Pandemia,  Morte e o Esquecimento

José Miguel Rasia*

Os dados sobre a Pandemia no Brasil, enquanto escrevo este texto são mais do que alarmantes, são assustadores, 2.927.807 contaminados e 98.444 pessoas mortas, considerando-se os casos notificados. Não vou entrar na discussão sobre a notificação, que na maioria dos  países esteve sempre abaixo do número real de pessoas que contraíram o vírus, nem vou entrar na discussão dos fatores que levam à subnotificação. Assim, qualquer análise sobre a pandemia, trabalha com os dados disponíveis, estando fora dessa contingência os estudos de projeção e as estimativas. Minha preocupação é, admitida a subnotificação dos casos de pessoas que contraíram o vírus e as mortes com causa não esclarecidas ou por esclarecer), reforçar o que sabemos sobre a gravidade e a extensão da epidemia e alguns elementos que nos ajudem a pensar porque ela tem se comportado dessa forma. Repetindo o que dizem todas as projeções e estimativas, os efeitos do Corona são muito mais devastadores do que os dados até agora apontam. É sobre a devastação que estamos enfrentando que precisamos falar, é para conter seu efeito que precisamos agir como indivíduos e como sociedade e precisamos exigir do Estado Brasileiro e das autoridades que não se furtem de suas responsabilidades. A culpa pela tragédia e seu preço humano será cobrado dos governantes omissos ou que propõem falsas medidas de proteção, que se arvoram em indicar medicamentos milagrosos, todos segundo a ciência inadequados. Propagar esperança de cura, de medicamentos que são sabidamente ineficazes contra o vírus, é grave, é charlatanismo, e quando se trata de vida humanas sempre foi crime.  E quando falo em agir,  estou pensando prioritariamente nas autoridades públicas, do Presidente da República ao Prefeito do mais remoto e pequeno munícipio, nos governadores, vereadores e administradores públicos, cuja responsabilidade é zelar pelo bem de todos. Para isso é que foram eleitos. Aos indivíduos resta seguir as orientações oficiais, principalmente as sanitárias, cumpri-las à risca, desde que sejam adequadas à proteção da vida. Qualquer vida é muito importante para ser perdida.

Se tomarmos o que diz a epidemiologia, qualquer doença, que atinja uma taxa de letalidade próximo a 3% dos infectados, é muito grave.  Desta forma quando observamos os números do Brasil, a dimensão da epidemia é mais que evidente e não pode ser negligenciada. A letalidade do  Novo Corona Vírus no país é de 3,3. Se considerarmos  os valores estabelecidos pela epidemiologia esta taxa é muito grave.  Não podemos esquecer que o Corona está presente em todos os estados da federação na maioria dos municípios e áreas indígenas.

Considerando-se a Região Sul, a taxa de letalidade está um pouco abaixo dos 3,3 do País. No Paraná a letalidade  está em 2,5% em Santa Catarina, 1,3. O Rio Grande do Sul apresenta a taxa mais alta, com 2,8%.  A taxa de letalidade do vírus na Região está em 2,1%,  Santa Catarina é o estado em que ocorreu o menor número de mortes até agora 1357,  mas o número de casos é o maior da Região, são, 98.634. São vários os fatores que podem nos ajudar a entender porque em Santa Catarina a letalidade está abaixo da taxa da Região: a menor agressividade do vírus em circulação em Santa Catarina, maior capacidade de atendimento rápido e eficiente do Sistema Único de Saúde (SUS), melhores condições de Saneamento e melhor qualidade de vida da população. Estes são alguns dos fatores que podem diminuir os impacto da epidemia sobre o conjunto da população. Vale destacar, porém, que os dados para Santa Catarina, assim como para o resto da Região Sul não configuram nenhuma tendência e não servem para uma projeção ou estimativa. Os dados são o retrato do que aconteceu até hoje, amanhã tudo poderá se pior.

Tomando agora os dados do Paraná e do Rio Grande do Sul, temos a seguinte situação: o Paraná é o segundo estado da Região em número de casos confirmados, 86.303 e  o segundo também em mortes, 2200, já o Rio Grande do Sul com 78.837 casos confirmados e 2231 mortes é o segundo em número de casos e o primeiro em número de mortes. Estes dados só servem para dizer como o quadro regional está hoje, a dinâmica da epidemia, e são insuficientes para pensar a tendência.

Aos possíveis fatores explicativos devem agregar-se outros, como nível de cobertura vacinal da população para outras doenças, principalmente respiratórias            que não imunizam contra o vírus, mas ajudam na resistência geral dos infectados, qualidade da alimentação, qualidade das condições de moradia,  nível de escolarização, condições do transporte público, acesso à informação e adesão às medidas de proteção preconizadas pelas autoridades sanitárias e políticas do país.

