“De que lado que eu tô? De que lado cê tá?”

Martinha Vieira
Pergunta o poeta. Indaga a canção. Analisa a ti mesmo e te perguntas com sinceridade: você é o tronco que sangra ou a mão que empunha o machado?

Trago nesse texto a reflexão inspirada na canção “Trovoada”, da banda carioca El Efecto. Escolhi “Trovoada” porque ela faz tremer. Porque anuncia a tempestade. Porque traduz uma força indomável que nasce no caos da revolta extrema, rugido da natureza contra o que não se pode mais suportar.

Pra iniciar a conversa, tomo emprestados alguns versos dessa canção, sobre aquilo que já não se pode mais suportar:

A árvore quando é cortada

Chora e sofre de tal maneira

Pois vê que o machado que sangra o seu tronco

Também é feito de madeira

Pra cada tronco um machado

Bem-vinda revolta cresce

Se quem bate mal se lembra

Quem apanha nunca esquece

Quem tombou pela cor?

Pela cor, quem tombou?

Quem sangrou pela cor?

Pela cor, quem sangrou?

Contundente na abordagem, El Efecto, nessa canção, nos lembra que o abismo da segregação ainda é profundo, evidenciando cada vez mais dois lados: em um deles  os que vivem na carne a tirania da segregação, do racismo, da desigualdade. E no outro, os que cavam mais e mais esse abismo, forjado a golpes de barbárie e de horrores acumulados no tempo e no espaço, pela sede insaciável de domínio do outro, na tortura infame que até hoje se impõe sobre a pele escura. Mas quem assiste a tudo de cima do muro por certo algum lado mira.

E eu? E você? Olhamos o abismo e lavamos as mãos porque achamos que não fomos nós que o cavamos? Apenas olhamos para ele e o consideramos coisa do passado? Mas ele está aqui, também porque continuamos a cavar: a cada omissão ou a cada piadinha racista; cada vez que negamos que existe o racismo achando desnecessárias medidas legais que o reduzam; sempre que achamos natural ou apenas uma fatalidade que a maioria dos empobrecidos e desprovidos de políticas públicas sejam negros e que estejam na sua maioria como serviçais de madames brancas que se importam mais com o passeio do seu cachorro do que com a vida do filho da empregada; quando achamos alguém suspeito pela cor da sua pele; quando assistimos, entre silêncios ou aplausos, às ações policiais que exterminam, na sua maioria negros, moradores das favelas.

Acha que estou exagerando? Que os negros é que alimentam o racismo ao tentar conquistar seus direitos? Acha que não é bem assim? Então, a “Trovoada” (a canção) que trago aqui, mais uma vez te convida, olhe pra dentro de você e se questione:

Quem diz que não, é sim, é sim…

Quem diz e jura que não vê cor, é sinhá, é sinhô

Eu sei que tem cor a mão que sangrou,

Sangrou no tambor de tanto tocar

Tocar pro sinhô, tocar pra sinhá

De que lado que eu tô? De que lado cê tá?

A seguir um pequeno recorte da realidade:

A taxa de homicídios de negros no Brasil saltou de 34 para 37,8 por 100 mil habitantes entre 2008 e 2018, o que representa aumento de 11,5% no período, de acordo com o Atlas da Violência 2020 divulgado nesta quinta-feira (27). (27/08/2020)

Já os assassinatos entre os não negros no mesmo comparativo registraram uma diminuição de 12,9% (de uma taxa de 15,9 para 13,9 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes).

https://g1.globo.com/sp/sao-paulo/noticia/2020/08/27/assassinatos-de-negros-aumentam-115percent-em-dez-anos-e-de-nao-negros-caem-129percent-no-mesmo-periodo-diz-atlas-da-violencia.ghtml

No Brasil, a probabilidade do negro ser vítima de homicídio é oito pontos percentuais maior, mesmo quando se compara indivíduos com escolaridade e características socioeconômicas semelhantes.

Se no Brasil a exposição da população como um todo à possibilidade de morte violenta já é grande, ser negro corresponde a pertencer a um grupo de risco, pois a cada três assassinatos, dois são de negros.

