As “Lives” de Música e a Pandemia

Guego Favetti

Mais de cento e trinta dias se passaram e a pandemia ainda cresce no Brasil. Num país de “brasileiros sem sapatos”, como disse Vinícius de Moraes, no poema Pátria Minha, os números desenfreados de mortos e contaminados refletem ainda mais a condição de país à deriva, com um governo perverso que “dá de ombros” aos cuidados do povo. Cuidado que deveria ser o mínimo razoável, com muito empenho e seriedade para amenizar o sofrimento, que sabemos sempre recai sobre os mais pobres e despossuídos. Cuidado que se mostra cada vez mais longe de ser objetivo do “poder”. E foi diante desse cenário que, como músico, me vi em afastamento social, sem possibilidade de trabalhar nos lugares de diversão que constituíam meu campo de trabalho até dias antes da pandemia nos alcançar. Para manter viva a minha arte, passei então a me apresentar de casa, virtualmente, através das “lives”. Ao invés de salão, público, barulho, encontros, o que eu tinha no meu apartamento era, além de mim mesmo, o violão, o celular, uma conexão de internet, minha companheira disposta a ligar tudo isso com as pessoas através do mundo virtual, mundo este que nem me atrevo a tentar descrever.

guego

Num primeiro momento, imaginei que as apresentações virtuais aconteceriam por alguns poucos dias e que seria uma forma de manter contato com o público. Mas os dias foram passando e as apresentações foram se transformando. O que era opção para manter proximidade, passou a ser necessidade. Para mim, necessidade de manter viva a minha arte; para o público, necessidade de ter momentos de alento, além do contato comigo e com a música. E o que parecia quase trivial, transformou-se em quase vital. E fui surpreendido pelo fato disso passar a ser também utilizado por músicos e artistas em geral, mesmo consagrados; alguns por opção. E é quase inacreditável que muitos “grandes nomes” tenham também precisado aderir a esse sistema moderno de comunicação e diversão para garantir a sobrevivência diante da impossibilidade de dar continuidade aos seus trabalhos.

Ao longo de todo esse período de distanciamento social tenho apresentado canções diversas, de diversos temas. Misturo estilos, temáticas, linguagens e estéticas completamente diferentes umas das outras. Sempre fiz isso. Sempre gostei da ideia de que a obra, tendo sentido poético com alguma proposta de transformação, ou diversão, deva ser levada às pessoas; deva ser apresentada de forma simples e direta para acrescentar alguma coisa para cada um que ouve. Foi assim que sempre procurei aglutinar pessoas em torno de vasto repertório e da rica música popular brasileira. Canto a música popular brasileira que é para mim a maior expressão da nossa cultura. Além da nossa música, questões ideológico-culturais, “passeio” também pelo cancioneiro latino-americano. E pela minha origem, dou algumas “pinceladas” em temas tradicionais italianos. Nas mais de cento e trinta apresentações, inicialmente diárias, mas que depois foram reduzidas a cinco semanais, já cantei em torno de mil e setecentas músicas. Em média quinze músicas por dia, algumas com mais repetições, mas a grande maioria cantei uma ou duas vezes. Canções que aprendi ao longo de quarenta anos de cantoria, pesquisa, aprendizado e reflexão sobre a função da música e de sua importância na nossa cultura. Creio nessa mistura dos estilos e origens para aproximar temas e objetivos que a música se propõe.

Apesar de parecer simples, já que canto o que sei, é uma experiência estranha. Acostumado a observar e sentir a presença e a resposta do público, cantar para o fundo do celular, que faz a captação e transmissão de imagem e som, foi e ainda é quase apavorante. Mas a sensação de cantar para ninguém, já que não vejo e nem ouço o público, foi ganhando uma dimensão nova, de cantar para muitos, conhecidos e não. Esse público dá a toda essa coisa tecnológica uma nostálgica impressão de quase proximidade. Saber ao final de cada apresentação que as pessoas estão curtindo é o que tem me motivado. Tem sido trabalhoso. Montar o repertório demanda uma certa lógica. Misturo algumas canções de autoria com canções de autores locais, mescladas a canções consagradas. E o mais legal, atendendo pedidos das pessoas que acompanham. Levo algum conforto e entretenimento para quem está em isolamento, e recebo incentivo, carinho, estímulo que me leva a cantar novas canções.