No Brasil, país de população jovem, se comparado com os países Europeus, China e Japão, espanta o número de doentes e de mortes entre jovens. Isto faz com que se interrogue o  conceito de Grupo de Risco, tal qual  estabelecido pela Organização Mundial da Saúde, que considera principalmente a idade (pessoas acima de 60 anos) e a presença de doenças pré-existentes, como diabetes, câncer, hipertensão arterial, doenças cardíacas, obesidade etc. No Brasil o desenvolvimento da COVID-19 entre jovens exige dos epidemiologistas que a noção de Grupo de Risco seja repensada, levando em consideração as características etárias da população, bem mais jovem que a europeia e a asiática. Assim, a média de idade de uma população, no caso da Pandemia atual,  e a noção de Grupo de Risco, estão intimamente relacionadas. Desta forma, o grande contingente de jovens e o reduzido número de velhos acima de 80 anos, no Brasil, explica que tenhamos uma taxa de mortalidade bem mais alta de pessoas com menos de 40 anos, do que se observou para este mesmo segmento etário na Europa, no Japão ou na China.

Os números apresentados até aqui, se são assustadores e têm muita importância, porque falam de pessoas doentes ou mortas pela COVID-19, amanhã podem ser bem diferentes, com um incremento de casos novos e de morte. As médias semanais têm demostrado isto. É próprio das epidemias aumentar o número de infectados e mortos, de forma acelerada quando não existem  politicas centralizadas de controle da disseminação do agente patógeno, especialmente como é o caso do corona,  que possui alta taxa de contaminação. Se imaginássemos que a partir de hoje não teremos mais nenhum caso novo, e estes dados mostrassem um quadro estabilizado da expansão do vírus, teríamos, no mínimo que esperar 14 dias para afirmar que atingimos o nível zero de contaminação, o mesmo poderíamos dizer sobre a letalidade e o número do vírus. No Brasil a contaminação e as mortes se estabilizaram num platô muito alto, em média tivemos mais de mil mortes diárias na últimas 4 semanas, o que é péssimo, pois esperava-se que a curva de novos casos e morte estivesse em declínio. Cada vez mais assustadora se torna esta situação, três ou quatro semanas com uma  uma curva ascendente, não podemos esperar outra coisa, senão o pior: o aumento de novos casos e como desdobramento o aumento de mortes, não necessariamente na proporção do crescimento dos novos casos, mas pela falta de vagas de enfermarias e UTIs próprias para o tratamento. Como se trata de uma doença causada por um vírus altamente contagioso, as enfermarias e  UTIs  precisam atender condições que não permitam a circulação do vírus. Não vou entrar nestes detalhes nesse texto, mas não basta isolar o doente internado, o isolamento é a condição mais simples a ser alcançada.

Se o Estado Brasileiro, através do Ministério da Saúde e as demais autoridades, não implementarem políticas agressivas de combate ao vírus é de se esperar que muitos adoeçam e morram por um longo tempo ainda.

Bolsonaro, o Ministério da Saúde, Governadores e Prefeitos, precisam levar a sério as recomendações das autoridades sanitárias, os médicos e muitos outros profissionais envolvidos com a epidemias. Neste ponto, o Brasil é um péssimo exemplo,  o Poder Central se ocupa em negar a gravidade do fenômeno, no que é seguido por alguns governadores e prefeitos. Bolsonaro, mesmo com vários testes positivos para Covid-19, passeia de moto sem máscara e conversa com garis. Do ponto de vista da saúde pública este comportamento é uma ameaça. Insiste como se fosse médico no uso de um medicamento que muitas pesquisas provaram a ineficácia, chegando às raias do absurdo de oferece-lo às emas do Palácio da Alvorada, que sabiamente recusam.

Por outro lado, uma população com baixa escolaridade não entende o que não é palpável e ao mesmo tempo que acredita em Deus e orações, também não palpáveis, não consegue acreditar na existência vírus. Não há como enfrentar uma doença coletiva enquanto boa parte da polução aceita a verdade do dogma religioso e não aceita a verdade da ciência.

Não bastassem as condições enumeradas acima, que possibilitam o agravamento da epidemia no país, o vírus conta com um contingente grande de aliados: presidente da república, ministros, prefeitos e governadores que não consideram o combate ao vírus como razão de Estado. Isolamento  parcial é uma ilusão para que não se diga que não está sendo feito nada. Mas a conta chegará sob a forma mais severa possível para aqueles que querem ter algum futuro político. Não será possível sustentar-se com tantos doentes e tantas mortes nas costas.

Aos prefeitos e vereadores que quiserem se reeleger é bom lembrar que a maioria dos eleitores não são os pequenos comerciantes locais, os donos de bares e supermercados, os moços que frequentam academias, nem os donos de Shopping Center. A maioria dos  eleitores são trabalhadores, obrigados a se expor ao risco da contaminação, por serem obrigados a trabalhar e que dependem do transporte público, quase sempre de péssimas condições. Lembrem-se senhores, assim como não há saída individual numa epidemia, para a morte não há esquecimento.

 

* PPG em Sociologia – UFPR.

 

 

 

 

 

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