Escola eficiente

Adalberto Fávero (Beto)
Ensaio III
A educação de resultados: comunidades de aprendizagens neoliberais
“Sábio é o pirilampo que usa o escuro para se acender.”
(Provérbio de Kulumani, Mia Couto)

“A doutrina do mercado escolar se baseia no argumento da eficiência… sejam menos dispendiosas, mais flexíveis e mais inovadoras, de acordo com o modelo de empresas privadas.” (Christian Laval)

            Os deuses avisaram os nativos, maias, que logo chegariam os vestidos, aqueles que têm mãe, mas não tem princípios; já os Siouxs ouviram que uma estranha raça teceria uma teia de aranha em torno deles e os trancariam em casas cinzentas e terra estéril, nelas morreriam de fome. Foi quando se estabeleceu o império da cobiça e disseram que a história começaria nesta data, não antes. O antes não era nada, não existia.

            Este tempo alongou-se, especializou-se em matar e cansar as mulheres e os homens de viver e se constituiu em máquina de assassinar esperanças e sonhos.

            Em ensaios anteriores, analisei a organização do mundo ocidental na perspectiva da empresa e transformação do Estado em empresa (ensaio I) e a constituição do indivíduo em empresário de si mesmo e da competição como norma de vida com a aniquilação das reciprocidades e solidariedades (ensaio II).

            Importa, neste momento e como educador pesquisador, pensar a reestruturação do espaço das escolas e universidades como lugar de aprendizagem neoliberal e de aprendizagem das práticas e competências do indivíduo empresário de si, bem como a reorganização de seus objetivos, sentidos e métodos. Esta “montagem” foi realizada, gradativamente, nestas últimas décadas, acostumando-nos a expressões, técnicas, organização e relações em vista deste modelo econômico, político e cultural.

            A escola nasceu como necessidade de massificação das informações de interesse da burguesia mercantil e se constituiu nesta perspectiva, travando historicamente uma ferrenha batalha para se transformar em espaço de cidadania e não apenas aparelho dos interesses das minorias dirigentes do estado e da economia. Neste contexto, as humanidades foram ocupando espaços e dando um sentido mais que o meramente utilitário para sua atuação. E é exatamente aqui que as atuais mudanças vêm interferir e acabar com este esforço de ação civilizatória.

            Neste mundo neo, onde todos devem ser empresários, a propalada liberdade de escolha individual tem se transformado em norma de conduta ou na arma privilegiada para que as opções individuais por uma ou outra escola seja instrumento de segregação e/ou discriminação das maiorias que não têm as condições de escolha, bem como tem oportunizado ao Estado retirar-se dos investimentos e compromissos com a educação/formação dos cidadãos. Esta situação avançou estrondosamente nas instituições particulares e atinge estruturalmente, neste momento, o ensino público.

            O indivíduo que necessariamente precisa ser competitivo, calculista e estar de prontidão para vencer o concorrente e maximizar seus próprios interesses, irá optar pela melhor escola nos rankings divulgados pelas diversas mídias como resultado das avaliações oficiais e oficiosas.

            Tornou-se bastante comum, sobretudo nas escolas privadas, (mas avançando gradativa e peremptoriamente para o ensino público) falar-se em adquirir ou vender tickets, cheques educação, vouchers, etc, às/pelas famílias consumidoras da escola, as quais passam a concorrer por oferecer ou buscar o melhor e mais vantajoso produto.

            Vestem-se estas opções ou “mudanças de rumo” com roupas e disfarces diversos e entopem de lixo as nossas memórias para que esqueçamos de fazer história. O neoliberalismo vai forçando a diluição do conceito de cidadania social e democracia como soberania popular e impondo a boa governança gerencial e de resultados. Não mais direito e sim desempenho. Bom exemplo é acompanhar ou ver os convites para o envio de currículos para concorrer a trabalho nas grandes redes ou universidade: gerente pedagógico, administrador de pessoas, gerente de unidade educacional, gestor de recursos humanos, analista de gestão …

            O neoliberalismo escolar foi ou vai sendo implantado por partes para não ser percebido ou ser mais palatável, causando a descaracterização do saber engajado. A sobrevivência das instituições e dos sujeitos envolvidos está na relação entre custo e benefício, na entrega e não mais na sua razão social. O que não é rentável não merece existir. Impera o postulado do homem egoísta!

