O novo grande irmão

Ensaio sobre Isolamento Social e Governança

Adalberto Fávero

“É preciso mudar algo para que tudo fique como está.”

(diz Tancrede, personagem de O Leopardo)

 

            Há uma panacéia diária sobre uma pretensa luta entre ministros e adeptos do isolamento social e um presidente da república e seus seguidores que defendem “a liberdade do ir e vir” e, na carona desta defesa, os lucros e as necessidades do mercado

Acho panacéia porque para tais senhores a vida nunca foi ou será importante, a ponto de se sobrepor aos interesses determinados pelo sistema e interesses que representam.

Em um sistema dominado pelo mercado e com um Estado de ocupação (alinhado e a serviço dos grandes conglomerados e afins) não é possível ser generoso e não há lugar para o outro; neste contexto com prioridades bem definidas pela cobiça só é conhecimento aquele conhecimento que é útil ao mercado; morrer cem mil pessoas importa menos que a falência de vinte empresas.

Eduardo Galeano, este sábio contador de histórias e cantador da vida, lembra que em “um sistema de desvinculo: boi sozinho se lambe melhor… O próximo, o outro, não é seu irmão, nem seu amante. O outro é um competidor, um inimigo, um obstáculo a ser vencido ou uma coisa a ser usada. O sistema, que não dá de comer, tão pouco dá de amar; condena muitos à fome de pão e muito mais à fome de abraços.” (Livro dos Abraços)

Por esta razão, este é um tempo “de humilhadeiros e não de solidadeiros”! Que mundo é esse em que presidentes são eleitos pela televisão e redes sociais e os poetas são cada vez mais decorativos? Que tempo é esse em que a política dá um espetáculo de democracia, desde que a economia não o seja? Quereria a desmemória de um avô feliz por não lembrar ou do bisneto que ainda não a teceu? Que democracia é essa que tem medo de rememorar e recordar suas mazelas e dores? Haverá algum tapete capaz de esconder a sujeira da memória? Não seria urgente e necessário reavivar a memória viva daquilo que já foi e contra o que será? Não se trataria de reavivar a história humana, sem a qual se cai no caminho da morte? Ou de (de)sonhar os sonhos, trazendo a morte na nuca e a vida na cara com delírios, razão e paixão?

Em isolamento social (este nome estranho batizado para este momento de dubiedades e insanidades), como tantos, e por necessidade urgente e inteligente, afinal a prevenção sempre foi o melhor dos tratamentos (e no caso da atual pandemia a única opção razoável ou disponível), em tempos de idiocracia e de abstinência de gente, não posso deixar de pensar que esta necessidade esteja sendo uma bela oportunidade do sistema e seus amos se re-programarem e/ou re-planejarem, re-criarem o controle e a vigilância de tudo e de todos.

As últimas décadas nos fizeram acostumar e internalizar algumas expressões e práticas que atingem o âmago de nossas vidas, costumes e relações. Aprendemos a achar normal a flexibilização do trabalho e das leis trabalhistas; incorporamos a ideia da des-regulamentação; adotamos e participamos de avaliações de desempenho e da produção; incorporamos a proposta de avaliações sistemáticas da educação, dos educadores e estudantes; passamos a fazer planejamentos estratégicos e levantamentos de cenários; adotamos as habilidades e competências nas empresas e escolas; substituímos a proposta de sujeitos históricos por protagonistas e empreendedores; aceitamos e vivenciamos a perspectiva de eficiência e resultados nas empresas, escolas e no trabalho do trabalhador e assim por diante; incorporamos a ideia de gestão e governança como passo moderno para as empresas e o Estado…

O princípio de gestão ou governança adotado e/ou tecido nas últimas décadas, passou a trabalhar, tendo como pilares, a autonomia controlada e a interiorização do protagonismo    produtivo com o trabalhador, medindo com avaliações constantes a sua eficiência, resultados e produção, tendo o desemprego e precarização dos empregos e salários como pano de fundo para gestão das pessoas e das avaliações.

Passou-se a falar, por exemplo, em administração de pessoas já nas décadas dos 80/ 90 e esse processo foi se aprofundando. Pessoalmente, tive a triste experiência de participar (e talvez ser um dos responsáveis) na tessitura de um plano de carreira, o qual era reivindicação de muitos companheiros de trabalho, e vê-lo se transformar em avaliação de desempenho e eficiência produtiva. Medição de resultados.

No lugar de seguir procedimentos formais ou ordens hierárquicas, gradativamente, os trabalhadores foram submetidos às demandas, pressões e eficiência exigidas pelos clientes e/ou incentivados por gratificações por desempenho individualizado. A competição como regra ou maneira de se portar passou a ser crescente e exigente, minando, entre outras coisas, a solidariedade de classe.

