À esperança, essa equilibrista!

por Martinha Vieira

Tenho falado, nesse espaço, sempre a partir da música. Assim, tenho nas canções que ouço uma fonte de leitura sensível da vida, do mundo, dos fatos, dos gestos, dos sentimentos… Melodias, palavras, versos, poesia: nessa rede me embalo, nesse enredamento me transcrevo, me fundo e me sinto, nesse fio invisível a olho cru, visível a olho nu – despojado, pelo qual tece a arte seu jeito de nos fazer ser pelo sentir. Aquele que tece com esse fio manobra a vida pela seiva. E com habilidade a injeta no humano por meio de sonoridades, palavras, texturas, formas, luzes, cores e tantas materialidades visíveis que evocam o invisível, o sensível.

Dentre os tecedores desse tecido escolho hoje Aldir Blanc, o cronista, poeta e letrista de inúmeras das mais belas e instigantes canções brasileiras, como Caça à raposa, Mestre-sala dos mares, Rancho da goiabada, O ronco da cuíca, De frentre pro crime, Amigo é pra essas coisas, Transversal do tempo e, dentre muitas outras,  a canção que se tornou o hino da anistia, o hino da esperança, “O bêbado e a equilibrista” (inspiração para esse texto e para a vida).

Poeta é aquele que joga luz na alma. Luz que nem sempre é confortável, luz que às vezes agride o olhar, se habituado à penumbra.

O cronista, o olhar contundente e às vezes despretensioso sobre o cotidiano.

Quando o fio da vida se estica tenso em corda bamba e o circo se torna mortal, o tecedor das palavras vem oferecer seus fios para que o humano se permita tecer dentro de si a rede a lhe proteger contra o salto mortal.

No Brasil, voltamos a dançar na corda bamba. E durante a dança o gerente do circo mandou retirar toda e qualquer rede de proteção. Também demitiu o responsável pela manutenção dos equipamentos. As roldanas rangem dando sinais de cansaço sem ter quem as lubrifique ou  dê reparos ao seu mecanismo. A lona já está no furo, as arquibancadas podem não suportar mais o peso da plateia, que assiste ao triste espetáculo. Alguns atônitos e amedrontados, às vezes gritando sua revolta. Há os inocentes que acreditam que se houvesse risco o circo teria sido interditado. Já, outros desafiam, achando que qualquer um pode subir lá sem proteção e dar um show, e que os equilibristas não são de nada, que são inúteis. Também pensa assim o gerente do circo, estimulando a plateia a subir na corda bamba, e no trapézio, e no globo da morte, e a sapatear com força sobre a estrutura enferrujada e corroída das arquibancadas. Diz ele: “podem subir, podem pular, não é arriscado, e se por acaso você cair e morrer, um dia você ia morrer mesmo, pô! Isso tudo é frescura, só os velhos que não aguentam e morrem, mas isso é normal, velho morre por qualquer coisa mesmo”.

No centro um grande placar eletrônico, que o gerente do circo tentou esconder, é alimentado pela união de alguns donos de equipamentos de som e imagem, que contabilizam os tombos, as quedas, as tragédias diárias.

Por algumas vezes, a esperança aparece debaixo da lona furada, deixando passar a lua. A cada furo uma estrela, “um brilho de aluguel”, um empréstimo do céu ao cair da tarde.

Ela (a esperança equilibrista) “dança na corda bamba de sombrinha, e em cada passo dessa linha pode se machucar”. Asas a ela! Ela precisa voar! Manter-se a salvo, intacta, alimentada pela coragem da palavra, do gesto, da atitude, da consciência e do conhecimento – esses humanizadores do humano.

Ela dança, como quem flutua, impulsionada por tudo aquilo que foi banido do circo – o conhecimento e a consciência, que no meio do caos se erguem como ventos capazes de reduzir a tragédia em que afunda o circo; ou, como as estrelas salpicadas no picadeiro; ou, ainda, como a inocência gentil de um Carlitos, com seu chapéu coco e seu passo torto, a ofertar uma flor. Ele, trajando luto, na embriaguez entrega-se à incerteza, ao sabor do vento, do acaso, do ocaso. Ele (o bêbado) e ela (a equilibrista) em constante luta dentro de nós, ora um, ora outro, como “nuvens, no mata-borrão do céu”, perdidas, nesse “sufoco louco”, nesse vento/ turbilhão, de dentro pra fora e de fora pra dentro.

Não gostamos da dor, não queremos que ela exista, mas quando ela acontece, torna-se inútil se não fizermos dela motor de transformações profundas, a exemplo do que disse o poeta Aldir Blanc nessa canção “O bêbado e a equilibrista”: “mas sei que essa dor assim pungente não há de ser inutilmente”.

Tal qual o bêbado, a irreverência: “irreverências mil pra noite do Brasil”, pra quem instaurou a noite no Brasil, a escuridão, a treva, a cegueira útil ao poder do troglodita, falso patriota, que zomba da dor que chora “a nossa pátria mãe gentil”, por “tanta gente que partiu” nesse insano “rabo de foguete”, cujo combustível é a maldade e a ignorância do déspota e de seus seguidores.

Tal qual a equilibrista, a esperança: “a esperança equilibrista sabe que o show de todo artista tem que continuar! O artista é o artífice, o transformador de tudo que a vida nos oferece de bom ou de ruim. Sejamos todos artistas, artífices de nossas vidas, de nossos rumos, de nossos olhares, do nosso sentir, do nosso sentido tanto pessoal como coletivo de viver, de ser.

