Hospital Erasto Gaertner: um domicílio de travessias

Luiz Carlos Heleno*

(Para minhas amigas Tatiana e Lucimara, e para minha mãe Laura, que já virou saudade e saudável energia cósmica)

Eu e meu pai caminhávamos pelas calçadas de acesso à porta central do Hospital Erasto Gaertner, para exames de rotina de meu velho. A cada passo eu observava o movimento de pessoas que entravam e saíam das tendas, alas e salas de espera onde cada qual aguardava sua vez de ser atendido.

Um mosaico em que vi sinais de esperança que saltam dos olhos ou vincos que nascem de um tratamento às vezes extenuante: as palavras, os silêncios, os gestos, os vestígios. Pessoas de variadas idades, ali expostas, compenetradas e confiantes diante da mais desafiante das batalhas  da vida até ali vivida e o horizonte que se prenuncia nebuloso, mesmo todos sabendo que o Erasto é um hospital de referência no tratamento.   

O ambiente dos hospitais, mesmo quando se trata de consulta de rotina, será sempre um espaço onde vida e morte se fazem presentes de forma mais aguda – não como se fosse numa batalha em que cada lado tivesse armas de igual poder, mas sim como uma lembrança descortinada de que o fio que separa o coração que pulsa e o que pára é tênue, pra não dizer indistintamente frágil. O amigo poeta e compositor Luiz Antonio Fidalgo, quando perguntado se tem medo da morte, respondeu de forma lúcida e surpreendentemente poética: não é bem medo, mas sim uma certa tristeza”. Concluiu, com outras palavras, que apesar dos desafios e conturbações que temos de enfrentar, deixar amigos e parentes que amamos, e coisas boas das quais desfrutamos, sempre será algo a ser lamentado.

Segui com meu pai até a tenda onde agora se faz a coleta de sangue. Em tempos de Covid, os cuidados se redobram, e sendo o Erasto um hospital de referência reconhecidamente espetacular, logo o corpo diretivo reorganizou o espaço, criando ambientes e condições mais arejados e com distanciamentos que possibilitam maior segurança. Atendimento primoroso. Cada funcionário ou funcionária parece estar treinado a se tornar um primeiro bálsamo para a pessoa que busca ali a sua cura – o vínculo humanitário que se estabelece. O corpo clínico do Erasto abraça o/a paciente até o limite da luta: para os que se curam e para os que deixam este mundo, o hospital se transforma num domicílio de travessias.

Mesmo sendo orientação, dentro dos hospitais, a necessidade do silêncio possível e do respeito, no Erasto essas recomendações recebem mais vigor: é a prontidão da vida posta à prova clínica num espaço e tempo em que o oposto da vida é ameaçadoramente letal. Olhando aquelas pessoas com máscaras nos rostos, e seguidamente buscando o recipiente com álcool em gel mais próximo, pude perceber que a intromissão da covid ali, na balança das enfermidades, tornou-se de forma mais explícita um inimigo menor, embora não menos perigoso.

Toda aquela gente, em tratamento contra algum tipo de câncer, entre sorrisos ou preocupações que se insinuam através dos olhares por sobre as máscaras, nos dão uma lição de que ali nas dependências do Erasto Gaertner, ou em suas casas, as recomendações sanitárias contra a covid são seguidas e praticadas serenamente e seriamente da mesma forma com que nossos corpos necessitam de alimentação. Talvez uma distinção inconsciente entre as duas moléstias: a covid, um inimigo que vem de fora, tem sua letalidade controlada ou minimizada com os cuidados amplamente divulgados e materiais à disposição; já o inimigo que está dentro de cada corpo carece da esperança e das decisões quase diárias de todo um corpo clínico dedicado e preparado. O corpo e a doença já estão em luta deflagrada.

Ali no Erasto Gaertner a morte não é um número estatístico frio na tela de um computador, e nem é encarada com a banalidade da finitude que enxerga no óbito apenas uma fatalidade. Cada corpo é uma vida com sua história feita de incertezas e conquistas, de tristezas e alegrias, de luzes e momentos nebulosos: pessoas entram e saem dos espaços do hospital carregando dentro de seus corpos a doença que se instalou inesperadamente dentro de cada um – a mente rodopia entre lenitivos e desconforto.

Enquanto esperávamos nosso carona e amigo Vilson encostar o carro perto de uma daquelas barraquinhas do comércio já na rua, vi um homem apontando pra uma mulher que retornava também dos blocos do hospital, dizendo ao filho olha lá a mamãe chegando”. O menino foi ao encontro da mãe, todo festivo, e ela o acolheu no colo. O casal parecia feliz com algo que a mãe comentava; parecia o anúncio de notícia boa com relação ao tratamento. Enquanto entrávamos no carro, fiz um aceno pro menino que me olhava do colo da mãe. Ele não me acenou, mas riu encostando a cabeça junto ao ombro da mãe. Na forma mais viva e inocente de um menino abraçado ao pescoço da mãe, a vida cruzou a rua feliz: na boca lambuzada vi os sinais de alegria de quem devorava com gosto o que parecia ser um pastel saboroso.

*Escritor, poeta, e compositor

(Autor de Revelação das Cinzas – poemas premiados e publicados na coletânea “Arremessos de um Canto Geral”, pela Secretaria de Cultura de São José dos Pinhais. Edição distribuída na Rede Municipal de Ensino daquele município; publicado na coletânea “Poetas”, poesias premiadas pelo “Concurso Nacional Helena Kolody” – Secretaria de Estado da Cultura do Estado do Paraná)

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