            A escola está em reforma ou em liquidação por parte do movimento neo, exigindo-se a submissão à razão econômica. A quem interessa essa descolarização da educação para a cidadania? A liquefação das humanidades e do humano? A desintegração social, se é a família que deve escolher e só vale o resultado? A quem servem as tais “boas práticas”? (jargão cada vez mais presente nas discussões internas e externas das instituições).

            Essa escola submetida à razão econômica produz o indivíduo flexível ou o trabalhador autônomo, empreendedor, competitivo, o capital humano como definição do novo sujeito. Trata-se da escola aprendente ou da comunidade de aprendizagem de competências e habilidades do fazer, determinadas pela sociedade do mercado e pelo mercado de educação. Este é seu fim primeiro.

            O deslocamento recente da ideia de ensino para a implantação das “comunidades de aprendizagem” é passo expressivo deste processo. Argumenta-se que a educação centrada no professor como detentor do conhecimento é coisa do passado tradicional e a inovação está em transferir o centro das atenções para a aprendizagem do aluno. Sem entrar em teorias pedagógicas, importa lembrar que ambos os polos (centrar no aluno ou professor apenas) são incompletos ou insuficientes. A interdependência entre ambos é caminho indispensável, pois oportuniza e exige que educador e estudante sejam sujeitos da ação de ensinar↔aprender. No entanto, o atual deslocamento para as tais comunidades de aprendizagem objetiva como uma de suas intenções a retirada de um destes sujeitos (o educador) e do conhecimento como referenciais da ação educativa e esvaziar a ação civilizatória da escola. Não basta, certamente, reduzir o professor a mero prestador de serviços e nem o estudante a mero aprendiz ouvinte e não sujeito.

            Destaque-se, também, que as competências e habilidades, incorporadas aos currículos e planejamentos e cobradas nas avaliações oficiais ou de desempenho foram implantadas passo a passo. Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais – década de 90) significaram marco relevante, na época tendo como autores bastante conhecidos e divulgados, Cezar ColL, Marchesan, entre outros. Perrenault transformou-se em pedagogo inspirador no/do país, sob as bênçãos do banco mundial e OMC (Organização Mundial do Comércio). Passo a passo foram se implantando mudanças, linguagens, razões e métodos até desembocar nas atuais BNCCs (Base Nacional Comum Curricular) e suas estruturações, que impõem a todo país seus usos e costumes e as competências como “direitos de aprendizagem”.

            Tive a oportunidade de trabalhar nos anos 90 na perspectiva de releitura das habilidades como metahabilidades do pensar crítico e criativo e as habilidades operacionais na perspectiva do saber pensar e agir, o que oportunizava caminhos reflexivos diversos e autônomos a todos os sujeitos envolvidos, sejam eles educadores ou estudantes. Mais recentemente em implantação da BNCC em um município, experimentamos em grupo uma releitura nesta mesma perspectiva nas dimensões de contribuir com a formação de sujeitos capazes de pensar a realidade em que vivem e contribuir com um mundo de reciprocidades e generoso com as maiorias esquecidas.

            Destaque-se que a luta de educadores e pensadores em todo o país em resistir à atual avalanche neoliberal e mercadológica sobre a escola e espaço escolar tem sido constante e, diria, heroica na perspectiva de manter a ação formadora do cidadão e oferecer alternativa e possibilidades iguais a todos, sem discriminação ou segregação. Esta ação, entretanto, vai se constituindo um nadar contra a correnteza cada vez mais sofrido e exigente, diante da nova maré de alternativas e descaminhos patrocinados pelas elites dirigentes e seus interesses individuais. 

