e isto é roubo e pilhagem.

Neste contexto de constituição dos elementos de um novo comum/coletivo, de uma democracia direta e não de mercado, creio que seja essencial a ação local, com olhar global. Em outras palavras: desejamos um mundo de iguais na diversidade e um planeta que seja nossa casa bem cuidada, mas a ação primeira tem que ser local, porque é ali onde podemos objetivamente “fazer algo” e recriar a vida em comum.

Assim, o local onde moramos e com quem convivemos deveria que ser o primeiro espaço de ação e possibilidades. Criar grupos de solidariedade e apoio; cooperativas de troca, “compra e venda” de fazeres e saberes; participação consciente nas necessidades locais com associações e parcerias que geram vida digna e bem-estar; mutirões de saneamento e casas para se morar; análises teóricas e práticas de contexto local e global; exigir e interferir para que a cidade pratique a democracia direta, usando suas regionais (inicialmente) para que todas as pessoas possam decidir seu futuro; exigir e fomentar os planejamentos participativos e zoneamentos para o bem viver de todos e de cada um; apoiar e fomentar o cuidado com a saúde (SUS, por ex.) como direito; fomentar e viabilizar a renda mínima para que todos tenham sobrevivência em direção a vivência em plenitude… Embora sejam ações locais, tais estratégias sofrerão as represálias da oficialidade e dos poderes que de fato governam. Não se fará, portanto, tal movimento sem dor, sem pressão, sem perseguição e sem retaliações físicas, econômicas, sociais e culturais, pois serão vistas como danosas ao capital e ao imaginário dominante. Nunca houve mudanças sem dores e odores de morte.

Lembre-se que a reciprocidade não é dom inato e nem a democracia um dado eterno e absoluto. É por isso que o movimento libertário não pode ser espontaneísta e nem acreditar que o laissez-faire seja a solução. Há que se organizar e tecer o novo caminho.

Caberia às escolas de Ensino Básico a superação da pedagogia das competências de mercado, deixar de criar disciplinas ou cursos para a formação de protagonistas e/ou empreendedores do/no mercado e voltar a formar sujeitos da história coletiva local. Certamente a educação pública seria o espaço privilegiado desta ação, ainda que sob a vara do algoz sobre a cabeça, mas não se exime a educação privada deste compromisso pela especificidade do lugar da formação dos sujeitos, ainda que sob a batuta do mercado a perseguir e monitorar seus passos.

Na mesmo prisma ou perspectiva da Educação Básica, às universidades caberia (em todas as áreas de conhecimento) o lugar de Constituidoras de pesquisa e trabalho de interesse social e a formação de intelectuais orgânicos, capazes de pensar o contexto e o novo para todos os cidadãos.

Às igrejas, importaria que não sejam espaços onde a primeira coisa que as pessoas aprendem seja cair de joelhos e aceitar que tudo seja a vontade de Deus ou de propagarem subserviências ou a prosperidade se forem obedientes; voltarem a ser proféticas, denunciantes e anunciantes de que só seja possível crer em algum Deus que exige o direito à felicidade e à vida, vida em abundância.

Aos sindicatos, associações de bairro, grupos solidários das redes sociais, imprensa alternativa e partidos políticos (organizações intermediárias existentes ou a serem criadas)… seria estratégico repensar sua ação saindo da esfera de busca do controle de poder constituído, reler o mundo e suas mudanças no mundo do trabalho e do controle do capital e do poder para tornar possível ressignificar sua ação, romper as bolhas de análise, convivência ou resistência e insurgir na tessitura de novas relações  e estruturas frente às necessidades e possibilidades que representam. 

O sonho deste texto é contribuir em nova reflexão e esforço que vai surgindo pelo planeta. Há, hoje em dia pelo mundo afora, cidades com experiências locais interessantes de cooperativas, bancos locais que fogem do domínio financeiro corporativo, produção de energia local e barata, troca de alimentos produzidos in loco e outras tantas iniciativas inspiradoras. Há lutas, suores e sangues derramados que são inspiradores de/para um novo tempo que está a vir. Há, também, a sensação de impotência e ausência de luta ou saídas possíveis. Ás vezes, vamos “zumbizando” de um espaço a outro, de uma rede de amigos à outra e há escuridão cinzenta à frente.

Penso que não se possa desanimar. Na verdade não temos direito de desanimar, por nós e nossos filhos, pelo presente e futuro, mas, sobretudo por aqueles que não têm voz, não tem nome e aparecem apenas como numerários de uma história genocida de mortes anunciadas ou premeditadas.

Importa sonhar sempre. Por isso parece importar a retomada do que escrevi em outro texto sobre utopia: há que vir um tempo onde brilhem as gentes dançadeiras, os pássaros musiqueiros, as ruas com flores e bons odores, a paz e a justiça nos cantos de toda a terra, não se fale mais de morte, só de ressurreição e insurreição, não haverá mais gente e sapatos solitários, só em pares, roupas de vestir e desvestir com alegria e desejo; relógios que não marquem mais as horas sofridas, apenas horas alegres; amigos e amantes e não inimigos e ódios deselegantes. E será uma festa de solidariedade e reciprocidades que se revelará como insurreição irrepresável e incontida.

Bibliografia (Sugestões de Leituras)

Castells, M Fim de Milênio. Ed. Paz e Terra, 1999, São Paulo

—————  A Sociedade em Rede. Ed. Paz e Terra, 1999, São Paulo

Dardot, P e Laval, C. A Nova Razão do Mundo, ensaios sobre a sociedade neoliberal. Editora Boi Tempo, 2019, São Paulo

———————–Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Editora Boi Tempo, 2017, São Paulo

———————– A Escola não é uma Empresa. Editora Boi Tempo, 2019, São Paulo

Dreifus, R, A Internacional capitalista. Editora Espaço e Tempo,1986, Rio de Janeiro

___________ Época de Perplexidades Editora Espaço e Tempo,1990, Rio de Janeiro

Dowbor, L. O Capitalismo se Desloca, novas arquiteturas sociais Edições SESC, 2020, São Paulo

—————–Sociedade Vigiada Autonomia Literária, 2020, São Paulo

Galeano, E. Memória do Fogo. L&PM Editores, 2013. Porto Alegre

————- Livro dos Abraços L&PM Editores, 2014, Porto Alegre

————- O Caçador de Histórias. L&PM Editores, 2016, Porto Alegre

Kurz, Robert A Democracia Devora Seus Filhos Consequência Editora, 2020, Rio De Janeiro RJ

—————— A Crise do Valor da Troca. Consequência Editora, 2017, Rio de Janeiro, RJ

—————— Poder Mundial e Dinheiro Mundial, crônicas do capitalismo em declínio. Consequência Editora, 2015, Rio de Janeiro, RJ.

Mariotti, H. As Paixões do Ego. Complexidade, Política e Solidariedade,Ed. Palas Athena, 2002, Cambuci SP

Piketty, T. O Capital, no século XXI. Ed. Intrínseca Ltda, 2014, Rio de Janeiro

Santos, M.S. e Mesquida, P. As Matilhas de Hobbes. Ed. Metodista, 2014, São Paulo

                                    

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