Quando comecei, percebi a necessidade das pessoas de se distraírem; e aí, com a possibilidade de interagirem através de comentários, disponível na plataforma que usamos, percebi também a necessidade de se comunicarem. Através dos comentários, com ou sem amizade, umas com as outras, ou com todas, as pessoas começaram a se relacionar, e sabemos até de paqueras. Além das manifestações entusiasmadas ao ouvirem as canções, passaram a expressar seus reais sentimentos. Há risos, corações, choros, aplausos, dança, euforia, silêncio, cerveja, vinho, cardápio. Por opções, não participo das interações durante a apresentação, salvo algumas interferências gentilmente mediadas pela minha companheira, que pouco aparece, mas que de trás da câmera do celular, vez ou outra me coloca em contato com manifestações, pedidos, participações. Participações que se estenderam, além do público através dos comentários, a outros músicos e pessoas que gostam de cantar, que passaram a se apresentar comigo de forma remota. Estas participações, além de serem uma surpresa, emprestam sua graça, alegria, arte para enriquecer as apresentações. Com o tempo, além de música, a declamação de poesias ganhou espaço e também foi bem recebida.

Então, apesar de não estar num bar, conseguimos criar um bar virtual, com pessoas curtindo música, conversando entre si, fazendo seus pedidos, expressando sentimentos, e músicos e amigos dando suas “canjas”. Cada vez que assisto as apresentações, coisa que faço todos os dias, logo após o término ou na manhã seguinte, é a reação do público que me motiva a seguir. Formou-se um grupo amável com encontro virtual marcado às 19:30h, cada um na frente de sua tela, que agrega cada vez mais gente para curtir uma boa música, com algumas canções que não conheciam e assim por diante. E se por um lado o público parece sentir-se num bar, por outro, canto como se estivesse no bar, mas ainda estranho a distância da ligação virtual. Sinto uma responsabilidade enorme porque não é fácil conquistar, motivar e manter um público tão crítico e bem informado. Entendo que a minha experiência e o estilo contam, mas prender a atenção de tantos por tanto tempo é mágico para mim.

Eu assumi desde o começo a ideia de cantar para as pessoas. Não havia pretensão financeira, mas com o passar do tempo o público passou a sugerir que as apresentações fossem remuneradas, entendendo como alento o que minha música passou a trazer nesse momento emocionalmente difícil. Porém, sabendo que além do emocional, muitas pessoas já atravessavam uma fase economicamente difícil, aceitamos que as contribuições seriam bem-vindas, já que vivo da música, mas desde que fossem feitas de forma espontânea e preferencialmente anônima. Desta forma, tenho sido “premiado” com um apoio enorme de pessoas muito generosas. No começo da pandemia, fiz um texto com o título, Invoco, Convoco, Provoco, que está numa edição anterior da Revista Eletrônica Pátria Distraída, com o intuito de provocar os artistas em geral, principalmente os daqui da cidade, para que percebessem o momento e também passassem a fazer suas apresentações, como eu me propus. Diárias, ou esporádicas, mas que fizessem, para aumentar essa corrente de arte e diversão, levando suas experiências, conhecimentos, talentos. E para também encantar as pessoas, ávidas para encontrar mais formas de passar o tempo em suas casas, em quarentena rigorosa, imposta no início. A necessidade fez alguns músicos buscarem as apresentações virtuais, de forma tímida, e lá de vez em quando, mas infelizmente ainda há muitos escondidos em sua estabilidade garantida com dinheiro público. Me inquieta o silêncio dos músicos que recebem dinheiro do contribuinte aqui em Curitiba, e que nesse tempo todo fizeram quase nada com sua arte para justificar seus salários ao público em geral; não apresentam algo que possa aliviar, entreter, melhorar vidas. Há algo errado nisso. Ora, um músico das orquestras, das escolas, do conservatório, poderia, e deveria, fazer um trabalho de fato, pelo menos duas vezes por semana (na minha opinião deveria ser mais dias…), mostrando seus conhecimentos, performances e ministrando uma espécie de aula com música, falando do seu instrumento, executando peças populares; mostrando, enfim, nesse momento delicado, que se preocupam com a população que paga os seus salários. Indignação é o que sinto. Não porque eu estou fazendo bastante apresentações virtuais. Gosto disso e gosto que as pessoas gostem. Mas porque somaríamos mais movimentação para proporcionar algum alívio, através da arte, da distração, do envolvimento com a população, tão necessitada dessa área do conhecimento. É lamentável!

Não sei e ninguém sabe quando essa pandemia será controlada. O que sei é que espero poder sobreviver e que possa ter sempre algum público me acompanhando. Não só pela sobrevivência, mas bastante pelo prazer de cantar o que tem de melhor na música brasileira e latino-americana, que há muito tempo fazem parte da minha vida e são expressões fortes e legítimas de um continente. As canções que encantam as pessoas e as fazem manter a chama acesa da participação, dando suporte e respostas generosas ao artista que escolhe um caminho como eu escolhi, avesso à mídia e a brutal indústria fonográfica, que ignora toda a criação mais elaborada e não comercial. Mas resistiremos sempre. A força interior que alimentamos, vem da grandeza das criações, da importância histórica e cultural de um povo que tem muita energia e criatividade para resistir e sobreviver.

