Uma rua que dorme distante

Luiz Carlos Heleno*
Lá em nossa cidade, no final dos anos 60, era uma alegria ir ao estádio ver o Pindorama
jogar – o palco de grama para a firme zaga com Bispo e Bolívar, para os passes de Eurides e a
habilidade de Badu (um camisa dez de ótimos dribles e conclusão), para a velocidade de Pardal,
Pinguim, e tantos outros que nos encantavam. Sempre juntos, tão logo terminava o futebol, fim
de tarde, a gente se reunia no campinho do Noel, na Rua Rio Grande do Sul para falar sobre o
Pindorama e ver as garotas nossas vizinhas (Walquíria, Terezinha, Roseli, Joana) que sempre
apareciam para conversar sobre amenidades e coisas da rua. Ali acontecia às vezes de
dividirmos pipocas, sorvetes, salgadinhos, refrigerantes, etc., entre gargalhadas, olhares e
esbarrões propositais – um repertório de descobertas da pré-adolescência que se esparramava
por afetos longe dos adultos.
Durante a década de 70, muitas famílias deixaram a cidade em busca de melhores
oportunidades nas cidades maiores do Estado e do País, e nesta onda viemos também para
Curitiba. Nossa cidade aos poucos foi se tornando um lugar distante, uma nostalgia, um retrato
na parede como na poesia de Drummond, algo que dormia sob a névoa da dispersão na cidade
grande, e doía na luta incessante dos nossos encontros e desencontros. Uma espécie de round
sem gongo entre o que fomos naquelas tardes e o que nos tornamos vida afora.
Com o avanço das tecnologias nos anos 80/90 e a criação das redes sociais mais tarde,
demos de cara com um admirável mundo novo: a magia de nos reencontramos digitalmente.
Aquela turminha toda já podia então se curtir novamente e se reinventar para relembrar com
saudades os bons tempos vividos no interior. Cada qual com sua carga histórica e sua trajetória,
fomos nos revelando – armazenando nossas imagens, palavras, opções, lazeres, preferências,
decepções, sucessos, alegrias, azedumes, perspectivas, enfim a concepção de mundo que cada
um foi construindo – nossas vidas e nossas mortes.
Pela infovia, fomos participando de grupos e também criando nossas contas particulares.
A nova era estimulava como mantra: “conectai-vos uns aos outros”. Numa dessas conexões,
diante da postagem de um daqueles meninos do interior, levei um susto. Com outras palavras,
ele desejava a morte de um grupo ideológico da denominada esquerda política. Fiquei dias
pensando sobre o assunto, porque claramente pactuo com projetos e idéias defendidas pelo
grupo, digamos assim, “achincalhado” na postagem. Era uma coisa muito agressiva. Tenho
muitos amigos nas redes com opiniões e concepções diferentes da minha, mas a gente mantém
uma relação às vezes amistosa e até afetiva em outras oportunidades.
Olhando para o rosto daquele homem exibido no perfil da página, e buscando naquele
mesmo rosto o menino que vivera entre nós, tive a certeza que jamais desejaria a morte dele.
Fiquei contente por pensar assim, mas tomado por certa melancolia, busquei refúgio nos versos
de uma canção gravada pelo Grupo Fato, da parceria de meu amigo Ulisses Galetto com o poeta
Marcelo Sandmann: “lembra quando éramos jovens/ jovens demais? O tempo nos pegou”.
E me bateu uma saudade enorme daquelas tardes vividas e compartilhadas em nossa rua do
interior, dias em que o sério parecia coisa longe.

*Compositor, escritor e poeta (Colaborações nos jornais O Estado do Paraná, Jornal do Estado, TV É do Paraná, Revista Mediação, Site UOL, Revista online Pátria Distraída, entre outros. Possui também parcerias musicais com o Grupo Fato, e foi um dos autores escolhidos para publicação em e-book pelo Prêmio Off Flip, 2015, literatura infantojuvenil, da Feira Internacional de Paraty-RJ ).

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