As amarras são inúmeras e a obrigatoriedade de implantação é inviabilizadora de maneiras alternativas da formação destes sujeitos, pois instrumentos como as provas Brasil, Paraná, etc colocam a própria educação pública num ranking de financiamentos e dificuldades políticas locais em que a pressão torna-se insustentável para os educadores. As avaliações são, na prática, o pós venda das empresas a serviço do marketing delas mesmas para “melhorar procedimentos e boas práticas.”

As avaliações externas estão a serviço da escola eficiente e eficiência pressupõe que as ações e processos sejam mensuráveis e, por isso mesmo, precisam de meios para mensurar, medir e avaliar. Trata-se de buscar aquilo que interessa ao mercado (emprego, adaptação, integração no sistema, trabalho em grupo, flexibilização, resultados, gestão enxuta, diminuição de custos), atingindo objetivos quantificáveis. Para que isso seja possível são estabelecidas competências a serem atingidas: linguínsticas, matemáticas, artísticas… É a aconometria educacional apelidada de modernização.

Neste caminho, a cultura tem que ser útil, o saber é instrumento e ferramenta de trabalho e para isto ele precisa de habilidades e competências. Trata-se do capital humano como referência, como exige e prega a OCDC (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) e faz sucesso entre os gestores escolares. É a educação como investimento produtivo.

            Por outro lado, a pauperização (empobrecimento) do papel do diploma em relação às profissões e o aumento de importância da formação contínua na empresa e “na parceria” entre escolas e empresas vem contribuir de maneira inequívoca nesta derrocada da formação para a cidadania em prol da preparação para e no mercado. A educação do sujeito integral está submetida ao indivíduo eficiente, de mobilidade e de produtividade garantida. Aquele que “entrega” o esperado!

            As escolas e universidades privadas são transformadas em sistemas corporativos na lógica de “fabricar saber.” Oferecem diploma e capital humano, o novo campo de acumulação de capital, transformando-se em fábricas de produção de bens (recursos humanos, capital social, capital humano…), além de vender invenções e patentes. Chama-se isto de produtividade e centro de resultados.

A intromissão do mercado nas escolas e univerdades é chamada pelo eufemismo de “parceria” para melhor “eficácia” e “inovação”. O professor agora deve ser empreendedor e formar os empreendedores, técnico de ensino e não mais de homens honestos ou inspirar utopias de libertação. Precisa preparar trabalhadores e consumidores do futuro, recursos humanos. Ele deve ser guia, tutor e mediador…

            Esta engenharia teve seu início há mais de quatro décadas e foi tomando corpo, gradativamente, e nos acostumando com as palavras, com os papéis e com a proposta fantasiada de modernidade, até parecer natural e inovadora. Acostumamos com expressões tais como: aprendizagem ao longo da vida, eficiência, desempenho, competência no lugar de conhecimento, preparação para o trabalho, empreendedorismo, metodologias ativas, protagonismo…    Esta situação de individualidade e competências úteis é que permite avaliações permanentes de desempenho (o mercado mede) e o empreendedor compra o capital humano, substituindo-se a visão coletiva e de coletividade. Depois das cercas, como garantia privada da propriedade física, há um cercamento daquilo que é conhecer e os indivíduos são vistos e tratados como recursos e bens de/para consumo na transformação tornada natural do conhecimento em competências.

Trata-se de uma mudança pedagógica estrutural e de padronização geral das escolas e sistemas, na perspectiva de “casamento” incestuoso do mercado com a escola com o nome de modernização e outros apelidos escusos.

            Está se objetivando uma implantação técnica da formação e clara instrumentalização dos saberes na perspectiva operacional, transitando da formação geral de cidadãos para o estritamente individual e profissional. Formar um bom operário não é mais formar um bom cidadão e sim o empreendedor consumidor… e se diz trata-se de profissionalização da educação.

