AS MULHERES SOB O CÉU DO BRASIL

Luiz Carlos Heleno

Em especial para Cristina Garerani, ex-gestora da Assistência social (aniversariante do dia 08 de março) e às trabalhadoras do SUAS, do SUS, e da Educação, em Piraquara.

Em 1974, logo após o sepultamento de nossa avó materna, tão logo cruzamos a ponte do Ribeirão da Fartura, em Siqueira Campos, meu tio Nelson atirou uma pedrinha na água e, sem me olhar, arrematou resignado: “acabou-se a avó Sara”. Durante a noite do guardamento, as poucas vezes que vi Nelson, ele estava entre os homens que bebericavam uma cachacinha no quintal e contavam causos e coisas que se contavam naquelas noites de despedidas. Na cena da ponte e da pedra no rio, a voz soou embargada e consternada.

Avó Sara morreu aos 54 anos de um tumor que talvez fosse reversível caso houvesse naquele tempo uma estrutura de acesso universal e gratuita como a do SUS (Sistema Único de Saúde), com seus programas que vão da atenção básica à de alta complexidade. A morte de nossa avó era apenas uma das milhares que entravam nas estatísticas da mortalidade de pessoas sem acesso a quase nada.  Mãe era muito forte, mas carregou por uns dias um olhar de tristeza, e sempre que a gente se aproximava, tratava de se ocupar da montoeira de coisas que havia por fazer. Avó Sara, quando viva, mantinha com as mulheres da vizinhança sempre uma boa relação de trocas que, para nosso deleite, resultavam em receitas de algum bolo ou doce, ou ainda chás que serviam para aliviar e nos curar de algum mal-estar digestivo ou algo parecido. Não seria exagero pensar que talvez ela pudesse, caso vivesse nos dias de hoje, ser uma ótima agente comunitária de saúde.  Cada vez mais a vida no planeta demanda mais esforços da comunidade mundial para defendê-la, e em especial as mulheres têm com a vida uma relação umbilical de proteção, de afeto, e de defesa.

Assim como no SUS, também no SUAS (Sistema Único de Assistência Social), e na Rede de Educação, hoje vige a lógica de “redes de atendimento”, um entrelaçamento de estruturas e ações que permitiu um salto substancial de qualidade na vida das pessoas por todo o país em décadas recentes, em que pese, como ressalvou minha amiga Lara, o índice de financiamento ainda tímido e vez por outra assediado com ameaças de redução. 

Pus-me a imaginar minha avó acessando um CRAS (Centro de Referência de Assistência Social) para manifestar um desassossego ou uma dificuldade material, ou ainda ser procurada pela diretora (ou professora) da escola de um bairro que viesse saber o porquê de tio Nelson não estar mais comparecendo às aulas, ou a projeção mais aguda de uma ambulância que pudesse lhe prestar o socorro, transportando-a para o caminho da cura, ou para o lenitivo que lhe aplacasse a dor física da morte.

Nas três áreas de atendimento presentes nesta crônica, há um predomínio das mulheres tanto na ponta de atendimento como na ponta extrema do grande número de pessoas atendidas. A cobertura deste entrelaçamento é impressionante, e há aí uma transformação silenciosa da vida e na vida das pessoas. Os problemas sempre existirão, mais por conta de questões estruturais e de comando do que de essência: a gente não faz ideia da importância de um olhar mais atento sobre uma criança que possa estar sofrendo violência ou negligência; a gente não alcança os fios tênues presentes num atendimento técnico sigiloso e protetivo que venha estancar uma situação de agressão, na maioria das vezes, contra mulheres; a gente cotidianamente não percebe a atuação das redes que se movimentam conciliando da prevenção básica até as demandas decorrentes de situações gravíssimas. Em sua maioria, só quem se dedica em atender e quem acessa o atendimento, como quem busca um ancoradouro, consegue dimensionar, cada um a seu jeito, as agruras e aflições presentes na vida de muitas pessoas sob o céu do Brasil, por dias e noites seguidas a fio.

Há duas semanas, caminhando em direção à estrada da Igreja de Santa Clara, em Piraquara, passei em frente à Unidade de Saúde James Ribas, e pus atenção de longe no atendimento dedicado das servidoras do “postinho”, orientando pessoas em busca de algum tipo de tratamento, ou alguma informação decorrente do agravamento da pandemia no país. Minha avó, talvez de um jeito diferente, religiosamente diria: “já não basta a carestia, agora essa pandemia!”, mas nunca deixaria de se desdobrar para o bem da comunidade em que estivesse inserida.

A ciência nos mostra que a pandemia passará e outras moléstias surgirão, o movimento na esfera do poder (às vezes conciliador, às vezes perverso) já mostrou que os dignitários da morte também morrem ou caem, a carruagem do tempo revela que as pessoas com empatia pelo/a outro/a um dia também deixarão de existir, mas não haverá um só dia de sol ou de chuva, e não haverá uma só noite de lua, estrelas, ou de breu, sem que milhares e milhares de mulheres, essencialmente e predominantemente, estarão dispostas e prontas para lutar, defender, e proteger a vida enquanto estivermos por aqui.

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