A pesquisa aponta que negros são maiores vítimas de agressão por parte de policiais que brancos. A Pesquisa Nacional de Vitimização mostra que 6,5% dos negros que sofreram uma agressão no ano anterior à coleta dos dados pelo IBGE, em 2010, tiveram como agressores policiais ou seguranças privados (que muitas vezes são policiais trabalhando nos horários de folga), contra 3,7% dos brancos.

Mais de 43 mil negros assassinados

“O brasileiro negro, logo no seu nascimento, já tende a sofrer com acesso precário a serviços e políticas públicas que o levará mais facilmente para o risco de ser assassinado do que um cidadão branco.” (Amanda Pimentel, pesquisadora do Fórum Brasileiro de Segurança Pública)

https://www.atribuna.com.br/opiniao/editorialat/mais-de-43-mil-negros-assassinados-1.116193

De acordo com o Atlas, elaborado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) em parceria com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), homens negros correm um risco 74% maior de serem vítimas de homicídio do que o restante da população. Entre as mulheres negras, esse risco é 64% maior.

Segundo o estudo, essas taxas expressam as desigualdades raciais existentes no Brasil. “As mortes de negros puxam duas vertentes. Primeiro que o negro sofre discriminação no trabalho e na diferença educacional, por exemplo, então é uma trajetória que o torna mais vulnerável à violência. Além disso, tem o racismo que mata. A ideia do negro perigoso culmina muitas vezes no uso da força contra ele”, afirmou o coordenador do Atlas, Daniel Cerqueira.

https://www.dw.com/pt-br/assassinatos-de-negros-sobem-enquanto-demais-caem-em-uma-d%C3%A9cada/a-54720090

Entre janeiro e julho de 2019, só a polícia do Rio matou 1.075 pessoas, 80% delas negras. Total é o dobro das vítimas em todo os EUA no mesmo período.”

https://www.dw.com/pt-br/a-viol%C3%AAncia-policial-contra-negros-como-pol%C3%ADtica-de-estado-no-brasil/a-53729007

Sim, o racismo mata. Por dentro e por fora. No Brasil vivemos uma desigualdade social e um racismo estrutural. Os negros, mesmo livres das correntes da escravidão, continuaram à margem de uma sociedade que nunca abandonou o espírito escravocrata, de uma elite que nega a miscigenação, de instituições que referendam a desigualdade social e racial. Fica de herança a privação a uma população de relegados de um sistema que obstrui oportunidades aos que foram arrancados de sua terra, escravizados, torturados e que, mesmo depois de soltas as amarras da escravidão, passaram a compor as camadas miseráveis ignoradas nas suas necessidades, mão de obra barata, açoite disfarçado que continua a colocar no tronco da luta pela sobrevivência os negros e seus descendentes pelo correr dos séculos, até hoje.

Em 1883, o poeta Castro Alves publicava seu livro “Os escravos”, e nele o poema Navio negreiro, sobre os horrores ocorridos nos navios que traficavam africanos arrancados de sua terra, de sua família, de suas crenças, da sua vida, arrastando-os para serem leiloados como escravos por outros continentes. Mesmo decorrido quase um século e meio desses horrores, é possível reconhecer nesses versos o quadro, ainda atual, da miséria brasileira, fratura exposta nas ruas das grandes cidades, nas favelas dos centros urbanos ou entre trabalhadores rurais nos grandes latifúndios do país.

“Negras mulheres, suspendendo às tetas/ Magras crianças, cujas bocas pretas/ Rega o sangue das mães: /…/ A multidão faminta cambaleia,/ E chora e dança ali!/Um de raiva delira, outro enlouquece,/ Outro, que martírios embrutece, /Cantando, geme e ri!/ No entanto o capitão manda a manobra,/ …/ Diz do fumo entre os densos nevoeiros:/ “Vibrai rijo o chicote, marinheiros! Fazei-os mais dançar!…/” E ri-se a orquestra irônica, estridente/ …/ E assim zombando da morte,/ Dança a lúgubre coorte/ Ao som do açoute…”

Naturalizamos tudo isso, institucionalizamos tudo isso. Achamos normal, desde a infância nos desenhos animados, depois no humor, filmes, séries e novelas os pobres e ridicularizados e quase sempre negros, as empregadas negras sob o chicote das patroas brancas, os bandidos e vilões também a maioria de pele escura. A naturalização diária do desejo de ter sua mucama, de matar bandidos, de acumular poder e riqueza por direito e por mérito do berço, de ter nascido branco (miscigenado jamais!). Naturalizamos o desejo próprio no custo da miséria alheia. Naturalizamos a exploração, a crueldade, e de repente estamos aplaudindo o extermínio, projeto que data do início da República, quando estudo previa zerar os negros no Brasil até 2012.