            Outro passo a se destacar nesta mudança tem sido a implantação de sistemas informatizados de gestão. Implantam-se sistemas gerenciais sem cunho pedagógico em sua “essência”. Seus responsáveis costumam insistir que não haverá intromissão no pedagógico, porém (dizem) o sistema ainda não está preparado para as necessidades dos professores e educadores em geral. Oferecem a integração das informações de maneira a controlar todos os processos e atuações ordinárias. Às vezes, são costumizados e as palavras ou expressões são suavizadas aos ouvidos pedagógicos ou nem se dão ao luxo de fazê-lo, pois a custumização custaria caro à escola e os recursos são escassos para tal. Insistem que se use como está ali, apenas para operacionalizarem ou registrarem as informações, o que é exemplo líquido da máscara dos sistemas e de seus gestores. Ao lançar as notas, por exemplo, o professor irá encontrar palavras estranhas (demanda, produto, etc) com o que vai se acostumando e com o tempo transforma-se em “atividade normal”.

            Não se trata aqui de demonizar os recursos tecnológicos e sim de apontar para a instrumentalização dos mesmos em vista da “inovação da gestão escolar” que costumeiramente usa as informações para fins alheios à qualidade pedagógica na formação do cidadão. Trata-se de maior e melhor eficiência e de estabelecer elementos para a competitividade interna e externa, além de alcançar a meta, o resultado. Quem questionar este uso ou a instrumentalização em andamento passa a ser visto como contrário à modernização e profeta do passado ou do caos. Fala-se em conectar-se ao mundo real e suas facilidades e demandas.

            Perceba-se, ainda, como o comércio no espaço escolar atinge inúmeras dimensões: livros, documentos paraescolar, máquinas e instalações, kits de inglês ou outra língua, recursos humanos e capital humano, desde a primeira infância. O free marketing toma conta, sem conhecer limites ou fronteiras. Compra-se o “ticket” ou “voucher” pela melhor oferta e tudo é oferecido como mercadoria. E se é mercadoria pode-se exigir a qualidade formal, o que dá aos clientes grande poder de barganha com as instituições e seus “gestores.”

            Para o economista, o gasto com a educação é despesa, por isso o Estado empresa busca passar a tesoura em tudo que entende como supérfluo. Convencer a população que o educador ou o funcionário público é parasita faz parte do movimento de desonerar os gastos com o sistema escolar (com a saúde, segurança, moradia…). Estas tesouras passam a ser armas permanentes dos gestores, dizendo que os recursos públicos não suportam mais financiar sozinhos as estruturas e justificam recorrer ao privado. Privatizar, defendendo que o saber é privado e privatizado pelo indivíduo empresário de si mesmo torna-se consequência sempre mais corriqueira.

            O afastamento dos gestores frente a professores e conteúdos culturais faz parte da referida ação modernizadora. São “especialistas” convertidos em gerentes que “constroem” a escola com mais alunos em sala, contam custos, eliminam turmas pequenas, burocratizam os processos e ação dos professores, aumentam a carga de trabalho e estabelecem “caminhos para fazer mais com menos”.  O trabalho por projetos é parte desta ideologia gerencial que pode privilegiar situações individualizadas e é amparado pela ideia de respeito à realidade local.

            A pandemia do covid 19 e o isolamento físico das pessoas destacaram “a necessidade do EAD” e do trabalho Home Office, o que tem favorecido e aprofundado o movimento neoliberal, onde o professor é anunciado como um motivador na direção da formação mais rentável. Não poucos aceitam o movimento e se fantasiam de personagens diversos, a fim de favorecerem a “aprendizagem”, o que não é original porque os cursinhos já vinham ensaiando a formação destes artistas do palco frente à plateia de duzentos ou trezentos estudantes. O passo seguinte já havia se tornado mais fácil.

 Em todas estas dimensões a ideia “liberal” do direito de opção de escola para o filho é o sofisma do Mercado, pois não há condições iguais para a escolha e isto determina exclusão e separação. O discurso da livre escolha vem sempre acompanhado das ideias de descentralização, desregulamentação e ausência cada vez mais significativa do Estado e da maior segregação social. O aluno fraco, problemático e bolsista por razão social não interessa, pois pode significar baixa produção e gasto inútil.