Gestou-se, passo a passo, um mundo no qual todos devem ser empresários de si mesmos e a “livre escolha” uma norma de conduta. O indivíduo deve ser ativo, calculista e eliminar seus concorrentes. O espaço público foi atingido pela ideia de governança das empresas, assumindo o tripé dos planos estratégicos com solvência garantida, métodos estritos de controle e transparência de gestão.

No bojo da ideia de habilidades e competências como essenciais e estratégicas para avaliações nas empresas ou na formação escolar formal e informal, a perspectiva e necessidade de cada um ser protagonista e empreendedor individualmente, foi transformando o assalariado em um mini empresário com a responsabilidade de ser autônomo em sua ação dentro do mercado. O trabalho home office, por exemplo, se solidifica sob a versão de autonomia de horário e local, escondendo a volta aos tempos de estar à disposição da empresa vinte e quatro horas (24), desconhecendo as leis trabalhistas e as conquistas dos últimos séculos, realizada a duras custas pelos trabalhadores.

Insista-se que se tratou de internalizar e incorporar, com gradativo cuidado, essa perspectiva de que cada um é empresário de si mesmo, tem sua “liberdade de escolha” baseada em normas de conduta em que o indivíduo tem que ser ativo e calculista, na espreita permanente de uma nova oportunidade e prontidão frente aos concorrentes, maximizando os seus próprios interesses e escolhendo sempre pelo mais vantajoso. Cada indivíduo é um capital humano que deve frutificar, cuidar de si mesmo e ser empresário da própria vida. Não se é mais sujeito, cidadão ou trabalhador e sim um recurso.

Nesse contexto, o espaço público é cada vez mais uma espécie ou um estilo de shopping Center. Trata-se da privatização dos costumes e das relações pessoais, sociais e trabalhistas, o que se verifica nas relações internas das empresas entre “colaboradores” e destes com seus “gestores” ou na relação do professor com as famílias consumidoras, um procedimento gestado a partir da década dos 80/ 90.

Esse processo de governança, acompanhado por sistemas gerenciais informatizados, estabelece uma rotina de controle permanente, tratado como acompanhamento das atividades e/ou profissionalização da ação da empresa. Normalmente, sua implantação vem floreada e adocicada como facilitadora das ações diárias e das informações de suporte da ação e/ou facilitadoras das relações mediadoras. Neste contexto e igual maneira é que a maioria dos planos de carreira, por exemplo, passam a ser tratados na perspectiva da avaliação de desempenho e medição de resultado.

No horizonte deste contexto, o Estado de ocupação representa e age para garantir o funcionamento do sistema e não na garantia do bem comum ou da coisa pública. Não se trata de ausência de estado ou de estado mínimo na visão até então vivenciada e sim de um Estado atuante na implementação das regras de conduta de mercado, para a concorrência individual. Em momentos de crise, age para garantir que a máquina funcione e não dê prejuízo a seus sócios majoritários (bancos, capital interno e externo, grandes conglomerados…) e não em prol dos cidadãos em seu conjunto. Há fundos para salvar bancos e grandes empresas, por exemplo, e não para salvar vidas, matar a fome ou gerar renda mínima.

Um sistema assim moldado se estabelece, entre outras coisas, para matar as organizações reivindicatórias e as mobilizações coletivas organizadas e sua maior força está na pressão do desemprego, na sua precarização ou na individualização da ação, dos costumes e relações sociais e trabalhistas. Isso explica um pouco da dificuldade de mobilizações, do esvaziamento dos sindicatos e do sucesso de movimentos via redes sociais e afins.

Na perspectiva de início de uma reflexão e análise situacional, pretendida neste artigo, parece-me importante voltar a atenção para várias questões, perguntas, possibilidades e necessidades. Entre elas, destacam-se interrogações estruturais sobre a re-articulação do sistema e à estratégia de vigilância e autovigilância estabelecidas na atual articulação ou re-leitura do neocapitalismo. Inclui-se neste campo uma organização de controle cada vez mais sofisticado, sistêmico e de capacidade planetária, até então desconhecido ou não percebido.