“A previsão foi apresentada no 1º Congresso Mundial das Raças, realizado em Londres no ano de 1911. “No espaço de um século, os mestiços desaparecerão do Brasil, fato que coincidirá com a extinção paralela da raça negra entre nós”, argumentou o antropólogo João Batista Lacerda. O então diretor do Museu Nacional representava o país no evento, a convite do então presidente Hermes da Fonseca (1910-1914), 23 anos após a assinatura da Lei Áurea.

Sua tese pressupunha que a força do “sangue branco” diluiria o “sangue negro”. Sem a chegada de novos africanos, portanto, o embranquecimento em curso como política de Estado levaria ao resultado calculado. O antropólogo levou uma pintura para ilustrar esse processo. “Redenção de Cam”, do espanhol Modesto Brocos, retrata a alegria de uma avó negra pelo neto recém-nascido, de pele clara, no colo da mãe mestiça. Ao lado aparece o pai do bebê, representado como um português.

“Estava sendo gestada uma ideia de nação na qual o ser humano negro é indesejável e descartável”, afirma a historiadora Ynaê dos Santos, especialista em relações étnico-raciais e professora da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Enquanto a mulher negra se inseriu precariamente no mercado de trabalho pelos serviços domésticos, não havia qualquer espaço para os homens. “Eles são mantidos como corpos perigosos. Conforme o racismo científico ganha espaço no século 19, pressupõe a ideia de que eles estavam geneticamente fadados a ações criminosas. A polícia brasileira é formada nesse pressuposto”, afirma a historiadora.

https://www.dw.com/pt-br/a-viol%C3%AAncia-policial-contra-negros-como-pol%C3%ADtica-de-estado-no-brasil/a-53729007

Vivemos um tempo de retrocessos de direitos, de formas de olhar para a história da humanidade, na qual reconhecemos o racismo sendo gestado, institucionalizado e enraizado nas estruturas sociais de um país cuja elite se divide, em sua maioria, entre os que assistem a tudo jurando não ser racistas, mas com os pés fincados no lombo escuro do seu serviçal e aqueles que aplaudem e comemoram os exércitos combatendo as comunidades carentes que nasceram do desprezo pela pele negra; país cuja maioria dos empresários rói a corda quando os possíveis pactos de liberdade e de direitos comprometem seu lucro abusivo, obtido às custas da mão de obra barata daqueles que vêm sendo historicamente relegados das oportunidades desde que nossos antepassados inventaram a escravidão. E o racismo, nós o continuamos disfarçadamente, ou agora de forma escancarada. Enquanto formos espectadores da barbárie é como se aplaudíssemos os seus efeitos. Quando dizemos que cotas não são necessárias, que isso é exagero, no Brasil não tem racismo, a escravidão acabou, que garantir o espaço do negro por lei é referendar o racismo, o que estamos negando ou reforçando com isso? Quando acreditamos que a reação, o protesto e a revolta contra os atos brutais comprometem a paz e a ordem social nos colocamos de que lado?

Em 25 de maio, em Minneapolis (EUA), um policial algemou um negro de 46 anos, George Floyd, pressionando o joelho contra seu pescoço até que ele parasse de respirar. O fato brutal gerou protestos em várias partes do mundo, e no Brasil os atos vem ocorrendo também pela revolta em resposta à crueldade policial contra os negros. Uma das vítimas foi João Pedro, de 14 anos, assassinado em maio (sua casa recebeu 72 tiros de fuzil disparados por policiais). Outro garoto de 14 anos, Marcus Vinícius, morto há dois anos com um tiro durante operação policial no Complexo da Maré, investigação até hoje sem conclusão. Em 2008, no Morro da Providência, no Rio, 3 jovens foram acusados de desacato e detidos por uma tropa do exército, que os entregou a traficantes para serem executados – o tenente responsável pela ação alegou que só queria dar um susto nos meninos e até hoje não foi julgado. Há seis anos, outro adolescente de 14 anos foi detido sob suspeita de furto na região central do Rio, por dois policiais que, segundo revelação da câmera do carro da polícia, decidiram executar o menino com um tiro na cabeça. Os crimes mencionados aqui podem ser verificados em https://g1.globo.com/rj/rio-de-janeiro/noticia/2020/06/11/protestos-contra-a-morte-de-george-floyd-reavivam-drama-de-familias-de-jovens-negros-mortos-no-rj.ghtml