 

Ao poeta, cronista e letrista dessa canção que habita em nós, “O bêbado e a equilibrista”, toda reverência e admiração profunda.

Aldir Blanc, como tantos brasileiros a quem também presto aqui minha homenagem, foi vítima fatal (na madrugada de 04/05/2020, no Rio de Janeiro) do vírus que assola o mundo e que se agrava às últimas consequências no Brasil pela ignorância e pela crueldade do “gerente do circo”, que dá de ombros pra isso tudo.

Salve, Aldir Blanc! Tua poesia permanece!

 

A canção, inspiração para esse texto, “O bêbado e a equilibrista” (letra de Aldir Blanc, música de João Bosco)

 

Caía a tarde feito um viaduto

E um bêbado trajando luto me lembrou Carlitos

A lua tal qual a dona do bordel

Pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel

E nuvens lá no mata-borrão do céu

Chupavam manchas torturadas, que sufoco louco

O bêbado com chapéu coco fazia irreverências mil

Pra noite do Brasil, meu Brasil

Que sonha com a volta do irmão do Henfil

Com tanta gente que partiu num rabo de foguete

Chora a nossa pátria mãe gentil

Choram Marias e Clarisses no solo do Brasil

Mas sei que uma dor assim pungente

não há de ser inutilmente

A esperança dança na corda bamba de sombrinha

E em cada passo dessa linha pode se machucar

Azar, a esperança equilibrista

Sabe que o show de todo artista

tem que continuar

 

A parceria, uma das mais fecundas da história da música brasileira: João Bosco e Aldir Blanc. E a canção, uma das mais contundentes da MPB engajada, do período da ditadura militar: “O bêbado e a equilibrista”. Gravada por João Bosco, no seu disco “Linha de passe”, 1979, a canção ganhou repercussão e fez sucesso principalmente na voz de Elis Regina, que a gravou também em 1979, primeiro em um compacto e em seguida no seu disco “Essa mulher”.
João Bosco havia feito um samba em homenagem a Charlie Chaplin, por ocasião da sua morte, com passagens melódicas (segundo ele próprio) semelhantes a “Smile” (tema do filme “Tempos modernos”) e chamou o parceiro poeta e letrista Aldir Blanc para mostrar a sua melodia. No mesmo dia Aldir encontrara casualmente o cartunista Henfil e o músico Chico Mário, que falaram muito do seu irmão que estava no exílio, o Betinho (o sociólogo e ativista Herbert de Souza). E declarou Aldir: “O papo me deu um estalo. Cheguei em casa, liguei para o João e sugeri que criássemos um personagem chapliniano, que, no fundo, deplorasse a condição dos exilados. Não era a ideia original, mas ele não criou caso e disse: ‘manda bala, o problema é seu’.”
E assim se fez a canção que se tornou o hino da anistia, com os versos “meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil, com tanta gente que partiu num rabo de foguete. Chora a nossa pátria mãe gentil, choram Marias e Clarisses no solo do Brasil”. O Brasil vivia um momento delicado, já se passavam 15 anos de ditadura militar, rechaço ideológico, perseguições, tortura, mortes, e a pressão da população por meio dos movimentos sociais e artísticos pela anistia e pela abertura política era intensa. A coisa estava por um fio, a promessa ainda frágil de “concessão” da liberdade aos exilados e presos políticos acendia um chama de esperança nos corações, mas a “esperança equilibrista” dançando “na corda bamba de sombrinha” é claro que corria o risco de se machucar. E o movimento crescia, os comícios que reuniam 500 pessoas passaram a contar com 5 mil.
Elis gravou a canção e chamou seu amigo Henfil para ver como ficou, e ele disse: “Quando acabou a música, percebi que a anistia ia sair. Liguei para Betinho e disse: agora temos um hino, e quem tem um hino faz uma revolução.”
Quando Betinho voltou ao Brasil, em setembro de 1979, encontrou uma verdadeira multidão à sua espera no aeroporto, cada um com um toca-fitas nas mãos, rodando “O bêbado e a equilibrista”, na voz de Elis. Depois disso, era comum que grupos cantassem ou tocassem a canção na chegada de outros exilados anistiados. E, enfim, naquele tempo, amanheceu a noite do Brasil, porque “o show de todo artista tem que continuar”.

(Informações retiradas do livro “Furacão Elis”, de Regina Echeverria – Editora Globo, 1998).

 

Nesse link https://www.youtube.com/watch?v=1BWk5jxw9r0 a gravação de Elis Regina para “O bêbado e a equilibrista”, no disco “Essa mulher”, 1979.

 

Nesse link https://www.youtube.com/watch?v=CD-kIgMsq2Y a gravação de “O bêbado e a equilibrista” por João Bosco, no disco “Linha de Passe”, 1979.

 

Nesse link https://www.youtube.com/watch?v=Z2FxGL2SWGw o filme “Vlado, 30 anos depois”, de João Batista de Andrade, que conta a história de Vladimir Herzog, jornalista morto por excesso de tortura nas dependências do DOI-Codi, em 1975. O filme reúne depoimentos de jornalistas amigos de Herzog (Paulo Markun, Mino Carta, Fernando Morais, Alberto Dines e Sérgio Gomes) e de sua viúva, Clarice Herzog, a quem a música de Bosco e Blanc se refere, ao som de “O bêbado e a equilibrista”.

 

Charge de Henfil, inspirada na canção “O bêbado e a equilibrista”- 1979.

 

28/06/2020

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