Para encerrar deixo dois testemunhos de pessoas que me alegram com suas emocionantes e carinhosas palavras.

O primeiro texto é de Andressa Barrichello, escritora e criadora do site Fotoverbe-se, junto com seu companheiro Paulo Andrade. De Lisboa, onde vive, ela escreveu sobre as minhas apresentações:

“Quantas terão sido as apresentações que o músico Guego Favetti já fez a partir de sua casa durante essa pandemia?

Muitas já foram as vezes em que vi a sua imagem na minha tela, com frequência tal que arrisco dizer: faz quatro meses que Guego se apresenta todos os dias. E não ter a certeza quanto as datas ou ao número de dias exato é o que me permite atestar o mais importante: a sensação de que ele está lá todos os dias. Para nós. Por nós. E também por ele mesmo, porque a música é a sua forma de atravessar esses dias. Enquanto Guego estiver cantando será possível acreditarmos que está tudo bem e que mais um dia foi vencido lá e cá?

Nem sempre acompanho as músicas ou interajo, mas sempre dou por sua presença ali e hoje percebi o quanto a palavra “apresentação” ganha um sentido todo especial nesse caso: é, como dito, de presença que a coisa se trata, de não deixar os outros sozinhos, comparecendo num momento em que é preciso resistência para insistir e persistir no que quer que seja.

Dia desses cheguei a pensar: por que é que o Guego de vez em quando não senta noutro canto da mesa, mudando um pouco esse cenário? A mesma posição diante das câmeras às vezes dá a sensação de que a apresentação é sempre a mesma!

Hoje, entretanto, percebi o quanto a repetição se justifica: a essência do gesto, além de oferecer a presença, é celebrar a música. E a música, bem como as histórias que a ela se juntam, são a narrativa que se pode construir no bem delimitado espaço que Guego e sua namorada Fabiane Cassou criaram para que ocupássemos. Esse espaço é bastante, é seguro, é nosso: a previsibilidade não é o que por vezes nos garante alguma paz?

Quando a velocidade do mundo nos incentiva a querer a variedade, Guego nos traz a constância e a percepção de que nela podemos explorar de fato alguma variedade que seja conteúdo e não mera alienação.

Assim, de forma despretensiosa, Guego e Fabiane criaram um programa no melhor sentido de programa, que é o do lazer planejado. Isso que costumamos associar ao fora de portas. “Assistir um programa” não é a mesma coisa do que “fazer um programa”, não é mesmo? Fazer um programa implica em também comparecermos, a interagirmos com a realidade.

O mais comum em “lives” é que as pessoas dirijam seus comentários aos protagonistas. Nas apresentações de Guego é possível ver pessoas interagindo entre si, o que corresponde a ter conseguido formar uma plateia, ou seja, um verdadeiro compartilhamento de espaço ainda que um espaço mediado pela caixa de comentários.

Guego e Fabiane conseguiram, ainda, reavivar o sentido positivo da palavra entretenimento que é o de preencher, ocupar, prender a atenção; e promover uma necessária distração. Distração que não é desatenção, é recreação. Essa recreação que remete mesmo àquela noção de recreio: um espaço livre, lúdico, para um bem-vindo intervalo.

Sorte a de quem puder se deter no Guego, apesar desse lugar tão fluido que são as redes sociais.

Quem o fizer descobrirá e aprenderá novas canções, se emocionará dando destino às lágrimas represadas em tempos difíceis, conhecerá um pouco mais da história da música brasileira e poderá se aproximar de artistas dos quais o Brasil, para fazer jus, precisa lembrar e relembrar.

Que façamos nós verdadeiro jus ao que o Guego e sua doce Fabiane nos proporcionam!”

O segundo pequeno texto é de Aldo Zarbin, professor da UFPR e imortal na Academia Brasileira de Ciências.

”Acho que antes da 1a. live musical de “famosos” aparecer, o meu parceiro Guego Favetti já estava lá, nos proporcionando a sensação deliciosa da sua arte. Já sabemos, já faz parte da rotina do isolamento, às 19h30min tem o Guego. Poucos dias depois da 1a. apresentação, ele e a querida Fabiane Cassou melhoraram a infraestrutura da apresentação, e o boteco ficou com a cara atual. Artista, com um enorme A maiúsculo, indo aonde o povo está, driblando as dificuldades com aquilo que artistas (e coincidentemente cientistas também) têm de diferencial: criatividade!

O texto da Andressa Barrichello aí compartilhado, é de uma beleza poética que sumariza um pouco o que hoje já pode ser considerado um legado da arte curitibana na pandemia!

Viva parceiro!”

 

Para acessar a live, clique aqui.

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