“As mães negras não aguentam mais chorar”. O que sentes ao ler essa frase? Mães tanto quanto eu, tanto quanto você. Elas protestam levando essa frase para as ruas, fundam movimentos, mesmo sabendo que não terão seus filhos novamente nos braços, mas para evitar que as atrocidades continuem a acontecer com os outros filhos de outras mães, elas vão à luta. E você, o que faria?

Lembrando as estatísticas, entre os jovens assassinados há quase três vezes mais negros do que brancos. Todas as mortes representam um problema social, estrutural grave, todas importam e precisam ser evitadas, mas entre suas causas está o racismo, que vem sendo historicamente motor de desigualdades gerando populações pobres, à margem das condições fundamentais de vida, ou seja, a exclusão de oportunidades e de garantias sociais se funda, sobretudo, no racismo. Quase sempre as políticas de reparação, ao tentar repor direitos aos negros, são questionadas por brancos indignados que se sentem injustiçados mesmo que no direito deles ninguém mexa, mas pelo simples fato de achar que ao valorizar o direito do negro segrega-se o branco. Não vejo outro significado para esse tipo de pensamento a não ser o racismo enraizado.

“… Quando falamos que policiais matam jovens negros, esse é um sintoma de uma sociedade que permite isso, que explora esse jogo e que marca crianças, adolescentes e jovens negros com processo segregatório a vida inteira”. … “Quem são os mais ricos e os mais pobres? É uma questão gravíssima e muito ligada ao racismo. Porque pessoas negras têm menos emprego e, quando têm emprego, ganham menos. A mulher negra sofre uma segregação dupla. São questões estruturais”.

(Cristiane de Freitas Cunha Grillo – professora do Departamento de Pediatria e coordenadora dos projetos “Janela da escuta” e “Brota – juventude, educação e cultura” da Faculdade de Medicina da UFMG).

Então, quem sou eu? Quem você é? Defendemos a paz somente quando o oprimido se levanta? Tememos a tempestade sem pensar, reconhecer ou muito menos conter e transformar nossas ações que a desencadeiam? Pior ainda é ter consciência da sua causa e engendrar a destruição cruel da nuvem negra que precisa desaguar.

Em versos, a “Trovoada” nos agita:

Se tu quisesse paz, tu ia querer também a liberdade, mas tu treme só de pensar

Tu prefere o controle dos corpos

Se quisesse paz, ia querer também ficar em silêncio, mas tu é tiro, é porrada e é bomba

É tanque de guerra na praça

Tu quer é calar o outro, pra tua voz se destacar ainda mais

Tu quer ter mais que o outro, às custas do outro e quer que o outro não reclame

A tua paz, doutor, é pisar no de baixo e não ouvir o grito

Quer paz porra nenhuma!

Tu só não quer é ser incomodado

Tu quer a ordem, que é um tapete muito limpo

Sobre um mar de sangue no assoalho

Tu quer é instaurar o caos pra inventar a pílula da salvação

Tu quer os peitos comprimidos, pra melhor vender comprimidos pra dor

Mas deixa eu te falar uma coisa?

O povo, essa massa que tu olha e não vê cara

Essa força que arrepia quando chega na Central às seis da tarde

O povo foi forjado no caos

Diz pra mim…

Quem é que tem medo do caos?

Quem tem medo do caos é você

Os versos da canção “Trovoada” nos chamam à revisão urgente do que somos, de quem somos, de como agimos e pensamos. El Efecto convoca a trovoada, a promessa da tempestade reparadora da injúria. Também o fez Castro Alves, em “Navio negreiro”: “Ó mar, por que não apagas/ Co’a esponja de tuas vagas/ De teu manto este borrão?… /Astros! noites! tempestades! /Rolai das imensidades! /Varrei os mares, tufão! (Castro Alves)

Sejamos nós trovoada, sejamos tempestade, sejamos combate ao racismo. Sejamos reparadores incansáveis das injustiças do passado, construindo a consciência no presente, para que o futuro seja de verdadeira igualdade. Trilhemos todos os caminhos para isso, em casa ou na escola as crianças precisam ser educadas para a igualdade, para a justiça.