Os rankings divulgados pela mídia favorecem a homogeinização dos currículos, metodologias e avaliações, eliminando o pluralismo efetivo e a diversificação pedagógica e curricular, bem como impedindo o reconhecimento das diferenças sociais e/ou locais. A pretensa concorrência e livre escolha vai garantindo sempre mais as melhores escolas aos privilegiados e de mais posses.

Se a educação tradicional era acusada de ser classificadora, creio que o atual modelo de educação eficiente é uma máquina de discriminação e de homoneigização através das competências e de instrumentalização do saber pelo e com o mercado. A escola democrática e participativa está a caminho de extinção, sendo as divulgações de desempenho o instrumento de seu enquadramento, sempre com as roupagens de respeito ao direito de escolha do indivíduo.

Este movimento. que atinge a educação e as escolas e universidades, faz parte, obviamente, de um contexto mais amplo que nos leva a incorporar a ideia do indivíduo empresário de si e protagonista dos próprios interesses. Este é um triste caminho, para dizer pouco. Ele mata a solidariedade entre as pessoas, destrói as reciprocidades e faz emergir as características mais desumanas das pessoas e da nação, mas não é casual. Faz parte de um modelo, de uma ideia de transformar a discriminação em costume e cultura coletiva.

Tal movimento mata as reivindicações coletivas, os sindicatos e associações (muitos já desgastados por sua atuação ou pelo aparelhamento a partidos ou à burocracia interna) e dá primazia ao gestor da eficiência. Torna possível, senão necessário, o tipo de elite dirigente que assume o país com o papel de privilegiar o privilégio, banalizar a morte e rir da vida daqueles que lutam pela sobrevivência. Só neste modelo é possível entender governos como este que temos e/ou os sucessos de governos semelhantes em diversos outros países.

Penso que a educação não possa estar a serviço da discriminação, da não solidariedade, do fim da reciprocidade e nem da morte dos sonhos. Faço minhas as palavras de Galeano, quando diz: “Tentei e continuarei tentando, descobrir as mulheres e os homens animados pela vontade de justiça e pela vontade da beleza.”

Não há ou não deveria existir outro jeito de viver como educador que não fosse assim: a lutar pela igualdade e ser semeador de um mundo solidário. A última coisa que tentarão tirar de nós é o sonho, a capacidade de sonhar e ter esperança.

Por essas e outras razões, creio que seja de urgência urgente deixarmos claro que não estamos à venda e nem a nossa capacidade de sonhar; que este indivíduo empresário de si não é o cidadão que tece um mundo onde se possa ser feliz; que a educação mercadoria e o capital humano é a nova versão da escravidão para milhões; que nos recusamos a sermos artífices de um país escravocrata e não desejamos novos pelourinhos; que somos gente que deseja e precisa tecer juntos o que virá; que nem todos sabemos ler, mas todos sabemos rir; que há brigas que nos envelhecem 100 anos, mas quando brigamos, no entanto, há outras que rejuvenescem a vida.

Lembrar e lembrarmos que a história e a terra cobrarão daqueles que privam da vida aos demais e faz florescer, sempre, a esperança. 

“Fica zangada a terra, a mãe terra, a Pachamama, se alguém bebe sem lhe oferecer. Quando ela sente muita sede, quebra a botija e derrama o que está lá dentro. A ela se oferece a placenta do recém-nascido, enterrando-a entre as flores, para que a criança viva; e para que o amor viva, os amantes enterram cachos de cabelo. A deusa terra recolhe nos braços os cansados e os maltrapilhos que dela brotaram, e se abre para lhes dar refúgio no fim da viagem. Lá embaixo da terra, os mortos florescem.” (Eduardo Galeano em Memória de fogo).

