O Alvorecer do Ano 21 do Século 21

Luiz Carlos Heleno*

Cena 1: Numa tarde quente de novembro de 2020 em Curitiba, minha neta Lívia,
com seus três anos de idade, mexia na água de uma piscininha de plástico na varanda,
enquanto conversava com personagens que ganhou de presente, criando ali uma tarde
divertida de piquenique. Quando fez o movimento de mergulho de um de seus
bonequinhos, ele escapou de sua mão e bateu com o corpo na lateral da pequena piscina:
ela perguntou ao bonequinho “você se machucou??!”, no que ela mesma, entoando uma
voz mais grave, respondeu, “não, eu tô bem!”, envolvida que estava no enredo de sua
criação e brincadeira.
Cena 2: Num início de noite quente de dezembro deste mesmo ano, em Duque de
Caxias, na Baixada Fluminense, Emilly Victoria e Rebecca Beatriz, de quatro e sete anos,
respectivamente, riam e conversavam animadamente na frente da casa da avó, brincando
como brincam as crianças quando aguardam um acontecimento importante para elas, a
exemplo daquela tarde em que elas seriam levadas para comprar um lanche combinado
durante o dia. A avó chegaria de ônibus logo mais, e enquanto esperavam, brincavam seus
“escravos de Jó”, entre caretas, risos, e trava-línguas – o saboroso passatempo das
crianças.
Afetos, falas e proteções
Quando sentem que estão amparadas por afeto e proteção (indistintamente da
classe social ou região em que vivem) crianças brincam, crianças são afetivas, crianças
teimam, crianças brigam, crianças fazem birras, crianças criam e vivem intensamente,
crianças também aprendem limites da convivência social com adultos que lhes amam e
exercem sobre elas o legítimo dever da bronca, do diálogo, e da orientação, A idéia de
morte não habita a vida da criança, ainda que ela perceba o perigo próximo ou ao redor.
Brincar é vital e sempre mais importante. Já para nós em idade adulta, a morte bate mais o
ponto do que gostaríamos de fato. Para a idade do corpo e da mente da criança, acordar é
sempre uma proeza. As crianças não flertam com a morte – elas são a vida em sua
plenitude.
Talvez o medo seja o sentimento mais próximo que a criança experimenta da morte
(insegurança, susto, iminência do perigo, um barulho talvez, uma apreensão), mas a
proteção que está por perto se agiganta e será sempre sua fortaleza. Essa seria a lógica
preponderante, não fosse o mundo habitado por uma realidade cheia de perversidades e
desatinos constantes, que interrompem a vida de crianças por toda a extensão do planeta.
Quando me recordo de uma cena da infância, em que Jorginho, um de nossos amiguinhos,
se escondia atrás do balcão do Bar do Oscar para não ser atingido pelos tiros da cena de
um filme de faroeste, é uma alegria: a gente ria e ele se sentia muito feliz de continuar vivo;
mas deparar-se, mais tarde, com adultos desferindo tapas e chutes num menino negro, de
uns dez anos de idade, numa rua isolada em Curitiba, foge à compreensão mais racional,
tornando estilhaços qualquer projeto de humanidade.
Crianças continuam a brincar mesmo no meio do horror: jornais estampam imagens,
em que crianças brincam com cartuchos vazios no meio da guerra; brincam com olhinhos
brilhosos em campos de refugiados; em algum lugar, no meio do nada, aproveitam o
pequeno tempo livre em serviços de carvoarias para brincar de esconde-esconde entre
montanhas de pó e carvão; brincam na carroceria de carrocinhas de coletores de sobras,
que as levam para o trabalho de coleta por não terem com quem deixá-las; brincam com
ossos de animais mortos na adversidade da seca nordestina, imagem eternizada pela
fotografia de Sebastião Salgado aqui publicada. Crianças brincam por perceber a presença
de afeto próximo delas, brincam como se nos mostrassem que seus corpos pulsam
significados e horizontes. Crianças só não brincam quando o mundo, que deveria protegêlas, as agride.
Epílogo Cena 1: Numa outra tarde de novembro em Piraquara, a neta Lívia se
esbaldou de brincar pelo quintal de minha casa. A pequena explorou o espaço, correu,
inventou personagens, deu de comer aos pequenos cães, chamou a mãe Cecília para ver o
bichinho sobre a grama, convocou o pai Mouriel para uma aventura por sob as árvores,
desenhou figuras num papel, conversou, riu, correu, até o sol sumir no poente e, tomada
pelo cansaço, disse tchau a nós todos, e foi levada de volta pra casa, sem sobressaltos,
viajando no sono que foi chegando mansamente antes do dia de amanhã.
Epílogo Cena 2: ainda no início da noite quente de dezembro, em Duque de
Caxias, na Baixada Fluminense, as crianças Emilly e Rebecca também brincaram um pouco
mais, falaram da refeição de dali a pouco, cada uma escolhendo o seu lanche; a avó já
saltava do ônibus e, percebendo algo de estranho nos arredores, ainda ensaiou um gesto
de proteção, mas o tempo e os ditames da violência são brutais, o chão da rua é frio, e os
pequenos corpos delas tombaram para entrar na estatística cruel das crianças atingidas por
balas perdidas – o gatilho sem piedade de uma sociedade que carregará para o ano de
2021 a grande ferida aberta de um mundo que ainda não dá conta de proteger a vida,
principalmente a vida na condição de infância. A vida continuará mortalmente ferida.
Qualquer projeto de civilização será sempre um arremedo enquanto houver
“violências”. A ideia de paraíso para depois desta vida quase nunca me ocorre ou me
preocupa; no caso das crianças que têm suas vidas precocemente roubadas, surpreendome desejando intensamente que o paraíso exista.
*Escritor, compositor, poeta – contemplado recentemente com “premiação por trajetória”, Edital 02/2020. Município de
Piraquara/PR – Secretaria de Esporte, Cultura, e Lazer.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s