“Nenhuma criança nasce racista. Isso sempre depende dos pais e daquilo que eles passam para seus filhos”.  (Jérôme Boateng, jogador de futebol  do Bayern de Munique, em entrevista à DW).

As instituições, as estruturas sociais, as políticas públicas precisam de revisão quanto às suas ações, ou falta delas. É preciso reconhecer o racismo enraizado que faz da cor da pele fator de seleção para o acesso a qualquer patamar de ascensão econômica, social ou instrucional/educacional e combatê-lo com ações concretas de reparação da miséria a que milhões de brasileiros são submetidos desde o berço, sem perspectiva de conquistar a dignidade mínima necessária à sobrevivência.

Essa é a trovoada, então que venha a tempestade, e depois dela o arco-íris.

Eu tava dormindo

Nuvem negra trovejou

“Levanta meu povo”

Foi assim que ela falou

Eu tava dormindo

Quando a chuva começou

A mágoa se fez pranto

Em água se transformou

As água foi caindo

Feito lágrima de amor

“Levanta meu povo, cativeiro acabou”

Eu tava dormindo

Nuvem negra me acordou

Machado!

A letra de “Trovoada” na íntegra:

Trovoada

(El Efecto – do disco Memórias do Fogo – 2018)

A árvore quando é cortada

Chora e sofre de tal maneira

Pois vê que o machado que sangra o seu tronco

Também é feito de madeira

Reina a dor, reinador…

Reina reinador, canta o sabiá

A maré virou, tempo vai fechar

Quilombo ensinou, tá pra anunciar

Chicote voltou no lombo de quem mandou dar

Eu vi a luz do rei

Eu vivia a lustrar a espada do rei

A espada do rei, do fio afiado, que fere o escravo, o servo e o plebeu

Que são meus irmãos, que sou eu

Pra cada tronco um machado

Bem-vinda revolta cresce

Se quem bate mal se lembra

Quem apanha nunca esquece

Quem tombou pela cor?

Pela cor, quem tombou?

Quem sangrou pela cor?

Pela cor, quem sangrou?

É pra quem tombou, tambor vai tocar

Sangue que irrigou, pode envenenar

Quilombo ensinou, tá pra anunciar

Quem sempre falou, hora de calar

Quem diz que não, é sim, é sim…

Quem diz e jura que não vê cor, é sinhá, é sinhô

Eu sei que tem cor a mão que sangrou,

Sangrou no tambor de tanto tocar

Tocar pro sinhô, tocar pra sinhá

De que lado que eu tô? De que lado cê tá?

Nessa dança…

Reinador, reinador…

A maré tá subindo…

Eu tava dormindo

Nuvem negra trovejou

“Levanta meu povo”

Foi assim que ela falou

Eu tava dormindo

Quando a chuva começou

A mágoa se fez pranto

Em água se transformou

As água foi caindo

Feito lágrima de amor

“Levanta meu povo, cativeiro acabou”

Eu tava dormindo

Nuvem negra me acordou

Machado!

Quer nada…

Se tu quisesse paz, tu ia querer também a liberdade, mas tu treme só de pensar

Tu prefere o controle dos corpos

Se quisesse paz, ia querer também ficar em silêncio, mas tu é tiro, é porrada e é bomba

É tanque de guerra na praça

Tu quer é calar o outro, pra tua voz se destacar ainda mais

Tu quer ter mais que o outro, às custas do outro e quer que o outro não reclame

A tua paz, doutor, é pisar no de baixo e não ouvir o grito

Quer paz porra nenhuma!

Tu só não quer é ser incomodado

Tu quer a ordem, que é um tapete muito limpo

Sobre um mar de sangue no assoalho

Tu quer é instaurar o caos pra inventar a pílula da salvação

Tu quer os peitos comprimidos, pra melhor vender comprimidos pra dor

Mas deixa eu te falar uma coisa?