Porém, chega de acreditar em ser feliz apenas após a morte e que os privilegiados aqui irão sofrer depois. Este é o mundo e o lugar que vivemos e temos o direito de sermos felizes, viver com dignidade, sermos sujeitos desta história. As mortes sem razão e fruto do descaso não podem ser normais. Cento e trinta mil mortes (e podemos multiplicar este número por 7 ou 9 vezes) não podem ser só estatística e nem levar consigo tantos sem nome e sem epitáfios, que nos lembre de que a vida é importante e não pode ser assim banalizada.

Pode nos bastar que se eduque para o interesse individual egoísta que faz esquecer a morte e vida do outro? Até quando ficaremos cansados e não indignados de olhar sem ver? Quando se perceberá que “a miséria é não saber pensar, nem dar à memória mais recordação que a dor…?” (Francisco Bilbao)

A terra, pachamama, vomitará aos que matam ou deixam morrer como se fosse o destino dos sem nome, porque viver é importante e a vida é um bem inapropriável. Todas as vidas e as mortes: as físicas, as vidas da cultura, da verdade, do saber e da esperança. Todas são imprescindíveis e inegociáveis! Brigar por elas deveria ser intransferível, mesmo com a sensação de impotência diante da tormenta, pois há passos que outras pernas não poderão dar…

            Talvez nos reste ajudar os desonhantes e desonhados a dizer não, dizer basta; insistir que a vida vivida com os outros importa, importa muito; pensar o dia a dia e a educação de um modo incomum nos sombrios momentos atuais, mas que já foi ou é um jeito de muitos viverem sua práxis.

            “Pintar o mundo às avessas

            Já se viu entre tanto erro:

            A raposa atrás do cachorro

            E o ladrão atrás do juiz.

            Para cima vão os pés,

            Com a boca se vai pisando,

            O fogo a água apagando,

            O cego ensinando letras,

            Os bois na carroça

             E os carroceiros puxando.

            Às margens de um homem

            Estava sentado um rio,

            Afiando seu cavalo

            E dando água ao punhal.”

            (Eduardo Galeano)

Bibliografia (Sugestões de Leituras)

Dreifus, R, A Internacional capitalista. Editora Espaço e Tempo,1986, Rio de Janeiro

___________ Época de Perplexidades Editora Espaço e Tempo,1990, Rio de Janeiro

Dardot, P e Laval, C.   A Nova Razão do Mundo, ensaios sobre a sociedade neoliberal. Editora Boi Tempo, 2019, São Paulo

———————–Comum: ensaio sobre a revolução no século XXI. Editora Boi Tempo, 2017, São Paulo

———————– A Escola não é uma Empresa. Editora Boi Tempo, 2019, São Paulo

Dreifus, R, A Internacional capitalista. Editora Espaço e Tempo,1986, Rio de Janeiro

___________ Época de Perplexidades Editora Espaço e Tempo,1990, Rio de Janeiro

Dardot, P e Laval, C.   A Nova Razão do Mundo, ensaios sobre a sociedade neoliberal. ED, Boi Tempo, 2019, São Paulo

Castells, M Fim de Milênio. Ed. Paz e Terra, 1999, São Paulo

Piketty, T. O Capital, no século XXI. Ed. Intrrínseca Ltda, 2014, Rio de Janeiro

Santos, M.S. e Mesquida, P. As Matilhas de Hobbes. Ed. Metodista, 2014, São Paulo

Galeano, E. Memória do Fogo. L&PM Editores, 2013. Porto Alegre

————- Livro dos Abraços L&PM Editores, 2014, Porto Alegre

Castells, M Fim de Milênio. Ed. Paz e Terra, 1999, São Paulo

Piketty, T. O Capital, no século XXI. Ed. Intrrínseca Ltda, 2014, Rio de Janeiro

Santos, M.S. e Mesquida, P. As Matilhas de Hobbes. Ed. Metodista, 2014, São Paulo

Galeano, E. Memória do Fogo. L&PM Editores, 2013. Porto Alegre

————- Livro dos Abraços L&PM Editores, 2014, Porto Alegre

————- O Caçador de Histórias. L&PM Editores, 2016, Porto Alegre

                                  

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