O isolamento, indispensável para combater a pandemia do coronavírus, não estaria também a serviço da re-articulação do sistema neoliberal? A perspectiva ou necessidade do isolamento não estaria permitindo a implantação de uma série de leis que restringem a liberdade e os direitos individuais e coletivos? Este momento não estaria permitindo a centralização de poder e o uso de Estados de exceção, minando o sentido da democracia e participação da população? Não faria parte desta rearticulação a pretensa falta de ação dos poderes constituídos nas repúblicas do norte e do sul? Sem cair em teorias de conspiração, não estaria sendo oportuno o surgimento da pandemia? Serão, realmente, pontos fora da curva a atuação e manifestação do presidente do nosso país e/ou dos demais apoiadores do modelo brasileiro? A esquerda oficial não estaria buscando analisar a situação presente com categorias ultrapassadas, com reformismos “autorealizantes” e “autojustificantes” ou como parte do mesmo jogo de individualização do trabalhador e da ação econômica/política? Não estaríamos como cordeiros indo para o matadouro ao dar vazão e repercutindo as falas e mazelas dos idiocratas no poder, publicadas no atual estágio de governança do país e/ou do resto do globo? Não haveria outras pandemias econômicas, políticas e sociais de longa duração sendo gestadas sob a égide lógica do combate ao vírus? Bastará as águas de um rio para apagar nossa memória? Até que as onças tenham seus próprios historiadores, somente as histórias dos caçadores serão contadas? Neste contexto, o nosso isolamento social não pareceria mais uma prisão domiciliar enquanto o sistema se recicla? Não estaríamos sendo privados do livre movimento do pensar com o controle cada dia maior das redes sociais e dos processos de reivindicações coletivas? Não estará sendo mais fácil, neste contexto, a instalação do Estado de ocupação e o capitalismo de vigilância? O espaço da dissensão não está sendo cada vez mais estabelecido? Estaríamos, definitivamente, à mercê de um novo grande irmão, além do pensado por George Orwell? Estaríamos caindo na cilada da vigilância de cada dia, propositalmente instalada, para ensinar o medo?

No bojo destas e outras questões possíveis, parece importante insistir ou re-memorar que existe uma grande parcela de nossa gente que vive como um menino abandonado. Um menino que toca em nossa mão e sussurra com medo de uma reprimenda: –  Diga a alguém que estou aqui. Vivem como se não tivessem nunca existido!

Para aqueles que gritam pela prática, pela economia acima da vida e pela objetividade como religião, importaria pensar e se pensar, se por acaso não estariam desejando apenas serem objetos para se salvar das dores humanas.

É fato, insista-se, que vivemos num momento de revanche ideológica e implementação de novas regras de relações e condutas sob a égide do mercado. No entanto, importaria fazer renascer a capacidade de se perguntar, se indignar, se rebelar, se colocar à margem do caminho comum, se capacitar de novos sonhos e se solidarizar.

A história nos cobra e nos cobrará isso, enquanto geração que vive este momento histórico e precisa recobrar a capacidade de ser sujeito, de caminhar com os demais e se sensibilizar com outro. Não bastará ficar em casa à salvo da pandemia, esperando a banda passar cantando coisas de amor!?

No sistema neoliberal em “refundação”, se assim o desejarmos denominar, com uma mão se rouba e com a outra se empresta; o cidadão comum quanto mais paga, mais deve, quanto mais recebe, menos tem.

É certo que a descrição deste sistema possa ser feita de diversas maneiras ou por múltiplas teorias. Todas elas terão sua razão e vertentes importantes para um novo contra-discurso. Do meu ponto de vista, que é a vista de meu ponto, penso que um jeito escandalosamente verdadeiro poderia ser este:

“Os funcionários não funcionam.

Os políticos falam, mas não dizem.

Os votantes, votam, mas não escolhem.

Os meios de informação desinformam.

Os centros de ensino ensinam a ignorar.

Os juízes condenam as vítimas.

Os militares estão em guerra com seus compatriotas.

Os policiais não combatem os crimes, porque estão ocupados cometendo-os.

As bancarrotas são socializadas, os lucros privatizados.

O dinheiro é mais livre que as pessoas.

As pessoas estão à serviço das coisas.”

(Eduardo Galeano)

(Livro dos Abraços,p.129)

                           

 

 Bibliografia (Sugestões de Leituras)

Dreifus, R, A Internacional capitalista. Editora Espaço e Tempo,1986, Rio de Janeiro

___________ Época de Perplexidades Editora Espaço e Tempo,1990, Rio de Janeiro

Dardot, P e Laval, C.   A Nova Razão do Mundo, ensaios sobre a sociedade neoliberal. ED, Boi Tempo, 2019, São Paulo

Castells, M Fim de Milênio. Ed. Paz e Terra, 1999, São Paulo

Piketty, T. O Capital, no século XXI. Ed. Intrínseca Ltda, 2014, Rio de Janeiro

Santos, M.S. e Mesquida, P. As Matilhas de Hobbes. Ed. Metodista, 2014, São Paulo

Galeano, E. Memória do Fogo. L&PM Editores, 2013. Porto Alegre

————- Livro dos Abraços L&PM Editores, 2014, Porto Alegre

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