O povo, essa massa que tu olha e não vê cara

Essa força que arrepia quando chega na Central às seis da tarde

O povo foi forjado no caos

Diz pra mim…

Quem é que tem medo do caos?

Quem tem medo do caos é você

El Efecto é: Aline Gonçalves – voz, flauta e clarinete/ Bruno Danton – voz, guitarra, viola e trompete/ Cristine Ariel – voz, guitarra e cavaquinho/ Eduardo Baker – baixo/ Gustavo Loureiro – bateria/ Tomás Rosati – voz, cavaquinho e percussão.

Participações em “Trovoada”: Nina Rosa – voz/ Ingra da Rosa – voz e letra (poema)/ Thiago Kobe – percussão/ Pedro Lima – violão/ Matheus Corrêa – trompete e flugelhorn/ Karina Neves – flauta e quena/ Sidney Herszage – sax tenor/ André Ramos – sax barítono/ Aline Gonçalves, Cristine Ariel, Duda, Nina Rosa e Thiago Kobe – coro.

Letras críticas e arte como ponto de partida para provocações, questionamentos e transformações, aliadas à diversidade rítmica são os pilares da banda El Efecto, cuja estética rock revisita vários gêneros musicais com marcas de contemporaneidade.

Em junho de 2013, El Efecto foi indicado como Melhor Grupo de Rock no Prêmio da Música Brasileira. Conheça mais sobre a banda nos links a seguir:

www.elefecto.com.br

 www.facebook.com/bandaelefecto

http://www.instagram.com/el_efecto

Trovoada – clip oficial

Um pouco mais sobre o tema:

Histórias cruzadas (trailler)

Histórias Cruzadas se passa em Jackson, pequena cidade no estado do Mississipi, nos anos 60. Skeeter (Emma Stone) é uma garota da sociedade que retorna determinada a se tornar escritora. Ela começa a entrevistar as mulheres negras da cidade, que deixaram suas vidas para trabalhar na criação dos filhos da elite branca, da qual a própria Skeeter faz parte. Aibileen Clark (Viola Davis), a empregada da melhor amiga de Skeeter, é a primeira a conceder uma entrevista, o que desagrada a sociedade como um todo. Apesar das críticas, Skeeter e Aibileen continuam trabalhando juntas e, aos poucos, conseguem novas adesões. http://www.adorocinema.com/filmes/filme-176673/

O Xadrez das cores – curta-metragem

O conflito entre uma mulher de 80 anos, extremamente racista, e uma moça negra que vai trabalhar na casa da idosa. Este é o enredo do curta-metragem O Xadrez das Cores. (…)O filme tem direção de Marco Schiavon. No elenco estão Anselmo Vasconcellos, Mirian Pyres e Zezeh Barbosa. Em 2005, O Xadrez das Cores recebeu diversos prêmios, entre eles o de Melhor Filme pelo Júri Popular, no Festival de Cinema de Goiás; Melhor Curta do Júri Popular, no Festival de Cinema Brasileiro de Miami; e Melhor Curta Metragem Nacional do Júri Popular e Prêmio Especial, no Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba.

http://www.palmares.gov.br/?p=48220

Entrevista com Lázaro Ramos, sobre o lançamento do seu livro “Na minha pele”:

Livro: Na minha pele – Lázaro Ramos

2017, Objetiva.

Movido pelo desejo de viver num mundo em que a pluralidade cultural, racial, étnica e social seja vista como um valor positivo, e não uma ameaça, Lázaro Ramos divide com o leitor suas reflexões sobre temas como ações afirmativas, gênero, família, empoderamento, afetividade e discriminação.
Ainda que não seja uma biografia, em Na minha pele Lázaro compartilha episódios íntimos de sua vida e também suas dúvidas, descobertas e conquistas. Ao rejeitar qualquer tipo de segregação ou radicalismos, Lázaro nos fala da importância do diálogo. Não se pode abraçar a diferença pela diferença, mas lutar pela sua aceitação num mundo ainda tão cheio de preconceitos.
Um livro sincero e revelador, que propõe uma mudança de conduta e nos convoca a ser mais vigilantes e atentos ao outro.

https://www.companhiadasletras.com.br/detalhe.php?codigo=28000108

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